O POETA PENSANTE EM HEIDEGGER

20 jul 2018

Manoel Matusalém Sousa

Filósofo. Teólogo.Mestre em

Filosofia.Doutor  em Sociologia

Matusalemdasein@yahoo.com.br

 

Comumente  dizemos que a linguagem é expressão do pensamento, mas esta como um exercício de estruturação do sentido está operando o pensamento através  da palavra. Heideggaer após o exaustivo estudo dos poetas gregos e  modernos, conclui que o lugar, o sentido de ser do ente é a linguagem. Em Heidegger não vamos ler  um poema, mas espaços epistêmicos, possibilidade de encontro  com a poesia e o pensamento na tarefa de revelar o ser. Heidegger, ao analisar a relação do pensar como linguagem, mostra que a única tarefa do pensar é trazer a linguagem à presença do ser.

 

Na obra “Da experiência do pensar”, Heidegger declara:

O poeta é na verdade a topologia do ser. Ela diz a este o lugar da sua essência. O que é poeta-pensante senão o pensar originário , aquele que se articula na espaço onde a linguagem consegue estruturar o sentido? Não é um pensar místico, pode até ser  considerado, devido ao poder de fazer surgir o sentido da e na inter-relação das palavras (HEIDEGGER, 1969).

Nesse contexto epistêmico do poetar, ou seja, no universo da poética que transcende  a forma literária é que vislumbra sua poética-pensante existencial sobre a morte. A morte não é para ele, portanto, um puro aniquilamento, representando conforme a experiência da caducidade, que nivela como um fato objetivo, impessoal e necessário, na série das causas naturais, todo trespasse dos entes à suspensão ou ao desaparecimento peculiares ao ser-a-vista. Ontologicamente falando, o homem deixa de viver porque morre, e morre porque lhe é inerente morrer, enquanto poder-ser de cada qual. O infausto acontecimento torna-se possibilidade da existência, ingressando, l e irrepresentável, na relação com o ser a quem  a existência está concernida (cf. NUNES, 1986).

Enquanto  possibilidade de cada homem a morte se pessoaliza no morrer. A qualquer momento, o existir se implanta no morrer. E no morrer o Dasein alcança, a um tempo, sua singularidade e sua totalidade. Heideggaer  (1964: 245) ao afirmar que ninguém “pode tomar a outrem seu morrer1. Também diz: “O final da morte não significa ter o Dasein chegando ao seu fim, mas significa o ser relativamente ao fim desse ente. A morte é o modo de ser que o Dasein assume desde o momento em que existe”.

Essa percepção da morte contrapondo-se ao  fim, funda-se na consciência antropológica de que todo homem é poeta, no sentido que habita a poesia por sua própria estrutura ontológica, interpretativa, desvelante. Estrutura de um ser que é fundamentalmente relacional. Nenhum homem pode deixar de estar-no-aberto, compreendendo-o, sentindo-o,. dizendo-o, porque sua própria estrutura de  existencialidade é a de um ser que se caracteriza por uma estrutura de compreensão, sentimento da situação e discurso.

Não há homem que possa deixar de poetar em algum momento de sua relação com o mundo. Pode nem saber que está poetando, pode não levar adiante seu poder de poetar, mas não de fugir de sua estrutura de …….. quem habita o mundo e o reproduz pela palavra.

A poesia é o limiar da experiência artística, em geral, por ser, antes de tudo, o limiar da experiência de irrupção do ser da linguagem que acede à……. e, portanto, também de interseção da linguagem como pensamento:

O pensamento do ser é o modo original do dizer poético. Nele a linguagem acontece  como linguagem em sua própria essência. O pensamento diz  o ditado.(p.22) da verdade de ser. O pensamento é o dictare original. O pensamento é a poesia original, que precede toda a poesia (na concepção escrita e assim o poético da arte, à medida que esta se torna a obra no círculo da linguagem (HEIDEGGER, 2002: 166).

Assim, sustentada pela palavra essencial , a poesia reconduz-nos à pertença do pensamento e do ser, que possibilita ouvir-nos uns aos outros e sem a qual não existiria o diálogo que suporta o nosso Dasein abrigado na linguagem. Neste sentido, diz Heidegger (2003: 136; 133): “A experiência poética com a palavra que ouvimos inicialmente deve acompanhar o caminho do nosso pensamento  Ambos, poesia e pensamento, precisam um do outro ao extremo, precisam de cada um na sua vizinhança.

Numa consideração epilogal não há contradição entre pensar e poetar, isto é, a convivência entre poética e razão é um modo de ser humano.

 

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