POLITIZAÇÃO

16 jul 2018

O nível de politização constitui uma linha de ação, uma parte do programa dos movimentos engajados numa transformação radical das estruturas políticas, econômicas, educacionais e sociais visando à melhoria das condições de vida de uma nação, principalmente quando o debate em voga procura educar o povo, mobilizando grande massa da população completamente alienada e chegando-se a um bom nível de conscientização.

O cidadão não pode ficar à margem do processo de politização e viver a mercê do domínio da minoria radical que a todo custo quer levar a melhor no grito e por trás defendendo interesses escusos. O espaço democrático cabe todas as ideias contrárias.

Os partidos políticos, como entes representativos de segmentos sociais na defesa dos interesses coletivos, porque são formados de homens e mulheres com um fim comum na melhoria dos diversos setores na sociedade, perderam o sentido de defesa social, uma vez que caíram na malha das falcatruas, dos conchavos escandalosos e no desvio do dinheiro público.

A dificuldade do momento atual é encontrar o candidato perfeito e o governante ideal, que seria aquele líder por natureza e o administrador que não amasse tanto o poder e desprezasse o ideal. Tivesse como foco a organização política do Estado e a coletividade fosse socialmente bem servida nos seus diversos ramos operacionais. Não serve o uso do discurso demagogo que já respalda um ato de atitude barata, desmedida e anacrônica.

Podem até nos chamarem de sonhador, mas nós não somos o único a pensar numa sociedade igualitária, justa e solidária que conviva harmoniosamente no bem-estar coletivo. Reconhecedora que o ser humano não deve ser usado como qualquer objeto de bagatela encontrado na feira-livre.

A nossa assertiva encontra sustentação na literatura universal. Nós sabemos que Platão (427 a. C.), com apoio nos ensinamentos de Sócrates, descreveu os atos, ações e atitudes do governante ideal, assim, deixando um livro de doutrinação política, compêndio literário intitulado de “A República”, que a posteridade ainda não colocou em prática os seus ensinamentos políticos, conserva apenas como um livro exposto na estante sem fazer o devido uso.

Realmente, é muito difícil por este exercício de atividade a prática do bem comum, afugentando a ideia do individualismo e exorcizando o defeito do egoísmo.

A visão política de Platão projetou um Estado Ideal, que o bom governante deveria buscar subsídios na arte do bem governar, entretanto, por incrível que pareça, ainda, hoje, nós não temos conhecimento do governante que tenha apresentado esta capacidade de retirar os governados que vivem na escuridão da caverna como tentativa que executasse e levasse à prática os atos governamentais no sentido de alcançar o justo, o bem, o belo e a justiça.

Na nossa era contemporânea, já que não podemos escolher o governante idealizado por Platão, gostaria que, pelo menos, o governante cumprisse a Constituição e as leis que regem o país, cuja gestão política fosse pautada pelos princípios norteadores da administração pública: impessoalidade, legalidade, moralidade, publicidade e eficiência, afastando a mácula da corrupção, que atua em forma de organização criminosa, com o fim único de dilapidar o patrimônio público, uma vez que a corrupção não comunga com probidade administrativa.

A maior exigência de nossa sociedade sofrida e vilipendiada no seu direito à cidadania, pagadora de exorbitantes tributos, sem a devida retribuição social, é que o governante tivesse o propósito de implantar e realizar políticas públicas voltadas unicamente para o bem comum, e, sobretudo, respeitando à dignidade da pessoa humana. Que tivesse um nível de consciência política no sentido de cuidar da coisa pública sabendo que não é propriedade privada, mas zelando com mais cuidado como se fossem seus próprios bens materiais. Aflorar na consciência de que o mandato eletivo tem caráter temporário e que a alternância do poder é a mola-mestra do regime democrático. Ter na mente que foi eleito por um partido político por uma questão de exigência legal, no entanto, é o governante de todos, porque a minoria se curva ante a decisão tomada pela maioria, nos termos do processo democrático.

Além disso, trazer consigo a virtude da honestidade, e que a honestidade seja guardiã de todas as ações públicas. Que os seus subordinados cumpram fielmente as diretrizes traçadas no programa de governo e que qualquer desvio deste delineamento não seja mais merecedor de participar do gabinete.

Há de convir que, mesmo seguindo esse direcionamento acima exposto, na nossa humilde concepção, o moderno governante não chegaria a ser aquele projetado por Platão porque nós não temos um governante capaz de entregar a própria vida em defesa dos governados. E isto somente ocorrerá se for um autêntico idealista. Por outra banda, quando um governante comete um crime, a pena imposta seria maior do que o governado ou o cidadão comum que tenha praticado o mesmo crime.

A miopia partidária está paulatinamente cegando o ideal de bem servir e a visão dos fatos só é vista pela imagem truncada da cor partidária, cria fatos mirabolantes, esquecendo que a democracia é uma forma de governo do povo, para o povo e pelo povo.

Isto posto, o governante de boa índole teria plena consciência que o Estado foi criado para servir, e não para servir-se.

A política como dizia Platão é um lugar para homens públicos e honestos que devem abdicar dos prazeres humanos para vivenciar a coletividade e trabalhar para o bem comum.

Podem me chamar de sonhador ou utópico, mas não estou sozinho sentindo este sonho nem alimentando esta utopia, assim plagiando o líder The Beathes – John Lennon.

João Pessoa – PB, 16 de julho de 2018.

Por Severino Coelho Viana

SEVERINO COELHO VIANA

scoelho@globo.com

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