O soldado e o jacu

6 set 2013

Durante a luta dos jagunços do Padre Cícero, no Ceará, houve um episódio muito significativo. As forças da Polícia estavam absolutamente cientes de como se daria a ofensiva. Os soldados ficariam dissimulados atrás da folhagem, aguardando a ordem de avançar, que seria dada no momento exato em que os jagunços, colhidos de surpresa, não mais pudessem fugir.

Estavam os homens emocionados, contendo a respiração, esperando o sinal, quando um jacu, um danado dum jacu, pousou bem junto do caboclo que deveria ter tomado uns tragos só para esquentar a coragem, mas que bebera bem mais do que o necessário para isto. E o jacu ficou ali, assanhando o soldado, que nem uma dançarina. Saracoteava, ia e vinha, pulava de um galho para o outro, numa tentação que não tinha medida. O silêncio era o mais completo. Tudo parecia morto. Só a danada daquela ave é que continuava o remelexo. Parecia dizer, muito cínica:

– Vamos, atire, se você é homem! Olhe, eu estou caçoando é de você! Sou capaz de fazer meu ninho em cima do cano de sua espingarda. Soldado mole! Vamos, atire! Quero ver se tem coragem!

E o espevitado do jacu, cada vez mais perto, desafiava o caboclo. Aquilo era desaforo. Justamente ele, o melhor caçador do sertão, e a danada daquela caça como que a rir nas suas barbas! A coisa chegou a um ponto quer o soldado não aguentou. Foi quando, lá pela décima vez o jacu se colocou bem na frente, ele apertou o gatilho… Deus nos acuda… Os homens pensaram que já estava na hora e se precipitaram!

Os jagunços viram os soldados de longe, sumiram de repente, e foi o desastre militar mais desgraçado. Pergunta daqui, pergunta dali e o comandante soube quem fora o infeliz que dera o disparo. Carregaram o caboclo, ainda mais bêbado a essa hora, para o oficial. Este morria de raiva, uma raiva devastadora, que não conhecia limites.

– Você, seu desequilibrado! Você, tipo anormal! É a vergonha da polícia! Mas, fique sabendo, hem? Vai pagar caro pela sua audácia! Vai ser fuzilado! Vai ser fuzilado já! Então, nós nos sacrificamos para que um inconsciente como você desgrace todo mundo? Vai ser fuzilado, e já.

O soldado abria e fechava os olhos, na indiferença da bebedeira. Pouco se lhe dava aquele escarcéu do comandante. Mas achou, decerto, que seria muito mais digno mostrar bravura. E quando ouviu “vai ser fuzilado, e já”, falou de língua emperrada:

– Isso mesmo. Ta direito. Quanto mais fuzi… mio!

Diná Silveira de Queirós

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