Poesia, para mim, é…

24 fev 2015

A poesia é o sal que afugenta a podridão.
(François Silvestre)

Poesia para mim é alumbramento, é motivo de êxtase, arroubo, clímax, gozo e encantamento; até quando ela canta, declama e proclama: o inútil, o império do ocasional ou o mais insignificante e vão momento.

Poesia, para mim, não escolhe dia, lugar nem instante; brota no lodo, no roçado, na praia, na montanha, no sertão e na beira de um acostamento; faz-se manjar de glória, bem como se apresenta no atrativo palco da memória ou no sótão escuro do esquecimento. Não anuncia exclusivamente o brilho da vitória, nem tão só os feitos maiores do heroísmo; obra o milagre de encontrar ventura na saga de um roto mendigo, ou no triste fim da vida, ou na dor que pulsa e corrói, aparentemente sem a mínima valia.

Poesia não combina só com o reinado do sol, muito menos somente com o cheiro lúbrico da maresia. Já flagrei o seu coito com a prenhez da lua, com a manhã pesadamente nublada, sem citar o seu conluio com o pântano malcheiroso de algumas tardes em que nos amasiamos com a infinita, desmesurada, louca desdita e a infausta adversidade.

Poesia não se aprende no banco da escola, pois para o seu nascimento há que ter havido o mercurial parto-sangue da vida, o sentido da existência a roer o tutano dos seus ossos e uma certa, bem certa, dose de alquímica vivência. Vivência que não significa anos, porém cativa e alerta sensibilidade. Sensibilidade a tudo o que nos cerca, enleva, atrai e vitimiza.

Poesia, para mim, não é escrever em forma de versos. Isto é até uma arte menor; outra coisa: rimar, por rimar não é o cerne da telúrica lírica. Poesia não é rabiscar no tapete da beleza; muitas vezes, sempre desconfio, há mais poética na feiúra do que na mais afoita e real beleza. Já fui surpreendido por uma estrofe que me tocou os nervos, no exato momento em que sujou os meus dedos de vidro com a porca borra, até então, não pressentida.

Na infância, eu encontrava poesia em casa, nos becos e na rua; no bico e no ninho dos pássaros; no sacrário do alvorecer; no discurso de alguns prosaicos bêbados de Licânia; no entardecer com a sua ruidosa algaravia do passaredo, que retornava para o sono nos encorpados e vetustos benjamins; na sinfonia dos incrédulos e desprezados pardais sempre festivos; no voo atávico e atabalhoado dos morcegos; no bojo do anoitecer com os seus medos e as suas sugestivas bruxarias; até nas conversas nas calçadas, onde as senhoras desfiavam a graça da sina alheia, ao tempo em que se fiavam na proteção castiça e imaculada da Virgem Maria; ou nos gestos lúbricos da animália, a copularem quando da lida da minha província. Não sabia que aquilo tudo se “chamava” Poesia; contudo, pouco depois, ao flagrar o soneto “O Palhaço”, de Padre Antônio Tomás:

Ontem viu-se-lhe em casa a esposa morta
E a filhinha mais nova tão doente!
Hoje, o empresário vai bater-lhe à porta,
Que a plateia o reclama impaciente.

Ao palco em breve surge… Pouco importa
O seu pesar àquela estranha gente…
E ao som das ovações que os ares corta,
Trejeita, e canta, e ri nervosamente.

Aos aplausos da turba ele trabalha
Para esconder no manto em que se embuça
A cruciante angústia que o retalha,

No entanto a dor cruel mais se lhe aguça
E enquanto o lábio trêmulo gargalha,
Dentro do peito o coração soluça.

Um soneto! — entusiasmei-me. Enquistado no bronze em plena praça pública da minha Sant’Anna. Pasmo, perguntei o que era aquilo; e o meu pai, sereno e bondoso, quase me sussurrou, melífluo, aos ouvidos: “Poesia, filho!”. Dormi, naquela noite, com um misto de torpor e cândida primazia, sabendo que descobrira uma rica botija; botija que me traria o ouro da palavra, encoberto com o fulgor da prata do verbo melodia.

Ainda bem jovem, conheci Patativa, Cecília, Bandeira, Drummond, e o caso ganhou foros de excelsa graça, bendita e louca extasia. Nunca mais quis saber de ler a vida no compasso do insosso, na dança do sensaborão, no bagaço insípido do desenxabido. Pouco tempo depois, já residindo em Fortaleza, sou apresentado ao soneto “Contraste”, de Padre Antônio Tomás. Li e reli-o numa mescla de angústia, arrebatamento e deleite:

Quando partimos no verdor dos anos,
Da vida pela estrada florescente,
As esperanças vão conosco à frente,
E vão ficando atrás os desenganos.

Rindo e cantando, céleres e ufanos,
Vamos marchando descuidosamente…
Eis que chega a velhice de repente,
Desfazendo ilusões, matando enganos.

Então nós enxergamos claramente
Como a existência é rápida e falaz,
E vemos que sucede exatamente

O contrário dos tempos de rapaz:
— Os desenganos vão conosco à frente
E as esperanças vão ficando atrás.

Enfim, caro leitor, Poesia, para mim, é, pura e simplesmente, o sal da vida. Ou, como melhor ensina o Conde de Cajuais da Serra, o mestre François Silvestre: “A poesia é o sal que afugenta a podridão”. E tenho dito. Bom e poético domingo.

Clauder Arcanjo
clauderarcanjo@gmail.com

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