O Laudêmio é medieval e anticristão

2 maio 2013

O LAUDÊMIO É MEDIEVAL E ANTICRISTÃO.
Geraldo Bernardo

Sousa, cidade que respira futrica. Pouco ou quase nada se fala de política, mas, nas esquinas, calçadas e oitões o falatório geral é da politicalha.

A elite local, que sempre se locupletou do que é público, esparrama-se sobre o espólio espúrio dos antigos coronéis e, com a ganância afiada, vai carcomendo as vias de desenvolvimento num crescente neocoronelismo.

De história maquiada, contada pela voz dos vencedores com o objetivo criminoso de se impor sobre os dominados, a cidade de Sousa não tem cumprido a função essencial de cada cidade, cuidar de seus cidadãos.

Desde os invasores portugueses, assassinos e estupradores capitaneados por Bento Freire, até os dias atuais, os caudilhos locais têm tomado conta das estruturas de poder para se locupletarem e auferirem lucros patrimoniais.

Apesar da sanha gulosa desta gente que ao longo do tempo legalizou terras griladas, cometeu crimes de toda a ordem contra o povo e, ainda por cima, tornaram-se heróis de uma comuna marcada pela exploração e violência, apesar de tudo isto, a cidade ainda dorme na tenebrosa dominação das eras.

O nome das ruas, os equipamentos ditos públicos, os livros de memórias, enfim, todas as coisas materiais e imateriais que alicerçam nossa memória, estão manchadas. Há nódoas que não saem nem com o melhor abrasivo que a verdade histórica possa produzir.

Exemplos? Temos ao montes. Mirem-se nos manuais que existem nas escolas. Todos dão conta de heróis personalistas. Descaramento é palavra forte, mas, cabe na maioria dos casos. Como a verdade história foi forjada de maneira tão cruel que o opressor vê no oprimido o salvador da pátria.

Dizer que Bento Freire foi herói etc. e tal é mentira. Foi invasor, usurpou as terras pertencentes aos Icozinhos, mas, nas escolas, os carcomidos manuais se reportam aos nossos antepassados ameríndios apenas como figuras que deveriam ser exterminadas. Expressões como: o gentio, gente da terra etc. escondem a cumplicidade assassina da igreja católica, a mesma igreja que manchou de sangue estas terras, também maculou de forma desavergonhada a memória do povo negro, abençoou o crime da escravidão e para coroar “criou um milagre”, no qual a figura do negro ficou perpetuamente marcada como vilão.

Tudo para fortalecer o domínio dos brancos e assassinos portugueses, estupradores de cunhãs e curumins, negros e negras.

Também, a igreja católica, que tem legitimado ao longo de toda nossa história colonialista a usurpação das propriedades, com a conivência permanente da justiça. O instrumento do laudêmio é pernicioso, imoral, antiquado. Não há argumento que sustente a legalidade da cobrança aviltante deste instrumento feudal. Por outro lado, cartórios abusam de preços e burocracia para afastar os pobres de alguma posse, alicerçando a tese do pagamento de laudêmio como documento ao invés da escritura pública, desta maneira têm-se legitimado secularmente a grilagem.

Também os vereadores desta cidade, por toda nossa história, têm sido cúmplices da apropriação indébita, por parte desta gente sem escrúpulos. Quem ouviu falar que em algum momento, algum destes que se dizem representantes do povo, manifestaram sua opinião contra o laudêmio?

Conhecemos bem quais são as intenções malévolas de quem sempre tem ocupado a casa legislativa. Sabemos muito bem de que lado está e como têm sido, todos até agora, legitimadores da usurpação. Não há um único mandato, em toda a nossa história, que não tenha sido subserviente aos interesses da hipocrisia e da dominação.

Apesar de uma arrecadação vultosa, uma dominação implacável e perseguidora, isso mesmo, perseguidora do livre pensar, esta instituição se mantêm como impoluta, mas tem nas mãos o sangue de negros, índios, trabalhadores, têm em seus cofres as benesses das elites locais para calar a boca e pensamento dos explorados de toda a sorte.

Não estou falando de religião. Pois, sempre tentam desvirtuar o discurso, colocando-se como vítima e acusando de heresia a voz discordante. Refiro-me a uma estrutura opressora, anticristã, chamada igreja. Não precisamos de igreja para orar, tampouco para perdoar ou encontrar o divino que há em nós. Essa invenção de pedra e cal e funcionários de alto e baixo escalão, chamada igreja, não cumpre a verdadeira palavra de Jesus que recomendou dar aos pobres condições de libertar-se da ignorância material e espiritual.

A cobrança do laudêmio é uma forma primitiva de dominação, alimenta a ignorância de que o sujeito é proprietário de um bem. Nega o papel do Estado, rasga toda a legitimidade e sustenta-se na ignorância daquilo é cidadania.

Contra o pagamento do laudêmio. É uma bandeira de luta, séria que tem compromisso com o trabalhador. Quantas cidades, neste Brasil, têm este mesmo instrumento como legítimo? Pesquisem. O debate está posto, mas é pra quem tem coragem.

Não pague laudêmio e mande a igreja cobrar na justiça, experimente. Não tenha medo de ir para inferno por causa disto, pois, o inferno que existe está na terra, é o inferno a exploração e da ignorância.

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