O VIAJANTE

6 dez 2014

Escreveu: Francisco Alves Cardoso – 06/12/2014

Um dia abri as portas do mundo, pisei o solo da vida e iniciei uma longa caminhada. Cheguei aos lugares mais distantes, olhei para frente e vi muitos caminhos, tinha que escolher um, olhei para trás e observei uma seta que dizia: “Siga em frente!”.

Um dia pisei a terra molhada e com uma mala na cabeça conheci a cidade grande, pensando em parar e uma voz me soou afirmando: “Vá em frente, o mundo é seu, porque é de todos, basta ter coragem para trabalhar com toda a força que Deus lhe dá”.

Um dia abri a porta do educandário e chorei a ausência dos meus pais. Pensei em voltar e uma voz me gritou: “Não pare, está tudo começando. Não desanime, caminhe cantando a força que produz o futuro”.

Um dia desanimei. Voltei ao inicial e senti o mundo pequeno outra vez. Dormi e no outro dia acordei onde uma voz me falou: “Busque a coragem. Procure um senhor chamado futuro, o Senhor dos Mundos lhe aguarda para entregar a bandeira da fé”.

No outro dia recebi a visita da coragem, segui caminhada, o Senhor me reencontra, levanta o braço e afirma: “O caminho é aquele, não desanime, vá! A bondade lhe aguarda. Vá!”.

No dia seguinte cheguei a um lugar e vi um homem vestido de preto, que me pegou pelo braço e disse: “Deixe de ser mole, vamos iniciar uma grande jornada, você vencerá”.

E assim foi feito, portas abertas, salões acobertados pelas imagens protetoras. Assim foi o começo do segundo tempo.

Um dia acordei e vi um grande mundo. Ao meu lado o homem de preto me leva a um palácio suntuoso. Lá estava um senhor sentado, de mãos estendidas, me entregou um papel escrito, onde tudo estava projetado para os passos da vitória.

Um dia me deram um anel de ouro, minha santa mãe colocou no meu dedo, chorei de emoção, senti a presença da burguesia, da família e o encontro com a verdade, no momento sagrado onde o vento faz a curva.

Um dia pisei num mundo novo, com várias portas abertas. À direita o homem de preto, com a mão estendida apontando o caminho a ser seguido. Andei, andei de novo, e a vitória encontrei, e ela nunca mais me abandonou.

Um dia reencontrei meu pai, senti a saudade dos tempos da terra molhada, de enxada no ombro, o milho plantado, a chuva caindo, as flores brotando, o amor aumentando e o povão chegando.

Um dia senti que a hora chegou. Vou pelo mundo, abracei nova glória, vi muitas portas abertas, os prêmios à minha frente e os cabelos brancos mostrando os sinais futuros. Uma voz novamente me falou: “Não desanime, continue a caminhada, pois muitas conquistas lhe esperam”.

Um dia minha mãe deu adeus e voou. Foram momentos de tristeza profunda. Venci a saudade, busquei novos caminhos, parei nas águas correntes, fui recebido com alegria, montei um novo cenário onde tudo tremulava com alegria.

Era um novo reino com bandeiras brancas buscando o azul. Um pássaro bateu asas e pousou. Recanto novo. Terra fértil. Alegria geral.

Um dia encontrei um novo amor. Os momentos mais felizes da vida, mas senti que não era aquilo que queria. Mandei embora e senti saudades, mas a coragem era maior. Foi o adeus mais longo da vida. Escrevi dentro de mim: o homem sem coragem não é nada. Aí relembrei a frase histórica de Maquiavel: “O homem tem que ser amado e temido, se não puder ser as duas coisas ao mesmo tempo, seja apenas temido”.

Um dia vi o azul e branco voando sobre a minha casa, era a Asa Branca de Luiz Gonzaga. A emoção tomou conta de mim, agarrei a primeira que passou, por ela me apaixonei, chorei, relembrei e uma nova luta iniciei. Era um mundo novo, com projeções formadas por príncipes alegres e solidários.

Um dia senti que esse novo mundo não comporta ódio, inveja e ciúme. Tudo é felicidade, respeito e determinação. O Deus cantando vitórias e os anjos dizendo amém.

Os dias mostram a todos nós que a perseguição, o ódio e a inveja não têm lugar nesse mundo do viajante. Muito pelo contrário, o mundo do homem de preto quer amor, solidariedade, trabalho digno e o perdão para todos que erram.

Um dia meditei: para que errar, odiar, perseguir? Vamos cultivar o amor para sempre. Vamos caminhar com o livro do perdão, pois meu diploma é feito pela justiça de Deus.

Hoje converso muito com o viajante, meu amigo. Bato palmas paras as proezas do dia e ouço os ensinamentos das noites que me consolam. Os sonhos me fazem consciente, o homem de preto está no altar do templo sagrado e eu marcando os passos em busca do reencontro com a história, a mãe de todas as letras, unidas formando os grandes livros, os complementos da luta de todos nós, ricos e pobres, pretos e brancos, bonitos e feios.

O viajante nunca cansou. Ele sabe que o tempo é curto. Tem que amar, viver, trabalhar, gozar, construir e formar um universo de beleza ao seu redor para hoje, amanhã e eternamente.

Um dia tudo voltará ao início. Com certeza o homem de preto me abraçará e eu direi a ele: muito obrigado pelos ensinamentos, solidariedade, confiança e os caminhos seguidos. Obrigado também pelo apoio dos meus pais e parentes próximos, com a objetividade da vida.

Um dia recordarei os primeiros momentos. Os que me odiaram vão conhecer os passos pela longa viagem. Sou apenas um louco pelo trabalho, um apaixonado pelos rumos vitais, um gigante na defesa dos meus seguidores, um adepto do perdão, um solidário com os que sofrem, um estudioso da história, um desbravador das estradas da cultura.

E o que mais?

Eu sou um viajante!

E quem é o viajante?

Eu, tu, ele! Nós, vós, eles!

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