OS TRABALHOS DE PERSILES Y SIGISMUNDA, DE MIGUEL DE CERVANTES

21 set 2015

Dra.Marinalva Freire da Silva <marainalvaprof@gmail.com>
UFPB/FADIMAB/UBE-PB/ALANE-PB/AFLAP/ALAP-RJ Dr.Hermano França Rodrigues <hermanoorg@gmail.com>
UFPB

RESUMO DA OBRA

A obra em estudo é uma novela que teve grande desenvoltura por ser a última obra de Miguel de Cervantes. Algumas personagens: Arnaldo (principal), Auristela (Sigismunda) e Periandro (Persiles), irmão de Auristela (protagonistas principais) e Sinforosa (filha do rei Policarpo). Auristela veste-se de homem para livrar-se de alguns perigos. Há um incêndio na floresta. Surge o personagem Antonio para salvar Auristela.

Há um pai que também se chama Antonio. A partir daqui, tem-se Antonio e Antonio (pai). Antonio conta sua história. Auristela, Periandro e Antonio formam uma comitiva. Entre essas personagens há um bailarino: Rutilio, que conta sua história. Surge, ainda, um português: Manuel de Souza, que muito enamorado (como todo português), conta também sua história. Eles seguem a viagem pelo mar (sempre em tempestade). Chegam a um lugar onde há um rei: Policarpo, um sábio se enamora de Auristela e a recíproca é verdadeira. Todos se reúnem para ouvir as histórias contadas por Periandro. E narram todas as aventuras antes de chegarem às Ilhas de Portugal. Sinforosa se desespera porque está enamorada de Arnaldo, e este está perdidamente apaixonado por Auristela, a ponto de tudo fazer para tê-la como esposa, correndo o risco de perder a coroa, pois é príncipe, futuro rei, enquanto ela é bárbara, mas se converte ao cristianismo e sai pelo mundo em peregrinação com destino a Roma. Há uma forte tempestade, o navio naufraga, ela é salva por um grupo de bárbaros e resgatada por Arnaldo que a compra na condição de escrava, fascinado por sua beleza. Arnaldo (enamorado de Auristela) separou-se da comitiva porque corria o perigo de perder seu reino; seguiu na direção norte/sul, até chegar à Espanha. A comitiva vai prosseguindo viagem, atravessa outros países, mares etc. Vai à França e à Itália. Em Roma atravessa um bosque. Um duque francês se apaixona por Auristela: os dois se gladiam e morrem por causa dela. Em Roma, devido à beleza dessa jovem, o povo romano forma multidão para vê-la. Ela não aceita a idéia e procura um confessionário. O sangue dos dois rivais é motivo de um grande quadro. Persiles o compra e segue viajando com o mesmo. A morte dos dois representa os conflitos da religião católica em Roma. Auristela resolve ser monja. Hipólita quer vingar-se de Persiles. Então, busca uma feiticeira. Persiles cai enfermo. Hipólita arrepende-se porque disse não querer matá-lo.

Finalmente, encontram outra comitiva – a de Maximino (irmão mais velho de Persiles). Ele está enamorado de Sigismunda (que também está enferma). Persiles casase com Sigismunda. Arnaldo que estava enamorado desta se casa com uma irmã. Uma dama francesa casa-se com Antonio. Persiles e Sigismunda chegam a conhecer os netos.

E tudo acaba muito bem. Trata-se, pois, de uma comédia (do Século do Ouro) dentro da novela. É muito agradável, diverte muito. Porém, quem se diverte mais é Cervantes. É livro é de ensinamentos, os trabalhos se referem às peregrinações.

VISÃO SEMIÓTICA

“Os trabalhos de Persiles y Sigismunda” foi escrita em dois momentos. O primeiro, entre 1599-1600 (1609?). Justifica-se pela tradução da obra de Plínio em 1599 (e Cervantes a leu). O segundo, em 1613, pois essa obra foi mencionada nas novelas escritas em 1613. Uma novela que se atreve a competir com Eleonor (outra obra importante de Cervantes). Trata-se de uma novela de cavalaria de extensa gestação e de longa reflexão de Cervantes muito ao sabor do fantástico. Aliás, a crítica preocupa-se muito com as obras de Miguel de Cervantes porque todas estão impregnadas do real.

Segundo MANCINI (1988), Cervantes sempre se preocupou com o verossímil, buscava firmar seus pastores com a realidade e a fantasia. Em Cervantes – prossegue o referido estudioso- os pastores eram sábios. É precisamente a fantasia que cria a Arcádia tão bela, cria os ambientes tão agradáveis às novelas que terminam dando um saboroso fruto, qual seja, os truques. O gosto inteligente da ficção, para Cervantes, seria impossível se não pudesse ver o verossímil e o fantástico, se não se amalgamasse o real

VISÃO DA CRÍTICA LITERÁRIA

Mancini (1988) argumenta que alguns críticos dividem “ Os trabalhos de Persiles y Sigismunda” em duas partes. Primeira, as aventuras das regiões da Europa, com tempestades, frio etc. Segunda, fala da Espanha, França, Roma. Mas essa bipartição não corresponde às perspectivas cervantinas. Veja-se o final do 1º livro:

Luego le contaron todo lo sucedido del naufragio de la nave de Arnaldo, la división del esquife y de la barca, con todo aquello que fue bastante para darle a entender lo sucedido hasta el punto en que estaban; en el cual punto deja el autor el primer libro desta grande historia, y pasa al segundo, donde se contarán cosas que, aunque no pasan de la verdad, sobrepujan a la imaginación, pues apenas pueden caber en la más sutil y dilatada SUS acontecimientos.(CERVANTES, 1977: 90).

Como se pode constatar, o autor divide a obra em quatro livros, cada um com uma conclusão. Praticamente, este tem muito clara a ideia de dividir a novela. Mancini (1988) apresenta que o primeiro livro contém 23 capítulos; o segundo e o terceiro, 21 (cada), enquanto o quarto, somente 14, provavelmente porque o autor já estava doente, resolveu cortar um pouco de sua história, ou então porque solucionou o enredo e não sentia necessidade de alongar-se, assim, “Cervantes entendia como concluída a história”, ou seja, todos os casos estavam concluídos razão pela qual suprimiu capítulos.

Diante do que expõe Mancini (1988), “ Os trabalhos de Persiles y Sigismunda” está dividida em duas partes para os críticos, e em quatro para Cervantes, o que implica dizer que não se estabelece a relação entre ambas as partes, e ao leitor falta algo. O primeiro livro, escrito no tempo presente, enquanto o segundo, no tempo passado (comprova-se a alternância de tempo); no terceiro livro – a comitiva se separa (norte e sul). Neste a conclusão é nítida, há mudança do tipo de narração entre a primeira e a segunda parte. Entre a primeira e a terceira parte, Cervantes volta a ser o novelista muito preso à realidade e meio distante da fantasia. Neste último, há mudança de cenas (frio/calor bárbaro/civilizado). O que segue é o amor de dois jovens protagonistas,

Cervantes teve a sensação de que fazer toda a história em um clima tão distante da Espanha seria uma coisa quase impossível. A obra tem uma estruturação muito forte. Não é uma novela de entrega, mas uma novela bem pensada, bem estruturada. É difícil determinar qual o tema mais importante que o autor trata na obra porque, se forem consideradas as viagens, o tema central pode ser viagens. Se for olhado por outro prisma- Odisséia/Eneida, é viagem, é aventura. E o tema viagem é muito corrente, principalmente na época de Cervantes, na qual se realizam as viagens de cavalaria. Toda novela picaresca é de viagens. Don Quijote é viagem, aventura (itinerante), mas não é picaresca, é livro de cavalaria. Pois, gente que quer ir a Roma é peregrino, é peregrino da fé, e a chegada a Roma é a conclusão. Portanto, conclui-se que esta obra é uma alegoria, muito contrarreformista e muito pouco adaptável à novela em análise.

A crítica não tem sido muito generosa com “Persiles”, pois Cervantes não pensou em peregrinação religiosa, mas em uma peregrinação leiga, conforme argumento de Mancini. Cervantes nada mais faz que imite Heliodoro. Este era anticlerical e lhe aborrecia o clericismo cervantino e o barroco (muita imagem, mas nada de concreto). Heliodoro representa uma peregrinação nada religiosa. (LOLIS, 1947), embora se saiba que a peregrinação é algo pertencente ao cristianismo.

“As Etiópias” têm uma edição feita por López Estrada, em 1954. Há poucas edições da obra. A primeira traduzida ao espanhol (1954), teve grande êxito na Espanha. Cervantes a leu. Depois, foi traduzida ao italiano, alemão, inglês (transformando-se numa obra da Europa). O autor de “As Etiópias” era Heliodoro (sírio) e pertenceu a uma família muito dedicada ao culto dos deuses. Parece que Heliodoro converteu-se ao cristianismo. O bispo impôs o celibato aos curas, mas isto não aparece na novela. É uma novela de caráter convencional: dois jovens apaixonadíssimos (Persiles e Sigismunda), os outros servem para insuflar o enredo. Como toda novela grega, Heliodoro não teve outro objetivo senão o de agradar o público. A novela grega refere-se ao visual (cerimônias ricas, tempestades etc.) O êxito desta novela justifica-se pela excelente escrita. É uma novela feita para um público numeroso (massa), não sendo, por conseguinte, escrita para uma elite. É uma novela que vive da fantasia do momento, desempenha um papel semelhante ao da novela persiliana ou cervantina. As novelas bizantinas seguem uma técnica semelhante (MANCINI, 1988).

Para Heliodoro, era bastante que o público fixasse sua atenção às “Etiópias”. A novela começa com a apresentação do herói (que está a ponto de ser morto). “Persiles” tem começo semelhante: os heróis se enfrentam com um naufrágio; tem o tempo da história muito calculado: presente- passado (passagem de um livro para outro). Daí se percebe que Cervantes elaborou bem sua novela.

Se for verdade que Heliodoro foi um autor muito difundido na época cervantina, supõe-se que Cervantes o tomou como modelo para elaborar sua novela, pois este é um autor que está muito metido no presente; em suas obras, há uma sucessão de gêneros literários (bizantino, grego etc.), através da qual procura fazer seu gênero. Heliodoro apresentou uma novela de prazer (para agradar o público). Cervantes fez o mesmo. Além desta, Cervantes tem outra fonte: Virgílio (autor latino mais difundido na época). Cervantes o conhecia bem, como conhecia bem todos os autores famosos de se tempo, o que a se deduzir que “Don Quijote, Persiles y Sigismunda” y “Galatea” (uma novela pastoril forçada)- todas estas novelas imitam Virgílio: “ Don Quijote” – viaja (ironiza a virtude),

-“Persiles y Sigismunda” ironiza moderadamente. No segundo livro: história contada das aventuras anteriores que começam no primeiro livro. E as conta a Periandro. E se sente mais herói quando as conta. Reluz a desgraça das aventuras. Um jovem que se sente amarrado pelas mulheres e julga-se herói- Periandro, (jovem Herói antigo clássico, austero – Eneida (Virgílio), enquanto Cervantes traça uma personagem jovem, simpática. Por exemplo, Sinforosa – uma jovem enamoradíssima. A paródia consiste em contrapor dois heróis: Eneida e Periandro com Sinforosa. Entre os que escutam, está Maurício, um doutor, um sábio (medicina, astrologia etc). Sendo sábio, ao escutar Periandro (que conta) se aborrece (há um contraponto muito longo que poderia ser mais curto). Pára, protesta. A filha de Maurício interrompe e diz ao pai que “não importa ser longo ou curto, o importante é o que se Esse recurso incerto na novela dentro de outra novela, um conto (recurso utilizado por Cervantes em “ Os trabajos de Persiles….”). Nesta há três novelas interpoladas: – Persiles; – o conto do bailarino; -o conto do português Manuel de Souza.

Os dois primeiros livros foram escritos muito tempo antes do terceiro e do quarto livros, talvez porque Cervantes tenha escrito assim (interpolados) para inovar a técnica (conto Em “Quijote”, Cervantes dá uma explicação (para se ter gosto na narração): novelas saborosas, que dá prazer ao leitor. Exemplo, o conto narrado pelo bailarino. Alguns críticos pensaram que Cervantes, através dessas novelas, quis dar o sabor de nacionalidade a cada personagem: espanhol, italiano, francês, português, o que implica dizer que somos raças distintas (MANCINI, 1988). Em “Los trabajos de Persiles y Sigismunda”, as personagens vivem, têm suas histórias (contam o que fazem no seu cotidiano), assemelham-se a personagens teatrais Traçando o perfil dos protagonistas, tem-se:

-Auristela – mulher jovem, sensual, abandona sua vida tranquila e católica, que quer ser mais católica para estar melhor ao lado de Periandro (MANCINI, 1988). Quando Periandro está bem cortejado por Sinforosa, os ciúmes mostram uma identidade; quando Auristela está enamorada de outro (o que é normal), é uma personagem sem muita complicação.

-Periandro – personagem viva, à medida que conta, vai sendo desenrolado, vai firmando-se e sendo descoberto pelo leitor.

Policarpo – personagem secundário, mas com sua psicologia completa. Rei pela virtude, renuncia tudo e vive em função da filha (Sinforosa).
A desvantagem da novela em foco, segundo Mancini (1988), foi ser uma obra posterior a “Don Quijote”. uma grande influência de Virgílio (principalmente nos dois primeiros livros) de Torquemada: “Flores curiosas” (fala dos países nórdicos que não têm nada a ver com os atuais. Cervantes repete isto em seus livros). “Torquemada” desperta a fantasia. É um livro que vem queimado pelas loucuras: geografia e fantasia dos países frios. Foi lido por Cervantes (como elemento fantástico), pois a fantasia, segundo este, pode ajudá-lo na elaboração de suas novelas, além do que preferiu desprender-se do que é real.

A obra objeto desta análise é um escrito sobre o fantástico, para que se possa imaginar no que não é imediatamente controlado, buscado (a fantasia). Assim, o elemento fantástico adorna os dois primeiros livros da novela, que tratam das peregrinações fantásticas e das viagens espirituais. “El trabajo de Persiles y Sigismunda” é uma obra riquíssima. Nela Cervantes imagina ser o autor da história.

Em “ Quijote” ele faz algo semelhante – é o narrador da história e o tradutor, isto porque lhe dá maior liberdade de intervir como narrador tradutor e o próprio escritor Cervantes tem vergonha de intervir diretamente na história. Veja-se, Quijote levanta o braço para lutar contra o monstro (no caso os moinhos), interrompe a ação e depois prossegue (efeito incomparável). NO personagem citado é muito freqüente esses efeitos de intervenção.

Quanto às vozes dos narradores que contam, em Cervantes, os que o fazem são personagens enquanto tal contam suas histórias com sua personalidade (e quando o contam dão outro colorido ao conto). Essas personagens mudam a tônica (quando narram autor e tradutor, há uma mudança).Cervantes é um contador de histórias, através de suas personagens, pois “La historia, la poesía y la pintura simbolizan entre sí y se parecen tanto, que cuando escribes historia, pintas, y cuando pintas, compones […]”(Liv. III, cap. XIV, p. 232).

“Los trabajos de Persiles y Sigismunda”, Lisboa foi apresentada a Cervantes em um momento de seus dias de vida tranquila, ele fala de Lisboa sempre com o maior entusiasmo possível. Há uma recordação muito boa.

Llegaron por tierra a Lisboa, rodeados de plebeya y de cortesana gente,[…].Diez días estuvieron, todos los cuales gataron en visitar los templos y en encaminar sus almas por la derecha senda de su salvación, al cabo de los cuales, con licencia del visorrey, y con patentes verdaderas y firmes de quiénes eran y adónde iban, se despidieron del caballero portugués, su huésped, y del hermano del enamorado, Alberto, de quien recibieron grandes caricias y beneficios, y se pusieron en camino de Castilla; y esta partida fue menester hacerla de noche, temerosos que, si de día la hicieran, la gente que les seguía la estorbara, puesto que la mudanza del traje había hacho ya amainase la admiración. (CERVANTES,Los trabajos de Persiles y Sigismunda, 1977: 171-174).

O curioso é que cada personagem, cada um por si, é dotada do encanto lusofônico, e Auristela detém a maior formosura possível do mundo. Esses peregrinos tencionam encontrar-se num paraíso perdido.

Conforme foi destacado, Periandro muda os trajes de bárbaro para os de peregrino (o mesmo acontece com Auristela, pois ambos já eram perseguidos pelo Miguel de Cervantes se diverte ao mesmo tempo em que diverte o leitor com as personagens desta novela, que ora se assemelha a uma comédia com sua maneira irônica; faz uma crítica às empresas de romances quando leva Periandro a contar histórias populares, quais sejam, histórias contadas por um romancista qualquer . Assim, Periandro contava sua história com todos os detalhes. O retrato de Auristela foi um quadro bem pintado, ela é de uma beleza ímpar.Antônio (pai) teve o trabalho de explicar o lenço (à avó), um outro quadro. Após a historização dos fatos, encerra-se o primeiro livro (ou a primeira parte) de “Persiles”. Cervantes enfatiza a pintura em sua poesia. A historização da história é feita por A segunda parte da novela tem início com uma viagem cuja partida foi à noite, por sinal muito perigosa. O conto muda a diretriz na segunda parte. A segunda viagem foi mais rápida Lisboa-Roma). Três dias estiveram em Lisboa. Passaram pelas cidades de Cádiz, Badajoz, Cárceres, Guadalupe, Trujillo, Aranjuez, Toledo, um lugar cujo nome não é citado, Barcelona, Milão, finalmente, Roma.

Tres dias estuvieron en la ciudad, donde en ellos mostró el corregidor ser caballero liberal, y tener la corregidora condición de reina, según la ddádivas y presentes que hizo a Aursitela y a los demás peregrinos, los cuales, motrándose agradecidos y obligados, prometieron de tener cuenta de darla de sus sucesos, de dondequiera que estuviesen. Partidos, pues, de Badajoz, se encaminaron a Nuestra Señora de Gaudalupe ,y, habiendo andado tres días y en ellos cinco leguas , les tomó la noche en un monte,poblado de infinitas encinas y de otros rústicos árboles. CERVANTES, M. Los trabajos d Persiles y Sigismunda, Liv. III, cap. II, p.176).

As referências feitas aos diversos lugares são muito distintas. A passagem de Aranjuez a Toledo é uma maneira de ver como Cervantes via os lugares, não é uma descrição, mas uma passagem de recordação. É uma paisagem vivida pelo autor e não objetivamente vista, é imaginária. A passagem por Toledo é muito interessante, pois esta cidade representa Glória da Espanha, depósito de cerimônias católicas. Cervantes faz um jogo lúdico no qual há humor, ironia e reflexão. A cidade de Toledo sob a ótica cervantina apresenta uma complicação de sentimentos. Há quadrado pintado em correlação com Grieco, há uma tormenta enorme, uma grande ânsia (quase barroco, claros e escuros cervantinos). Há uma estreita relação entre o que se sente e o que se diz (sentimentalmente, desde o ponto de vista cerebral). A passagem entre o sentimentalismo e o cientificismo, e o cientificismo é bem destacado em Frei Luis de Granada, que escreve uma retórica sagrada. Ele é um homem bem vivido, de espiritualidade profunda. Estabelece as regras como há sido possível esta passagem entre sentimentalismo e cientificismo, vivenciando, pois, uma inquietude religiosa muito forte: filosofia dos protestantes (França) frente à filosofia dos católicos (Espanha). Ele não pode tomar esta atitude de pensar sempre nesses problemas – quer se comunicar com o povo mais pelo sentimento do que pela ciência. Assim, ele se dirigia ao povo com sentimento.

Comunicar-se sentimentalmente é uma atitude dos séculos XVI e XVII. Cervantes encontra-se nessa inquietude: comunicação direta com o público, com o leitor. Falar com os sentimentos, repetir bastante para que a coisa fique gravada, não usar muitos emblemas, é assim construída a obra de Cervantes com vistas a obter grande número de leitores e não uma elite intelectual. Cervantes faz parte do povo. Esteve na Itália como militar (estava sob a dependência das autoridades).

A história de Cervantes é a história de todos os trágicos (Sancho Pancho/ Quijote)., pessoas livrescas que vivem, que sofrem (livros de cavalaria). Don Quijote tem 50 anos de idade (= Cervantes), há muito marco pessoal nas obras cervantinas.“Los trabajos de Persiles y Sigismunda” é a obra mais madura da Cervantes; teve grande êxito no campo literário, êxito de um público (edição simples e barata). Um êxito que não dá dinheiro (embora algum personagem peça dinheiro para ter traje de veludo, pois é um miserável).

A importância do homem faz sentir bem a importância das personagens nas obras cervantinas. Por isso, há muita diferença entre Auristela e uma dessas damas do Renascimento. Mas as figuras de milhares do Renascimento estão presentes nos quadros. O retrato de Auristela, por exemplo, é fantástico. Este quadro é idealização. Sabe-se que o Renascimento conseguiu um equilíbrio entre a paisagem e a figura humana, o que difere do Barroco em que a figura humana é quem interessa, o homem reúne em si todo o interesse, toda a essencialidade que tem possível (paisagens subjetivas). Assim, o picaresco é, por excelência, algo barroco.

Retomando a novela, segundo Mancini (1988), há na obra em análise a união entre o fantástico e o real. O episódio em que Cervantes se refere ao teatro – quando Auristela é convidada a trabalhar no mesmo. O teatro no século XVI devia levar em conta o público, pois o homem daquela época não tinha muita cultura livresca. No início do Reinado de Felipe II, Badajoz produzia muitas obras de teatro com propaganda religiosa – luta contra a heresia, talvez seja esta a razão pela qual Cervantes fale de teatro nessa obra.

A descrição dos moriscos é um fato real, tão real que Cervantes oculta o nome dos indivíduos para evitar maiores problemas. Os moriscos são uma realidade histórica muito triste. Eram peregrinos. E o objetivo de Cervantes era ajudá-los. Esta é uma maneira de atar a história ( o conto) à realidade. É uma realidade efetiva que toca todos os espanhóis. E esta novel, objeto deste ensaio, é a maneira de continuar esta realidade através da fantasia, uma vez que o autor entende que a vida não pode ser totalmente “novelada” (relatada no total), daí a mistura cervantina.

No capítulo XVI do terceiro livro, “cosas y casos suceden en el mundo, que , si la imaginación, antes de suceder, pudiera hacer que así sucediera, no aceratra a trazarlos; y así, muchos, por la raridad con que acontecen, pasan plaza de apócrifos, y no son tenidos por tan verdaderos con lo son[,…]”. Aqui Cervantes faz alusão a um refrão antigo que diz: “Coisas e casos sucedem no mundo, melhor seria não contá-los; as coisas de revelação não as diga, não as conte” Las cosas de admiración No las digas ni las cuentes;Que no saben todas gentes Cómo son. (p.239) Esse refrão corresponde, em nossa língua, a: “a quem revelas teu segredo, entregas tua liberdade”.

Na narrativa em estudo os episódios se sucedem como as novidades nas comitivas para que o conto não seja apenas um conto dentro de outro, isolado. É uma justificativa afetiva: pensar em contos que dão novidades, variedades – muitas personagens desenvolvem bem seus papéis dentro do cenário.

O quarto livro – chegada a Roma ( e permanência)- começa com uma descrição que tem início no cap. II, p. 270: “ En fin:se llegó el día de su partida, y el duque y Arnaldo, cada uno por su partem, entró en Roma sin darse a conocer a nadie[…]”. Atravessaram mares, montes, tempestades e chegaram a Roma- grande emoção “

[…] llegando a la vista della, desde um alto montecillo la descubrieron, y hincados de rodillas, como a cosa sacra, la adoraron,[…] con lágrimas en los ojos[…]”.

No sentido da grande emoção, há outro passo em que Auristela cumpre seu voto – ser monja (preocupação com a religiosidade). Ela se confessa, abandona pai, noivo, e segue para cumprir seu voto. Esta presenteia um quadro com seu retrato ao duque Nemurs. Quando tomou conhecimento da decisão de Auristela em fazer a doação ‘indevida’, Arnaldo, que a amava demasiado, confessou a Periandro, irmão desta:

-Uno de los cargos mayores que Auristela me tiene, es el sufrimiento que tengo, consintiendo que este caballero francês, que dicen ser el duque de Nemurs, esté como en posesión del retrato de Auristela, que, puesto que está em tu poder, parece que es con voluntad suya, pues no le tengo en ele mío. Mira, amigo Periandro,esta enfermedad que los amantes llaman celos, que la llamarán mejor desesperación rabiosa, entran a la parte con ella la invidia y el manosprecio, y cuando una vez se apodera del alma enamorada, no hay consideración que la sosiegue ni remedio que la valga[…] que es el amante celoso el morir desesperado, que vivir con celos; y el que fuere amante verdadero, no ha de tener atrevimiento para pedir celos a la cosa amada;[…] porque las cosas de mucho precio y valor tienen en continuo temor al que las posee o al que las ama de perdeerlas, y ésta es una pasión que no se aparta del alma enanorada, como accidente inseparable (p.272-273).

Outro elemento de emoção relaciona-se tanto ao amor quanto à religiosidade: o colóquio de Auristela com Periandro (cap. I, p.260-261) – revelam seus verdadeiros nomes. Segismunda e Persiles – chegam a Roma para casar-se. Auristela abandona seu voto. Está ela convencida de casar-se, porém, eles não têm dinheiro (um pouco da vida de Cervantes). Persiles crê que o amor e o lugar de dormir são o suficiente para eles serem felizes (o que se assemelha à realidade da classe menos favorecida da sociedade). O colóquio é muito interessante por ser tão vivo, tão bonito, em um ambiente todo Periandro falou a Auristela desta forma:

-Bien sabes, ¡oh señora!, que las causas que nos movieron a salir de nuestra patria y a dejar nuestro regalo fueron tan justas como necesarias.Ya los aires de Roma nos dan en el rostro, ya las esperanzas que nos sustentan nos bullen en las almas; ya hago cuenta que me veo en la dulce posesión esperada. Mira, señora, que ser´bien que des una vuelta a tus pensamientos, y, escudriñando tu voluntad, mires si estás en la entereza primera, o si lo estarás después de habler cumplido tu voto, de lo que yo no dudo, porque tu real sangre no se engendró entre promesas mantirosas ni entre dobladas traza. De mí te sé decir, ¡oh hermosa Sigismunda!, que este Periandro que aquí ves es el Persiles que en la casa del rey, mi padre, viste,; aquél, digo, que te dio palabra de ser tu esposo en los alcáceres de su padre, y te la cumplirá en los desiertos de Libia, si allí la contraría fortuna nos llevase.

Agora, trata-se de como ajudar as coisas para se chegar ao casamento. Todo esse ambiente romântico é Roma com seus papas, como viu Cervantes, e não Roma arqueológica. Roma viva, com suas ruas por onde andam os peregrinos (porta por onde Cervantes vê a Itália e reflete sua ignorância de aventura, amor etc,. e logo se encontra com uma vida de virtudes (sem vícios, sem paixões). Há uma série de dados que, por fim, Cervantes chegou, pois esta é sua maneira de escrever novela; é inédita, serve de contribuição à teoria do conto.

Dessa forma, a obra objeto desta apreciação representa uma extraordinária contribuição de Miguel de Cervantes à teoria da novela. Nela a vida e a estrutura da sociedade (como realmente é, com paixões desenfreadas, angústia, aventuras, sofrimentos, misérias, vicissitudes, assemelhando-se a um teatro, o teatro do mundo com amor e arte onde atuam todos os humanos que sofrem, criam, amam, vivem). Daí por que Los trabajos de Persiles y Sigismunda” são uma verdadeira obra de arte.

A obra não é um perigrinatio, é uma viagem, não tem estrutura religiosa (Cervantes era judeu, cristão); é uma obra de atos: a história se repete a cada passo (poesia à realidade), ou seja, realidade e fantasia. Nos dois primeiros livros há um equilíbrio com os dois últimos, o que se justifica pela maturidade de Cervantes (há uma evolução). Nos dois primeiros, Persiles se aproxima muito de Quijote; nos outros, há mudança do tempo, das ideias. A necessidade de mudar é um dos temas dominantes que justificam a grande variedade de desenvolvimento dos fatos.

Como é possível perceber, a mitologia é um elemento técnico que se usa para se formar as diretrizes das fontes filológicas, que, segundo Mancini, dá uma visão global da obra, uma visão de conjunto. (MANCINI, 1988). Na obra em análise há sempre a comunicação humana. E falar de qualquer obra é importante desde que se chegue a uma comunicação espiritual. Nessa linha de raciocínio, Forcione (1972), maior crítico desta obra argumenta que a estrutura novelesca assemelha-se a uma arquitetura porque unifica as linhas essenciais, a novel é como um arco com vários aspectos críticos, a saber: estruturalista (técnica), crítica sociológica, formalista (é importante a maneira como se diz), crítica semiótica, crítica filológica (excelente crítica).

Por conseguinte, chega-se ao final deste ensaio com a certeza de haver contribuído para difundir um pouco esta obra de Miguel de Cervantes, praticamente desconhecida no Brasil, e tão importante na literatura espanhola.

REFERÊNCIAS
CERVANTES, Miguel de. Los trabajos de Persiles y Sigismunda. 5 ed. Madrid: Espasa-Calpe, 1997 (Colección Austral, nº 1065), volumen extra.
CHEVALIER, Jean & GHEERBRANT, Alain. Diccionario de los símbolos. Barcelona: Herder, 1986.
FORCIONE, Alban K. Persiles. Cervantes, Romance Cristiano. Estados Unidos: LOLIS. Cervantes reacionário. Florência, 1947.

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