O Quinze, um século após

28 set 2015

Por Onaldo Queiroga*

Um dos maiores períodos de seca vivida e registrada no Nordeste Brasileiro foi o de 1915. A estiagem foi de tamanha magnitude que embasou o livro intitulado “O Quinze”, autoria da cearense Rachel de Queiroz.

Através de “O Quinze”, Rachel iniciou sua fase de escritora e consagrou-se na seara da literatura brasileira. Publicado no estilo romance, em 1930, a obra retratou o sofrimento vivenciado pelo povo nordestino para transpor a grande seca de 1915. O livro traz uma narrativa crítica, mas, de descrição comovente da dura estiagem, da miséria social e das dores do trajeto da forçada migração até a chegada e
estada de um povo em grandes centros urbanos, tentando a todo custo sobreviver.Os que conseguiram vencer a rota da miséria chegaram a Fortaleza-CE, uma das cidades do Nordeste que mais recebeu os flagelados. Eram tantos que se formou um verdadeiro campo de concentração.

Esse triste episódio nos levou a focalizar o número quinze como um fator de tristes recordações, de intenso flagelo de um povo sem água, alimentos e sem políticas institucionais voltadas para prevenir e dar suporte a situações dessa natureza.

O QUINZE

Cem anos se passaram. O mundo é outro, temos maior eficiência na comunicação, no transporte, na indústria, um número bem maior de barragens, mas, a despeito de tudo isso, algo inaceitável, ainda, perdura a ponto de fazer ressurgir cenários desoladores como o que se apresenta atualmente, não só no Nordeste, mas, também, incrivelmente, no Sudeste do país.

Os mananciais, quase todos, estão com pouca água ou já estão secos. São Paulo e Rio de Janeiro sofrem com a escassez d’água. As barragens e próprio leito do Velho Chico preocupam, ante o pouco volume d’água. Estamos em setembro. Como diz no meu sertão, começando os “bros”, meses onde o sol castiga mais ainda esse chão. Quem vive nesse cenário amanhece e anoitece com o céu aberto, sem nuvens e sob o causticante sol. Posso estar enganado, mas agora é que começa o ponto maior da estiagem e do sofrimento desse povo. Quem tem melhores condições financeiras, de mais sorte desfrutará na travessia. Os desvalidos, ao revés, sofrerão intensamente. Que Deus proteja nosso povo!

*Escritor pombalense e Juiz de Direito da 5ª Vara Cível de João Pessoa PB onaldoqueiroga@oi.com.br

Comentários