POLÍBIO ALVES: O VATE DO VARADOURO

24 jul 2017

O ofício de escrever, desse lado do Equador, é sempre um ato de desestímulo. Porque a nossa cultura é patrimônio das elites dominantes, se gasta mais com projetos políticos do que com a educação, cultura e saúde.

Escrever é dissecar o cotidiano, e fazer o leitor refletir sobre a vida, os amigos, os demônios, os segredos de família, os anjos, a morte, o amor, a solidão e a dor.

Escrevo para não morrer de silêncio. (Políbio Alves)

Considerações Preliminares

Políbio Alves dos Santos, vate paraibano nasceu em João Pessoa, no bairro Cruz das Armas, no dia 09 de janeiro de 1941. Arrimo de família desde criança. Ainda em tenra idade, partiu para o Rio de Janeiro à procura de emprego para oferecer melhor qualidade de vida à sua querida mãe. Prosseguiu seus estudos, ingressou na Faculdade e formou-se em Ciências da Administração, pois, quem é firme em seus propósitos, molda o mundo a seu gosto.

Por não ter condições de alugar um imóvel para viver no Rio, como era estudante, foi residir no Calabouço. O Brasil estava atravessando o cruel período ditatorial. Sendo o Calabouço quartel general dos estudantes para realizar seus movimentos estudantis, certa vez foi invadido e vários estudantes foram presos, dentre os quais se encontrava Políbio. Distante da família, sem poder comunicar-se, sofreu as torturas da ditadura, mesmo sendo inocente. Sua família não tomou conhecimento, apesar da desconfiança de que algo ocorria. Não gostaria de saber que sua mãe iria sangrar o coração se soubesse do sofrimento que atravessava. Preferiu o silêncio, porque o tempo não cura, só desloca o incurável do centro da atenção.

Foi colaborador do Jornal A Tribuna da Imprensa, no período de 1967 a 1979, no Rio de Janeiro.

Desde 1974 é Cidadão Carioca, título que lhe foi outorgado pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, pelos serviços prestados na área da educação.

Em 1980 regressou à Paraíba. A partir de então, foi colaborador do Correio das Artes e do Jornal A União, ambos em João Pessoa, oportunidade de publicar seus excelentes poemas. Foi Editor de textos da Revista Presença Literária, no período de 1983 a 1985, alguns dos quais constam em livros, revistas e antologias.

Desde 1990, Políbio Alves reside na Cidade Portuária de Cabedelo, PB.

POLÍBIO ALVES NA VISÃO DA CRÍTICA LITERÁRIA

Para organizar este tópico, fui beber na fonte de O oficio de escrever e outras vertentes, de autoria de nossa insigne e imortal Molina Ribeiro. Esta minha pretensão se deve ao fato de prestar uma homenagem à autora da citada obra, que tão bem abordou sobre Políbio Alves, através de uma coletânea de entrevistas sobre o Vate paraibano.

Políbio Alves é um artista movido pela inquietação. Um homem apaixonado pela arte. Um criador múltiplo, sensível, consciente das possibilidades críticas e transcendentes da poesia que escreve (WALTER GALVÃO).

No espaço do Varadouro o poeta dá um passeio imaginário, circula por vários tempos, desde a fundação da cidade, o domínio holandês, as lutas coloniais portuguesas, os ciclos econômicos, o apogeu e a decadência da cidade. Nela, os homens passam e ficam as pedras. Mas as pedras também passam, porém as casas viram ruínas. Espaço morto, escombros. O tempo tatua nas pedras a história. VARADOURO seria uma imensa ruína reconstruída pelo poeta. Uma ruína de infância, reconstruída mas sempre imperfeita. Uma lembrança viva (JOMARD MUNIZ DE BRITTO).

[Políbio Alves] é um poeta que se considera urbano, que acompanha a transfiguração da cidade, cidade que é seu exílio e sua aldeia. […]. Políbio encara o ato de escrever como heroico. E os fantasmas pessoais e coletivos passeiam nas páginas de VARADOURO. Entre a trajetória pessoal e a história, a poética da solução, como se o absurdo do tempo e a duração nos jogasse contra o rochedo da memória e do pensamento. […] Fonte de prazer e de dor, VARADOURO surge nas artérias do poeta. Um jorro de gozo e de dor fundidos numa poética forte. Complexo. Entre a transgressão e a narrativa, o poeta aguarda seus leitores e rompe as amarras de província/prisão. Daí a ponte imaginária entre VARADOURO e LA HABANA (Cuba) numa prova de que a literatura não tem fronteira. […] (RIBEIRO, 2010, p.13-15).

Políbio Alves representa a continuidade do projeto modernista no que tem de desbravador quanto à viabilidade da arte. Entretanto, prossegue, a escritura polibiana tende a espantar os leitores, simulando pequenas incertezas. Mas justifica porque o próprio autor confessou-lhe ser tudo proposital. [….] No texto polibiano, [percebe-se] o rito de inquietação e anseios insondáveis, a emoção desesperadora e a constante musicalidade, além da fugacidade de um canto que exprime as cantigas medievais de amor, de amigo, daqueles velhos cancioneiros sempre novos. Uma escrita sedutora que conserva um canto particular.[…] É assim, a poesia desse paraibano de Cruz das Armas, a dedilhar um discurso lúdico e lúcido, numa simbiose de afinidades e ressonâncias, enquanto manifestação do poético.(RIBEIRO, 2010, p.25).

Em entrevista ao escritor Juca Pontes, no Jornal O Norte, de 23 de março de 1980), Políbio Alves narra por que escreveu VARADOURO:

Escrevi VARADOURO para redescobrir o fantástico de um tempo perdido. Era o compromisso do homem, do escritor, do poeta com sua terra, com suas coisas. E este meu ato. À semelhança de outros, incitava-me. E assim, acabei por decidir aflorar na escritura e no verso a esperança do ser humano.[…] Varadouro me tomou dez anos para ser concluído. É meu livro de poesia que me encantas, muito. É como se fosse uma fotografia em pedaços que, aos poucos, fui recompondo a imagem distorcida pela ferrugem do tempo, do nada, da maré vazando, dos homens e peixes, das artérias e dos armazéns de secos & molhados. E, como não bastasse, consegui, durante o meu exílio voluntário, neutralizar as barreiras da exclusão entre os meus fantasmas da infância e os pesadelos da minha província. E, com efeito, se o que escrevo incomoda, não é e nunca foi essa a minha intenção. Aconteceu, pois, naturalmente. Ocorre, porém, que o olhar plural do escritor, do poeta quando esmiúça as coisas do cotidiano. Portanto, é nesse ponto de referência que me debruço. Exatamente, sobre esses dias incertos, desse grito humilhado preso na garganta, como uma lâmina afiada. Tudo isso era inserido em Varadouro […] é um grito de amor por João Pessoa, minha cidade. (apud RIBEIRO, 2010, p.34-35).

Políbio Alves sempre que conversa sobre seus escritos frisa que não troca sua alegria de escrever por nada, por isso se casou com a ficção e a poesia cujos filhos são seus livros. Esta confirmação, pode observar-se em um depoimento ao insigne escritor Wellington Pereira, no Jornal O Norte, de 29 de setembro de 1985), quando ele afirma: Não trocaria minha alegria de escrever por nada.

Políbio Alves revela ao ilustre jornalista Ricardo Anísio, em entrevistas ao Jornal O Momento ( 1989; 1991), atualmente extinto:

Sou do signo de Capricórnio, então, aprendi a conviver comigo mesmo. E isto não significa solidão […]. O meu prazer maior continua sendo, ao longo dos anos, a ficção e a poesia. Escrevo para espantar as pessoas. E dessa maneira, desencadear o vínculo entre o real e o imaginário. Quero rearticular o que estava disperso, talvez por comodismo ou medo […].Topei o risco de expor minha escrita porque o exercício diário da ficção e da poesia, o questionamento e o conflito são enriquecedores. Este é o momento de resgatar a pluralidade de nossas raízes, desvelando a reflexão e a contemporaneidade.
[…]

Esse, o meu estranho prazer: inquietar as pessoas. Exatamente, questionar o que é certo, maldito, palpável, incerto, direito, esquerdo, subversivo, proibido, oculto, restrito, insólito, bendito. Isso me renova e me dá forças para continuar vigilante.
[…]

Quanto à minha escrita, cada livro é um projeto em ascensão. Porque aí se estabelecem novos caminhos. O renascer de uma consciência crítica da coletividade e de nosso subdesenvolvimento. O escritor, o poeta, […] tem obrigações e tarefas: buscar a palavra exata à medida que os obscurantistas da província visam alienar a comunidade. (RIBEIRO, 2010, p.40-41).

Políbio, as palavras comovem, os exemplos arrastam. E você é um exemplo de cidadania, ao induzir a juventude para a arte de escrever. Que maravilha! Sua mente deve ser instrumento de trabalho e paz, em favor de todos.

O insigne escritor Linaldo Guedes refere que Varadouro já se tornou um clássico na nossa literatura. Com o tempo o livro transformou-se em referência para quem quer conhecer mais a fundo a nossa própria história através da estética fascinante da poesia (RIBEIRO, 23010, p. 54).

Marcos Vinicius, poeta paraibano, radicado em São Paulo, em carta a Políbio Alves ( 13 nov. 1991) comenta sobre a obra Varadouro:

[…] lendo Varadouro, tive uma bruta (boa) inveja do teu projeto poético. Pensando bem, acho que todos ao que fizemos literatura na Paraíba sempre tivemos uma atração muito grande pela Cidade Baixa, pelo Hotel Globo, pela Maciel Pinheiro, Porto do Capim […], pelo Sanhauá e seus entornos (RIBEIRO, 2010, p. 56)

Questionado pelo contista Antonio Arcela sobre o livro Varadouro, nosso Vate

Assim se expressou:

[…] Varadouro é a história do nosso Centro histórico, como tal, deve ser publicado em João Pessoa. Na verdade, não importa o apogeu da tecnologia e dos distritos industriais, o Varadouro continuará vivo, desnudo na pele da minha escrita. Acho impossível, por exemplo, esquecer o rio Sanhauá, a Ilha do Bispo, a ponte do Barulho, a Casa de Força\, o Hotel Globo, o velho Guinô, a Igreja do Galo […] (RIBEIRO, 2010, p. 73).

Indagado pela emérita jornalista Fátima Araújo sobre “qual a mensagem de Varadouro”, nosso Vate se expressa: Acredito ser a transformação da Velha Cidade, já rearticulada na destruída sobrevivência do homem em seu meio e suas origens. Talvez, a saga regurgitante do tempo perdido, rejuvenescido, agora, através da publicação do meu livro (RIBEIRO, 2010, p. 81).

No Varadouro se encontram as raízes, os demônios e os anjos que povoam as noites de insônia de nosso querido Políbio, pelo menos é o que lemos na entrevista concedida ao poeta Cláudio Limeira, quando diz: Varadouro […] onde ele louva e exalta com maestria os mistérios, a beleza, o encantamento desse mundo mágico com o casario e seus becos habitados pelos fantasmas que povoaram e ainda povoam a memória de nossa Filipéia, hoje João Pessoa (RIBEIRO, 2010, p.87).

Políbio, somos moldados e ajustados por aquilo que amamos. E você ama a ficção e a poesia. Conserve este amor que ferve em suas veias.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Varadouro é a obra prima de Políbio Alves, Lançada em 1989, edição custeada pelo autor. Conforme já foi exposto, retrata a cidade antiga de João Pessoa com suas ruínas – tudo é ruína. Sua obra representa o exórdio da modernidade diante da poesia existente na Paraíba, essa obra, de fato, recodifica a estrutura do poema convencional vigente desde os árcades. Uma obra dimensionada no fluxo estrutural de um novo olhar. […]Ao se debruçar sobre a cidade velha, nos ensinou uma lição muito singela: amar as nossas origens

Para concluir, tomei por empréstimo o último parágrafo de Introdução: um furor borginiano da obra de Molina (p.31), nosso objeto de pesquisa nesta pequena homenagem ao grande Vate paraibano:

Na verdade, o trabalho de Políbio Alves é hoje uma referência, não só da cultura paraibana, mas também da literatura hispânica, ao ser traduzido para a língua espanhola e publicado em Cuba. A respeitabilidade da poesia e da ficção polibianas está fundamentada e registrada no maior acervo da produção literária do Brasil até nossos dias; A Enciclopédia de Literatura Brasileira, organizada por Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa. No entanto, sua obra ainda é insuficientemente conhecida, quando não ignorada pelos nossos jovens. Isto porque os nossos valores culturais continuam ainda infinitamente relegados ao ostracismo dos nossos políticos ao descaso da memória nacional.

Querido Políbio, o caráter de um homem faz seu destino. Sabedoria é a arte de subir ao mais alto de si mesmo. E você o fez. Receba, esta homenagem que ora lhe rendo, é muito pequena para a sua dimensão como

ser humano, como escritor, como poeta; você merece muito mais, porém, é o máximo de meu limite como humana.

Ninguém é tão grande que não possa aprender, nem tão pequeno que não possa ensinar. Mas eu aprendi muito com uma pessoa muito grande que se chama POLÍBIO ALVES DOS SANTOS.

Não se esqueça de que são nos menores frascos que contêm os melhores perfumes. Sinta-se, por conseguinte, perfumado com esta singela homenagem.

REFERÊNCIAS

RIBEIRO, Molina (Org.). O ofício de escrever e outras vertentes. Secretaria da Educação e Cultura do Estado da Paraíba. Subsecretaria de Cultura. Conselho Estadual de Cultura, João Pessoa, 2010.

SANTOS, Políbio Alves dos. Curriculum Vitae. Edição do Autor. João Pessoa, PB, 2017.

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