O MITO ZÉ DE MOURA

7 maio 2018

(Escreveu: Francis Alves Cardoso – Dia 13.07.1984)

 

Muito se falou e ainda se fala sobre José de Moura, um homem com misto de adivinho, santo, médico, advogado, bruxo. Era um vidente que muito ajudou ao povo de toda a região do Vale do Rio do Peixe e vários Estados nordestinos. Bastava a sua fama chegar a qualquer parte, as pessoas necessitadas se deslocavam de suas moradias para manter encontros com o velho Zé de Moura, o grande protetor dos sofridos e desamparados.

Transformou Poço de José de Moura numa comunidade alegre, e um dos pontos turísticos mais importantes da região. Diariamente centenas de pessoas lhe visitavam, a fim de receber conselhos, remédios e principalmente a palavra amiga.

Ainda hoje, mesmo vários anos depois de sua morte, o Poço recebe inúmeras visitas para cultuar a fé a São Geraldo, padroeiro da localidade, o santo protetor do saudoso Zé de Moura.

Recordo muito bem Zé de Moura. Sempre fui um de seus admiradores, desde criança. Certa vez fui lhe fazer uma visita, sendo esta a primeira que fiz ao patrono da vontade de um povo sofrido. Isso aconteceu no ano de 1957, no mês de março. Muita chuva, muita lama. A viagem foi feita a pé, eu e meu compadre José Casimiro. Casimiro era um homem que conhecia tudo naquela região, e dava a vida para fazer um favor. Iniciamos a viagem, conversando, e na esperança de que lá encontraríamos o remédio para os nossos problemas. Quando chegamos ao Sítio Croatá, que hoje nem sei onde fica sinceramente, avistamos longe duas mulheres que também iam visitar Zé de Moura. Nós andávamos mais depressa, éramos novos e uma das mulheres era bem idosa. Com poucos minutos encontramos as duas senhoras. Identificamos-nos e elas também. Tratava-se de uma senhora que estava levando sua irmã, com debilidade mental, para receber as curas de Zé de Moura. Depois de uma boa conversa com elas pedimos desculpas e fomos embora. Dissemos que estávamos com pressa e não podíamos andar juntamente com elas. Elas ficaram tristes porque estavam certas que nós seríamos companhia até o Poço. Seguimos viagem. Depois de andarmos uma meia hora sentimos que a estrada estava errada. Retornamos, pegamos o caminho certo e mais na frente, estavam as duas senhora. Mais uma vez conversamos com as duas, que perguntaram o que tinha havido, e nós um pouco chateados dissemos que fomos visitar um amigo.

Mais uma vez nos despedimos e fomos embora. As duas mulheres ficaram na estrada. Por volta do meio dia sentimos que a estrada estava errada, novamente. Voltamos um pouco, entramos na estrada certa e seguimos a complicada viagem. Lá na frente avistamos um casarão, várias pessoas no alpendre, nos dirigimos até lá. Chegando lá tomamos conhecimento que se tratava de um adjunto que o dono da terra tinha preparado para aquele dia. Tinha matado um carneiro e feito um almoço para os seus trabalhadores. Ao entrarmos na casa lá estavam as duas senhoras, já almoçando carneiro, arroz, macarrão e muita carne.

Depois do almoço o compadre Zé Casimiro me chamou a um canto e disse: “Vamos devagarzinho, junto com essas mulheres, pois do contrário nós não chegaremos ao Poço. Isso é castigo porque nós não estamos querendo acompanhá-las”. E assim fizemos o resto da viagem com as duas. Aqui e acolá elas gozavam da gente: “Como é, erraram a estrada?”

Quando chegamos ao Poço ficamos numa hospedaria, e só no outro dia falamos com Zé de Moura. Quando iniciou a conversa perguntou a nós dois: “Cadê as duas mulheres que vocês não queriam trazer?”

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