O padre, a estudante e o matuto sertanejo

20 jun 2013

Sendo padre, apesar de ser muito jovem, João Antônio era a pessoa mais confiável, na concepção de todos os moradores daquela cidadezinha do interior da Paraíba, chamada São Bentinho, para acompanhar a aluna que vencera um prêmio de redação, cuja temática fora Honestidade, Cidadania e Respeito ao Próximo, e que teria de ir a Brasília, para receber, no Congresso Nacional, o seu merecido prêmio.

Imaginem o reboliço que esse fato causou na cidadezinha e na vida de todos os moradores dos arredores daquela região sofrida do interior da Paraíba, hajam vistas as dificuldades que eles passam em todos os aspectos, imagem no campo educacional,  para acompanhar os novos saberes que a era moderna exige dos educandos e educadores. Por isso, esse era o assunto que circulava em todas as rodas de conversa, dos mais jovens aos mais antigos moradores da região.

A ida da aluna e de seu acompanhante para a capital do Brasil estava sendo organizada pela prefeitura, que fazia questão de enviar uma faixa enorme com o nome do prefeito em letras garrafais. Até aí tudo bem, mas começou uma confusão danada quando o pai da aluna, que nunca saíra do seu sítio para uma viagem tão longa, bateu o pé dizendo que sua filha só iria se ele fosse também. Essa era sua única e irrevogável condição.

Todos estranharam aquele comportamento de seu Zé. Um homem muito simples e pacato, porém bastante observador, de poucas falas, de quase nenhuma diversão e de muito trabalho. Por ciúme da filha não seria, já que o padre era amigo da família. Inclusive casara a filha mais velha de seu Zé, criando assim fortes laços de amizade, o que permitia a seu Zé, trazer, nos dias de feira, leite, queijo e doce de leite para o padre João Antônio.

Mesmo sentindo-se desconfortável, o padre apoiou o amigo no seu firme propósito de ir junto com a filha para Brasília, e assim, entrar no Congresso Nacional. Com muito jeito, o padre João Antônio convenceu o prefeito a arcar com as despesas de seu Zé, reafirmando a lealdade do camponês e de sua família para com o político. E lá se vão os três para a capital do Brasil.

No aeroporto, em João Pessoa, o padre e a aluna estavam tensos, enquanto seu Zé observava tudo calmamente. Vez por outra olhava para o padre e o via debulhando seu velho rosário. Olhava para a filha e via a palidez do seu rosto. Ele não estava com medo. Enfrentara, a vida inteira, batalha muito mais difícil, como a batalha contra a fome e a morte; morte que se morre um pouco por dia, de desesperança, de desalento, de exclusão. Portanto, não seria aquele avião que lhe iria impor temor. Temor tinha à seca do sertão.

Enfim chegara a hora ansiosamente esperada. Entram no avião, juntos, silenciosamente, acanhados. Mas eles têm a simpatia da maioria dos passageiros: há entre eles um homem de Deus. Os passageiros sentem-se mais confortáveis para a viagem. A presença do padre lhes dá uma certa confiança.

A cidadezinha de São Bentinho e toda a Paraíba amanheceram em polvorosa. Os moradores da região também. Toda a agitação é graças aos noticiários locais e nacionais que divulgam, insistentemente, o trágico acidente aéreo: Voo 411, saído de João Pessoa às 10 h da última sexta-feira, com destino a Brasília, cai no mar, após vinte minutos da decolagem.

O que os moradores de São Bentinho e de toda a Paraíba não podem imaginar é que no céu está havendo uma agitação muito maior: revoltado, inconformado, irado, está o matuto Zé, discutindo com São Pedro a respeito de sua morte: a única chance que tivera de dizer aos políticos, cara a cara, da total falta de honestidade que rege suas ações, do distanciamento de uma prática cidadã e do total desrespeito aos eleitores, e principalmente o descaso completo com o homem do campo, morrer antes de chegar ao Congresso. Como ficam o sofrimento, a desesperança, o desrespeito e a exclusão do trabalhador, do homem simples do campo? Que matuto sem sorte! Não é possível não!

Vânia Rocha

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