PÍO BAROJA: HOMEM, SUBJETIVISMO E EXISTENCIALISMO NO MARCO DA PAISAGEM URBANA DE MADRI EM COMEÇOS DO SÉCULO XX

30 nov 2016

Marinalva Freire da Silva
marinalvaprof@gmail.com
José Alberto Miranda Poza (UFPE)
ampoza@globo.com

1. Homem, subjetividade e existencialismo. Personalidade de Pío Baroja.

pio-baroja

Pío Baroja, escritor basco, nasceu em Donosti, (San Sebastián, Guipuzkoa) capital das três províncias que conformam o País Basco, em 1872. Viveu, durante quase toda sua vida, em Madri, onde se licenciou em Medicina com uma tese sobre A dor. Mas exerceu a profissão por curto tempo (em Cestona, País Basco), pois foi gerenciar a padaria de um familiar até que o contato com escritores destacados da época (Maeztu, Azorín) aviva nele a inspiração literária, embora entendesse que a nova ocupação não lhe dava condições financeiras, e isto ele revela no final de sua carreira, oportunidade em que justifica o motivo pelo qual não se casou: falta de condição financeira estável para manter uma família. (http://piobaroja.gipuzkoakultura…_baroja_biografia).

Na obra El árbol de la ciencia, o protagonista, Andrés Hurtado, é também um médico como Baroja, que decide desistir de exercer a profissão de médico, pois sua sensibilidade ultrapassava o descaso e a falta de profissionalismo e de cientificismo dos médicos da sua época. Já desde o primeiro momento, quando era um jovem médico em práticas, como interno residente assistente do catedrático no Hospital, recebe a reconvenção do titular pela sua especial atitude diante dos pacientes:

Consideraba [el catedrático], y quizá tenía razón, que la verdadera moral del estudiante de medicina estribaba en ocuparse únicamente de lo médico, y fuera de esto, divertirse. A Andrés le preocupaban más las ideas y los sentimientos de los enfermos que los síntomas de las enfermedades […]

— Usted piensa en todo menos en lo que es medicina – le dijo a Andrés con severidad. (El árbol de la ciencia, 1ª parte, XI, p. 83)

Pío Baroja era uma pessoa solitária, hipersensível a ponto de ser considerado uma pessoa doente; muito tímido e muito independente. Sua misoginia o levou a não contrair matrimônio, o que constituía uma situação estranha na época. Era de um grau de pessimismo profundo. Comparo-o em muitos momentos ao poeta misantropo Augusto dos Anjos, cujo EU completa cem anos de publicação. Igualmente a ele, foi demais para sua época, e a inquietude existencial o acompanhou ao longo de sua vida. Sua obra é permeada pelo pessimismo.

É característica seu radical ceticismo religioso, social, econômico; para ele não há verdade política e social; a mesma verdade científica, matemática, está nas entrelinhas, e se a Geometria pode sacudir sobre as bases sólidas de Euclides, segundo ele, quem poderá passar para os dogmas éticos da sociedade? Pelo menos este foi o pensamento do início do século pela crise que passava o mundo. Baroja deixa entrever em suas obras que o mundo necessita de sentido, a vida lhe parece absurda e não permite confiança no homem, pois a hipocrisia domina a sociedade. Esta é a concepção de Schopenhauer, autor predileto de Baroja, cuja leitura impregna seus escritos. Não se pode negar que o citado filósofo foi bastante lido no início do século passado:

— ¿Qué consecuencia puede sacarse de todas estas vidas? – preguntó Andrés al final.

— Para mí, la consecuencia es fácil – contestó Iturrioz […] – Que la vida es una lucha constante, una cacería cruel en que nos vamos devorando los unos a los otros. Plantas, microbios, animales. (El árbol de la ciencia, 2ª parte, IX, p. 125).

Baroja pertenceu à plêiade de escritores da geração de 98, denominada a geração da catástrofe, tendo em vista que a Espanha perdeu suas últimas colônias na América e na Ásia. Vale registrar que, em matéria de crítica literária, podem ser estabelecidas duas correntes: literatura de 98 (aspecto ideológico-literário) e literatura modernista.

É importante tecer uma referência sobre o País Basco, a cuja nacionalidade pertence Baroja. O País Basco é formado por três províncias cuja língua basca é dificílima, estranha em relação às línguas românicas. Nesse sentido, o Prof. Emilio Miró (1989) refere que “vivir en España es conocer su cultura, la vida de cada país, sus costumbres”. Isso resultou em que Baroja optou por escrever suas obras sob a forma de trilogia. É autor de dez trilogias, dentre elas Tierra vasca (1900 – 1909) e La lucha por la vida (1904 – 1905) são as mais importantes. Na trilogia Tierra vasca os topônimos bascos bem como a paisagem e o caráter marcante dos bascos dão mostras da presença da natureza nos rumos do romancista.

Pio Baroja foi um solitário; ele mesmo se considera, de certo modo, doente por ter tanta sensibilidade, o que alguns críticos atribuem à sua timidez e ao seu espírito de independência, o que o levou a renunciar ao matrimônio, conforme se disse em linhas anteriores, e dedicar-se a uma vida desregrada. Atribui-se sua opção por uma autorrepressão, a um “desequilíbrio”. E isto se deve a um radical pessimismo sobre o homem e o mundo: “la vida es esto, crueldad, ingratitud, inconsciencia, desdén de la fuerza por la debilidad”, para él, “el hombre era egoísta, cruel y brutal”. Entretanto, Baroja ocultava outra cara, a de um homem compassivo e terno com os desvalidos e marginalizados, um sentimental necessitado de carinho, hipersensível ante a dor e a injustiça; sentia uma imensa ternura pelos seres abandonados Assim se observa continuamente em sua obra, que caracteriza uma sinceridade ímpar: Baroja não quer enganar nem enganar-se. Esse foi o código moral que aplicou até a exasperação, daí a fama de tosco e de individualista intratável que teve entre os que não souberam entender a desolação de sua alma.

Decidiu-se transcrever a síntese da ideologia de Pio Baroja, que se encontra na Biblioteca Virtual: Edición digital de las obras de Baroja, Unamuno, Machado y otros autores de la Generación del 98:

La ideología de Baroja hay que considerarla de forma inseparable de su temperamento. Las ideas sobre el hombre y el mundo que se desprenden de sus obras se inscriben a la perfección en la línea del pesimismo existencial.

Es característico de Baroja su radical escepticismo religioso, social, económico. y llegaría a decir: “No existe verdad política y social. La misma verdad científica, matemática, está en entredicho, y si la Geometría puede tambalearse sobre las bases sólidas de Euclides, ¿qué no les podrá pasar a los dogmas éticos de la sociedad?”. Son palabras reveladoras del desvalimiento espiritual propio de la crisis de principios de siglo.

Para Baroja el mundo carece de sentido, la vida le parece absurda y no alberga ninguna confianza en el hombre. Esta concepción hunde sus raíces en Schopenhauer, el filósofo más leído y admirado por Baroja, y se refleja en sus obras y personajes.

Su ideología política está marcada por el mismo escepticismo. Pese a sus contactos juveniles con el anarquismo, lo que realmente le atraía del mismo era la rebeldía, el impulso demoledor de la sociedad establecida. Rechazaba el comunismo, el socialismo y la democracia y pronto se encerró en un radical escepticismo y llegó a proclamarse partidario de una dictadura inteligente. En medio de estas ideas tan contradictorias, quizá la definición más apropiada sería la de “liberal radical”. Volvemos a su individualismo y a su nula confianza en un mundo mejor. De su sedicente anarquismo sólo queda la postura iconoclasta. De ahí que sus personajes preferidos sean los inconformistas.

2. El árbol de la Ciencia.

Baroja, em suas memórias, escreveu: “El árbol de la ciencia es, entre las novelas de carácter filosófico, la mejor que yo he escrito. Probablemente es el libro más acabado y completo de todos los míos”. O romance, escrito em 1911, tem muito de autobiografia. É por demais curioso que, mais de trinta anos depois, ao escrever o segundo volume de suas Memórias (Familia, infancia y juventud, 1944) e ao narrar sobre seus estudos em Madrid e sobre a morte do irmão Darío, Baroja transcreve literalmente (ou quase) longas paisagens de El árbol de la ciencia. Trata-se de uma obra que representa toda radiografia de uma sensibilidade e de uns conflitos espirituais que se encontram na medula da época.

Hoje, há os professores de história contemporânea que consideram a trilogia La lucha por la vida como uma fonte importante para conhecer o momento social de começos do século XX (CARO BAROJA, 1996); com efeito, em La Busca, Mala hierba y Aurora Roja pode se ver um reflexo fiel da sociedade do Madri desses anos, de seus ambientes e preocupações; essa trilogia de romances é completada para a pesquisa histórica com El árbol de la ciencia. Nesse sentido, se para conhecer o mundo pobre de Madri é preciso recorrer à trilogia, para o conhecimento das ideias científicas e filosóficas devemos ler El árbol de la ciencia.

Todas essas obras apresentavam, nas primeiras edições da época, ilustrações de Ricardo Baroja, irmão maior de Pío, que completavam a visão da realidade de Madri, da realidade da capital da Espanha, com seus locais, com suas gentes, retratadas por fora e por dentro, de uma forma sublime pelos traços certos dos irmãos Baroja: evocamos, agora, com nossas palavras as composições pictóricas intituladas: Asfaltadores en la Puerta del Sol, El Café, Paseo de Rosales, Chulas, etc; com elas, podemos construir muitas das cenas que são descritas nos romances de Pío: todas elas são imagens que compartilharam em primeira pessoa nas suas andaduras de aqueles anos com a ideia fixa de eles conhecerem Espanha, com a inquietação de conhecer a terra e as cidades que a conformavam, muito além de qualquer preocupação estritamente estética.

3. A trama central: história de uma desorientação existencial.

El árbol de la ciencia retrata a vida de Andrés Hurtado, um personagem perdido em um mundo absurdo e em meio de circunstâncias adversas que constituirão uma sucessão de desenganos.

Seu ambiente familiar faz dele um jovem “recalcado e triste”; sente-se só, abandonado, com um “vazio na alma”. Às vezes sente uma sede de conhecimento, buscando encontrar uma orientação, algo que dê sentido à sua vida. Mas os estudos de Medicina, como diz Baroja, não preenchem tal ânsia: a universidade e a ciência espanholas se encontram em um estado lamentável. Seu contato com os doentes dos hospitais e seu descobrimento de misérias e crueldades constituem um novo motivo de depressão. Politicamente, o personagem se deixa dominar por um radicalismo revolucionário utópico e um sentimento de indiferença a tudo. Vários acontecimentos que transcorreram na vida do protagosnista, magistralmente desenhados por Baroja, levam Andrés a concluir: “Uno tiene la angustia, la desesperación de no saber qué hacer con la vida, de no tener un plan, de encontrarse perdido, sin brújula, sin luz adonde dirigirse”.

As etapas posteriores de sua vida constituem becos sem saída. O ambiente desfigurado do povoado onde começa a exercer como médico lhe produz “mal-estar físico”. Madri, para onde regressa, é “um pântano”, habitado pela mesma angústia. Furtado, espectador da iniquidade social, caminha para um absoluto pessimismo político, isolando-se cada vez mais, como Machado em seus Campos de Castilla (MIRANDA POZA, 2007).

4. As personagens e a arte da caracterização.

Junto ao protagonista o outro grande personagem é Lulú. Tipo esplêndido de mulher tão ao gosto do Baroja pintor de retratos em grande estilo, com certeiras pinceladas. De caráter humano e nobre, mostra uma grande ternura pelos seres desvalidos, valoriza a sinceridade, a lealdade, se bem que é um produto pálido pelo trabalho e pela miséria.

Ao lado de ambos os protagonistas desfila uma amplíssima galeria de personagens coletivos, gente de povoado, médicos, professores, doentes que são “figurantes” constituindo como um fundo sobre o qual projeta uma atmosfera insubstituível.

A técnica de caracterização de que se vale Baroja é o que Lázaro e Tusón chamam “caracterização paulatina” (1980, p.96): vão se definindo pouco a pouco, por seu comportamento, por suas reflexões em meio da trama, pelos lugares chegando a constituir um quadro da realidade ao modo de uma selva, de um bosque presidido pela angústia, a miséria e a decepção. Nesse mundo que Baroja, através de sua subjetividade nos mostra, perfeitamente ligado à Madri da época, vão evoluindo suas personagens, traçadas através de projetos vigorosos e carregados de uma personalidade fortemente feroz. O conjunto põe em descoberto um singular poder de captação das misérias e fraquezas de corpos e almas.

5. Retratos e animalização.

A caracterização dos personagens é desenhada por Baroja, como já foi dito, de forma exemplar, através de ágeis traços. Uma vez lançados os traços gerais, chega normalmente um último elemento que atua de forma definitiva: a comparação / identificação com um animal. Essa aproximação do animal ao humano é sempre negativa para Baroja, pois ele mantém uma imagem racional e sublime do homem como essência, como ser. Então, aqueles personagens que são apresentados de forma negativa em Baroja oferecem um correlato animal, que fecha a descrição do indivíduo aos olhos do leitor.

Ainda mais, na segunda parte da obra, que mostra algumas das ideias filosóficas de Baroja através do diálogo entre o tio também médico de Andrés, o doutor Iturrioz e o próprio protagonista, estabelece-se um autêntico paralelismo entre as espécies de insetos e os tipos humanos (repugnantes) de alguns dos personagens (tío Miserias, Victorio, Manolo el Chafardines) que aparecem no romance:

— Y entre los insectos, ¡qué de tíos Miserias!, ¡qué de Victorios!, ¡qué de Manolos los Chafardines no hay! […] Ahí está el estafilino, que se lanza a traición sobre otro individuo de su especie, le sujeta, le hiere y le absorbe sus jugos … (El árbol de la ciencia, 2ª parte, IX, p. 128)

Isso é o que o catedrático de química faz para se referir, no primeiro dia de aulas na Faculdade de Medicina, aos alunos que não acompanham a aula em silêncio e respeitosamente:

¿Qué es eso? ¿Qué pasa? […] ¿Es que alguno ha perdido la herradura por ahí? Yo suplico a los que están al lado de ese asno que rebuzna con tal perfección que se alejen de él, porque sus coces deben ser mortales de necesidad. (El árbol de la ciencia, 1ª parte, I, p. 36)

Outras vezes o olhar de Baroja se dirige aos colegas médicos (dele próprio), isto é, falando do romance, de Andrés. Os alunos relapsos que não concluem nunca os estudos e ficam comodamente como alunos em práticas sem ética alguma:

Entre los practicantes había algunos curiosísimos, verdaderas ratas de hospital, que llevaban 15 o 20 años allí sin concluir la carrera, y que visitaban clandestinamente los barrios bajos más que muchos médicos. (El árbol de la ciencia, 1ª parte, XI, p. 84)

O médico ruim e sem escrúpulos, paradigma da época desolada que descreve Baroja, apresenta um comportamento animal diante das prostitutas infectadas por doença de transmissão sexual, que recebem o trato humano na descrição de Baroja:

El médico de la sala […] mandaba llevar castigadas a las enfermas a las guardillas y tenerlas uno o dos días encerradas por delitos imaginarios […] Otras veces mandaba ponerlas a pan y agua. Era un macaco cruel este tipo, a quien habían dado una misión tan humana como la de cuidar de pobres enfermas. (El árbol de la ciencia, 1ª parte, X, p. 79)

Entre os personagens que rodeiam Andrés, o protagonista, a comparação animal é direitamente proporcional ao grau de simpatia que lês mantêm com Andrés (Baroja, autor). Assim, as relações entre o personagem de Julio Aracil, como colega de estudos primeiro e de trabalho depois, resultam diversas ao longo do romance, daí que a animalização apareça, mesmo desde o começo de um modo mais tênue:

Aracil era un poco petulante, se cuidaba el pelo, el bigote, las uñas y le gustaba echárselas de guapo. Su gran deseo en el fondo era dominar, pero no podía ejercer su dominación en una zona extensa ni trazarse un plan, y toda su habilidad se empleaba en cosas pequeñas. Hurtado le comparaba a esos insectos activos que van dando vueltas a un camino circular con una decisión inquebrantable e inútil. (El árbol de la ciencia, 1ª parte, VII, p. 63-64)

Mais claro ainda é a compensação da metáfora animal que utiliza na descrição de Lulú, que finalmente será a esposa de Andrés, personagem que cativa a sensibilidade de Baroja, mesmo sendo feminino:

Lulú era una muchacha […] la distancia de la nariz a la boca y de la boca a la barba era en ella demasiado grande, lo que le daba cierto aspecto de simio […] la cara pálida, de mal color. (El árbol de la ciencia, 2ª parte, I, p. 92)

Porém, quando a descrição corresponde a um personagem desafeto a Baroja (Andrés), os traços da animalização são muito mais fortes e definidos:

La hija de la señora Venancia era una vaca sin cencerro, holgazana, borracha, que se pasaba la vida disputando con las comadres de la vecindad […] Lulú, que era justiciera, un día […] salió en defensa de la Venancia y se insultó con la mujer de Manolo; la llamó tía zorra, borracha, perro, y añadió que su marido era un cabronazo. (El árbol de la ciencia, 2ª parte, VI, p. 112-113)

6. Os temas.

Uma das inquietações com maior destaque no romance é a preocupação pela higiene que deixa transluzir Baroja, umas vezes como sistema preventivo e outras como terapia. Assim quando Andrés vai com seu irmão caçula Luisito ao campo, numa cidade do interior da província de Valencia, faz levar ao menino uma vida perto da natureza (e longe dos costumes e ambientes da cidade, da capital, de Madri): “ No es lo mismo vivir en el interior de una ciudad, entre calles estrechas, a estar en el campo. (El árbol de la ciencia, 3ª parte, III, p. 145).”

Surge, assim, em Baroja, do ponto de vista da intertextualidade, uma velha aporia que conheceu outros momentos destacados na história da literatura espanhola. Baste aqui lembrar o valor que o campo tem para Machado, nos inesquecíveis Campos de Castilla, ou na época renascentista, o legado que deixaram autores como Fray Luis de León (Oda a la vida retirada) ou Antonio de Guevara (Menosprecio de corte y alabanza de aldea). Em todas elas, a oposição campo (ainda com matizes positivos) frente a cidade (sempre tingida de um verniz negativo, e não apenas na mera paisagem) faz-se presente de forma evidente.

Para Guevara, a aldeia representa o retiro do mundo, conceito que também, como já foi dito, aparece em Fray Luis:

¡Qué descansada vida
la del que huye el mundanal ruído,
y sigue la escondida
senda, por donde han ido
los pocos sabios que en este mundo han sido! (Poesías Completas, p. 87-88)

Em ambos os casos, os ecos da Arcadia e o bucolismo são patentes, bem como as referências de Petrarca De vita solitária e de Horácio, com o recurso retórico da literatura clássica latina conhecido como beatus ille: “Beatus ille, qui procul negotiis…” (CUEVAS, 2001). Aqui, o isolamento filosófico conduz à solidão ascética. Os sábios são os que vão ordenar sua vida conforme à razão. Assim como Fray Luis, Guevara cria esse espaço do otium do virtuoso, que preferiu o afastamento à fama e ao poder e a quantos males, preocupações e vícios dela derivados. Em Fray Luis, esta visão aparece clara nos seguintes versos:

Que no le enturbia el pecho
de los sobervios grandes el estado,
ni del dorado techo
se admira, fabricado
del sabio moro, en jaspes sustentado.
No cura si la fama
canta con voz su nombre pregonera,
ni cura si encarama
la lengua lisonjera
lo que condena la verdad sincera. (Poesías Completas, p. 88)

Já em Machado, se dá a contemplação da paisagem castelhana com uma proximidade extraordinária, quase com uma visão de criança. A solidão é para ele um estado de pasmo ou de estranhamento diante do fato de que o mundo é como é, simplesmente mundo… e ele é um espectador (RIBBANS, 2002, p.39). É, mais uma vez, nesses campos, em contato direto com a natureza, que Machado encontra a paz espiritual (pessoal e ideológica) que não atingiu na sua primeira antologia Soledades, galerias y otros poemas. Machado, enfim, quer, sobretudo, transmitir-nos sua visão pessoal do sentido da vida, do mundo, através da experiência amarga da sua própria história, da sua biografia, tomando sempre como ponto de referência elementos pertencentes à realidade cotidiana, representada pela paisagem, pela natureza (no caso, dos Campos de Castilla) e todos os elementos que a configuram: objetos, fenômenos climatológicos, os vestígios do passar do tempo e seu correspondente reflexo em todos eles, etc. (MIRANDA POZA, 2007, p.103):

¡Colinas plateadas,
grises alcores, cárdenas roquedas
por donde traza el Duero
su curva de ballesta
en torno a Soria, oscuros encinares,
ariscos pedregales, calvas sierras,
caminos blancos y álamos del rio,
tardes de Soria, mística y guerrera,
hoy siento por vosotros, en el fondo
del corazón, tristeza,
tristeza que es amor! ¡Campos de Soria
donde parece que las rocas sueñan,
conmigo vais! ¡Colinas plateadas,
grises alcores, cárdenas roquedas…! (Campos de Soria, VII, p. 157)

Podemos voltar, mais uma vez, neste ponto a Fray Luis, seguindo a tradição clássica do Cancioneiro de Petrarca: O poggi, o valli, o fumi, o campi…, realiza uma exaltação da natureza e, por antonomásia, do campo, frente à cidade. Aqui, o campo é identificado como o lugar livre de riscos:

¡O monte, o fuente, o rio!
¡O secreto seguro deleytoso!,
roto casi el navío,
a vuestro almo reposo
huyo de aqueste mar tempestuoso. (Poesías Completas, p. 89)

A viagem ao Mediterrâneo em busca de sol, de calor, de vida, aparece não apenas em El árbol de la ciencia, mas em vários dos romances de Baroja. Subjaz nessa tendência o ideal do homem nórdico (basco) cansando da paisagem de luz tênue e de bruma da região norte da Espanha de onde Baroja era natural; estas viagens que que se inserem na narrativa, em certo modo, reproduzem a estadia autobiográfica do próprio Baroja na cidade de Valencia.

Valencia e o Mediterrâneo constituem o contraponto das estampas quotidianas do Madri abatido que reflete, como capital do país, o declive da Espanha de 98, representada, por exemplo, nas descrições terríveis das pupilas dos prostíbulos quando são examinadas preventivamente por Andrés no hospital.

Frente a tudo, Baroja que, como médico também e não apenas como escritor, sabia dos descobrimentos da ciência da época: o bacilo de Koch, as leituras de Pasteur, etc., era de fato um defensor da higiene no sentido largo da palavra, porque seus princípios sobre a assepsia, a limpeza, etc., transpassavam as simples concepções materialistas ou biológicas e as levava até o terreno moral, como forma de conduta, de dignidade humana (CARO BAROJA, 1996).

7. Os ambientes.

Quando se trata de reconstruir um ambiente e uma situação passada tem de se recorrer aos dados que se conhecem sobre esse período e é preciso ainda se informar de tudo o que está relacionado com seus ambientes, com a situação histórica, com as inquietações artísticas, científicas ou políticas, embora esse momento não seja tão distante, como é o caso de El árbol de la ciencia, escrita em 1911. No caso dos leitores atuais da obra, faz-se necessário uma explicação contribuindo com anotações e esclarecimentos para que esses leitores (fundamentalmente se são estudantes) saibam situar-se na época na qual a ação se desenvolve.

Este mundinho que vai criando Baroja se move através de traços ágeis. Baroja se serve de poucos rasgos para nos dar impressões vivíssimas. Abundam os quadros inapagáveis: o “rincão” de Andrés e o que se vê desde sua janela, permite mostrar a cidade desde uma perspectiva espacial e subjetiva diferente. Andrés Hurtado, isolado intelectual e ideologicamente de sua família e de seu pai, “cria” uma nova cidade que se abre ao seu olhar:

Andrés había dado nombres novelescos a lo que se veía desde allí: la casa misteriosa, la casa de la escalera, la torre de la cruz, el puente del gato negro, el tejado del depósito del agua […] Los gatos de casa de Andrés salían por la ventana y hacían largas excursiones por estas tejavanas y saledizos, robaban de las cocinas y un día uno se presentó con una perdiz en la boca. Luisito solía ir contentísimo al cuarto de su hermano, observaba las maniobras de los gatos… le producía todo un gran entusiasmo. Pedro, que siempre había tenido por su hermano cierta admiración, iba a verle a su cubil y a admirarle como a un bicho raro. (El árbol de la ciencia, 1ª parte, V, p. 49-50)

Nesse olhar particular da cidade, não falta, enfim, a animalização de um dos personagens, no caso, o próprio Andrés, desde a perspectiva do irmão Pedro: “un bicho raro”.

Outro quadro não menos interessante quanto à descrição da narrativa de Baroja é o “Café del Siglo”, que reproduz essa estampa tão característica do Madri da época que outros autores, anteriores a ele, como Galdós ou posteriores, como Cela também utilizaram nas descrições da capital da Espanha:

Entre ellas [unas cuantas muchachas de aire equívoco] llamaba la atención una rubia muy guapa, acompañada de su madre. La madre era una chatorra gorda, con el colmillo retorcido y la mirada de jabalí. Se conocía su historia: después de vivir con un sargento, el padre de la muchacha, se había casado con un relojero alemán, hasta que éste, harto de la golfería de su mujer, le había echado de su casa a puntapiés. (El árbol de la ciencia, 1ª parte, VI, p. 58-59)

Mais uma vez, o recurso à animalização antes comentado: Baroja descreve os personagens de que não gosta com traços de animal, no caso, a mãe da garota loura: “colmillo retorcido y mirada de jabalí”.

Outro exemplo de descrição imperdível que manifesta essa visão calamitosa do Madri, da vida da época em Espanha, que oferece Baroja, é o relato do Hospital de San Juan de Dios, onde se tratavam doenças venéreas:

Las enfermas eran de lo más caído y miserable. Ver tanta desdichada sin hogar, abandonada, en una sala negra, en un estercolero humano; comprobar y evidenciar la podredumbre que envenena la vida sexual, le hizo a Andrés una angustiosa impresión. El hospital aquel […] era un edificio inmundo, sucio mal oliente; las ventanas de las salas daban a la calle de Atocha y tenían, además de las rejas, unas alambreras para que las mujeres recluidas no se asomaran y escandalizaran. De este modo no entraba allí ni el sol ni el aire. (El árbol de la ciencia, 1ª parte, X, p. 78-79)

De novo, a referência à luz, ao sol, no caso, reclamando da falta de sol e de luz, tão longe da natureza, da higiene, do povoado valenciano onde Luisito foi enviado para melhorar da sua doença: oposição cidade (sombria, obscura, grisalha) / campo (luminoso, sol, sinônimo de saúde e higiene).

Um último exemplo, a descrição da casa das Minglanillas:

Había en la casa de la viuda un ambiente de miseria bastante triste; la madre y las hijas llevaban trajes raídos y remendados; los muebles eran pobres, menos alguno que otro indicador de ciertos esplendores pasados; las sillas estaban destripadas y en los agujeros de la estera se metía el pie al pasar. (El árbol de la ciencia, 2ª parte, I, p. 92)

As personagens e a mobília em perfeita harmonia apresentam um quadro grotesco e dizimado da realidade, ainda com o corolário de que em outros tempos houve algum esplendor – como a própria história da Espanha.

É notável sua maestria para a paisagem, sem necessitar de recorrer a descrições à maneira dos realistas do século XIX. Por exemplo, é difícil dar com maior economia de meios uma “impressão” tão viva da atmosfera matutina como a que nos dão as páginas sobre o pequeno povoado valenciano, a casa, o horto…:

Apareció Alcira con los naranjos llenos de fruta, con el río Júcar profundo, de lenta corriente. El sol iba elevándose en el cielo, comenzaba a hacer calor; al pasar de la meseta castellana a la zona mediterránea la naturaleza y la gente eran otras. (El árbol de la ciencia, 3ª parte, I, p. 136)

Não menos viva e “impressionista” é a pintura do povoado manchego. Com traços dispersos, Baroja nos leva a perceber o espaço, a luz, o calor sufocante. O ambiente do restaurante, do cassino etc., adquirirão uma importância singular.

Madrid, a cidade por excelência, por oposição ao campo, à Natureza, é “um campo… de cinza” por onde discorre uma vida sem vida. De novo nos apresentam amostras da mais absoluta miséria, com a qual se move a despreocupação dos afortunados, dos poderosos, dos senhores que passam bem.

8. Considerações finais

A narrativa de Baroja é realista, com base na observação de ambientes, situações e personagens da vida real, embora vistos através do particular subjetivismo do autor, o que confere à sua obra un caráter impressionista. Dono de uma prosa clara, simples, espontânea, sem retórica, como era o ideal de todos os membros de sua geração, com exagero de frases curtas e expressivas.

É oportuno lembrar que as descrições líricas com as quais Pio Baroja, costumeiramente, apresenta longas paisagens narrativas e nas quais condensa brevemente o ambiente e a impressão do narrado. Escreveu, também, contos, novelas curtas, livros de viagens, biografias, ensaios. Destaquem-se, ainda, suas Memórias, intituladas Desde a última volta do caminho, sete volumes que constituem um importante testemunho da personalidade do autor e um excepcional panorama de toda uma época.
Pio Baroja faz parte da trilogia de escritores: Cervantes-Baroja-Cela, que formam a cúpula da Literatura Espanhola. Baroja é, realmente, um dos ícones da Literatura Universal.

Referências

APONTAMENTOS do Curso “Cumbres de la novela española: Cervantes, Baroja y Cela”, ministrado pelo prof. Dr. Jacques Brunyne. Madrid: Instituto de Cooperación Iberoamericana, 1989.

_____ Curso “Novela y Sociedad”, ministrado pelo prof. Dr. Emilio Miró. Madrid: Instituto de Cooperación Iberoamericana, 1989.

BAROJA, Pío. La busca. Madrid: Editorial Baggio, 1973.

_____ Zalacaín, el aventurero. Madrid: Editorial Baggio, 1975.

_____ El árbol de la ciencia. Edición de Julio Caro Baroja. Madrid: Cátedra. 1996.

CARO BAROJA, J. Introducción a BAROJA, P. El árbol de la ciencia. Madrid: Cátedra. 1996.

CUEVAS, C. Introducción a LEÓN, F.L. de Poesías completas. Madrid: Castalia. 2001, p. 9-80.

GUEVARA, A. de Arte de marear / Menosprecio de corte y alabanza de aldea. Edición de Asunción Rallo. Madrid: Cátedra. 1987.

LÁZARO, F.; TUSÓN, F. Literatura española. Madrid: Anaya, 1980.

LEÓN, F.L. de Poesías completas. Edición de Cristóbal Cuevas. Madrid: Castalia. 2001

MACHADO, A. Campos de Castilla. Edición de Geoffrey Ribbans. Madrid: Cátedra. 2002.

_____ Poesías completas. Prólogo de Manuel Alvar. Madrid: Espasa-Calpe. 1977.

MARTÍNEZ PALACIO, J. et al. Pío Baroja. Madrid: Taurus, 1974.

MIRANDA POZA, J.A. España y América. Tres ensayos de lengua y literatura. Recife: Bagaço. 2007

NORA, E. de La novela española contemporánea. Madrid: Gredos, 1973.

RIBBANS, G. Introducción a MACHADO, A. Campos de Castilla. Edición de Geoffrey Ribbans. Madrid: Cátedra. 2002.

TIJERAS, E. Pío Baroja. Madrid: Epesa, 1971.

Internet:

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