Pai desesperado

27 dez 2014

Ofélia e Narbal Fontes*

Desesperado, Quincas Venâncio voltou atrás, tirou do curral o alazão marchador, botou-lhe os arreios, montou e partiu a galope na direção do rio Poxoréu.
Os garimpeiros o esperavam à margem do rio. E assim que o viram na picada, sacaram as armas e o saudaram, segundo o costume, com um tiroteio cerrado para o ar.
– Viva Joaquim Venâncio! – gritou José Piquete.
– Viva o novo milionário! – bradou Chico Pongá.
E novamente descarregaram as armas. Mas qual não foi a surpresa de todos quando repararam na expressão de desespero de Quincas Venâncio! Fez-se um silêncio geral. Refreando o cavalo, ele falou aos companheiros, numa voz surda, cerrando os dentes:
Meus amigos, aconteceu-me uma grande desgraça!
A roda fechou-se em torno dele. E perguntas choveram de todos os lados:
– Perdeu o diamante? – Indagou um.
– Quinquim piorou? – interrogou outro.
– Encontrou a roça devastada? – quis saber um terceiro.
Quincas Venâncio meneou negativamente a cabeça e explicou:
– Mil vezes pior que tudo isso: perdi meu filho…
– Quinquim?! – perguntaram todos a uma voz.
– Sim. – respondeu simplesmente o desolado pai.
– Mas como? Que houve? Teve um ataque de febre? Feriu-se? – indagaram de todos os lados.
Quincas Venâncio, porém, fazia gestos indecisos, demonstrando não saber explicar, o que deixava atormentados os demais garimpeiros. A muito custo, no entanto, contou em voz trêmula:
– Não posso dizer o que houve, nem como foi. Só sei dizer que deixei o menino na rede, adoentado, perrengue, esta manhã, e agora, ao chegar em casa, encontrei a porta aberta e tudo deserto. Chamei por ele e nada… Saí, procurei por toda parte, no pacoval, no córrego, e até dentro da mata, e nem sombra dele!… Não sei que fim o coitadinho levou.
Chico Pongá tentou reanimar o amigo:
– Não fale assim, Quincas Venâncio, que seu filho aparece de uma hora para outra. Com certeza, curioso e travesso como é, foi dar um passeio e encontrou alguém que o levou à vila. Você sabe que ele é conhecido e querido de todo mundo.
– Não pode ser, Chico, infelizmente não pode ser. Justamente hoje pela manhã recomendei-lhe que não saísse nem abrisse a porta para ninguém. E ele é menino obediente.
– Mas você encontrou a porta arrombada?
– Não.
– Encontrou algum sinal de violência?
– Não. Até a chave ainda estava na porta.
– Estava? E do lado de dentro?
– Do lado de dentro.
– Então, ele abriu a porta e saiu. E, se saiu, foi para algum lugar onde, na certa, será encontrado.
– Encontrado?! E se a “pintada” o pegou?
–Deixe de estar pensando em bobagem. Se a onça pegasse Quinquim, então não deixaria sinal? Pelo menos sangue havia de haver pelo terreiro. O que devemos fazer é procurá-lo antes que chegue a noite. E, voltando-se para os companheiros, Chico Pongá concluiu:
– Camaradas! Temos que ajudar o amigo Quincas Venâncio. Vamos juntos procurar Quinquim?
– Vamos! – concordaram os garimpeiros, sem discussão.
E assim aqueles homens, que dispunham a festejar o achado de um extraordinário diamante, uniram-se para auxiliar um pai extremoso a procurar o filho perdido.
Chico Pongá, home de iniciativa, ordenou:
– A caminho da vila! E, voltando-se para Quincas, acrescentou:
– Toque, Quincas Venâncio, Vá na frente, que nós vamos apanhar as nossas montarias e o alcançaremos logo.
E assim foi feito. Quando Quincas Venâncio entrou na vila de Poxoréu, cerca de cinquenta cavaleiros o acompanhavam.

*Ofélia e Narbal Fontes, casal de escritores paulistas, dedicaram-se, com raro êxito, à literatura infantil e infanto-juvenil. São co-autores dos livros Cem Noites Tapuias, e O Gigante de Botas, histórias bem ao gosto dos jovens. Este trecho está relatado nas páginas 21 a 26 do livro Cem Noites Tapuias, 4ª ed., Editora Ática, 1977.

Postado por Álisson Oliveira (ahalisson@gmail.com)

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