Os Ladrões de São José

11 mar 2013

OS LADRÕES DE SÃO JOSÉ
Escreveu: Francisco Alves Cardoso

Inquestionavelmente, a zona rural é uma das maiores Universidades do mundo, principalmente no campo dos conhecimentos populares.

Sempre que falo no mundo rural, relembro a fazenda Lagoa Redonda, município de Sousa, hoje conhecida como Assentamento Juazeiro, município de Marizópolis – PB, lugar sagrado para mim, pois foi lá onde nasci e vivi até os dezessete anos de idade.

E foi, naquele sítio, onde vi o roubo da imagem de São José, nos períodos em que a estiagem estava queimando o velho e sofrido sertão. A primeira vez que assisti a esse ato tão desconhecido, nos nossos dias, foi quando um parente, depois de mais de trinta dias sem chuva, resolveu roubar a imagem de São José, para que o inverno voltasse à terra. Ainda relembro do tamanho do quadro, que foi enrolado por debaixo da camisa do “ladrão de santo”, que deixou a tia Soledade revoltada, pedindo que o seu santo fosse devolvido urgentemente.

E, na verdade, a chuva caiu logo cedo, e o povo dizia que o santo estava chorando para voltar à sua casa.

Quando o santo era devolvido, tudo acontecia com uma festa maravilhosa, chamada de “acompanhamento”, com foguetões, chuvinhas, bombas, girândolas, e, às vezes, até os grandes balões.

A imagem ia num andor, de mãos em mãos, e as cantoras atrás entoando os mais variados hinos, que, na zona rural, têm o nome de “bendito”.

A devolução de São José era antecedida por nove noites de atos religiosos, chamados de novena, com muita animação, festividades religiosas e a união das famílias da localidade agradecendo ao santo padroeiro da chuva.

Recordo a figura de Dona Mocinha de Ildefonso, mulher simples e de rara inteligência, que comandava o grupo de cantoras, não somente nos acompanhamentos, mas em todos os novenários da região.

Essa é uma das mais importantes partes da cultura regional, principalmente a que se destaca na zona rural, onde surgem fatos da maior valia para os nossos estudos.

Não sei, com exatidão, se a chuva caía pela fé que o povo tem em São José, ou se por coincidência. A verdade é que chovia invariavelmente, quando alguém roubava uma imagem do pai adotivo de Jesus, da casa onde morava para outra residência.

Segundo os narradores dessa história, era preciso que o “ladrão” mantivesse sigilo do roubo feito, pois se o segredo fosse revelado, a promessa não tinha efeito.

Afora o “acompanhamento” muito tradicional entre os camponeses, havia ainda dois atos religiosos da maior significação entre eles: a queimação das flores e o hasteamento da bandeira de São José. Os encarregados do novenário ficavam no dever de juntar as flores que ornavam o altar durante as nove noites, e, no último dia, colocavam todas num pano branco, e, em procissão, eram levadas para o terreiro e jogadas numa fogueira, armada para esse fim. A bandeira era hasteada na primeira noite de novena, num mastro de grande altura, e, no último dia, as donzelas que se faziam presentes à festa se reuniam para tentar agarrá-la. E, segundo a tradição, aquela que conseguisse pegar a bandeira casaria naquele ano.

Era realmente uma festa bela e de muitos atrativos, mas o tempo foi destruindo tudo isso, e quase não existe mais, pelo menos, não temos conhecimento desse tipo de promoção, na atualidade.

O modernismo está matando grande parte da nossa cultura. Ela está sendo substituída pelos bailes e por outros folguedos de somenos importância.

A figura de São José não é tão lembrada como antigamente, e, por isso, algumas pessoas dos velhos tempos acham que as mudanças estão prejudicando a fé dos homens rústicos, que trocam a confiança em DEUS pelas coisas terrenas.

Hoje em dia, já não se cantam mais os benditos antigos, nas garbosas noites iluminadas pelas velas e lamparinas. E como era bonito se ouvir um coral ruralista entoando o hino do esposo de Maria, da seguinte forma: Meu divino São José / aqui estou em vossos pés / pedindo chuva com bonança / Meu Jesus de Nazaré.

Por isso, se diz que a cultura está morrendo. Vamos salvá-la antes que seja tarde.

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