POMBAL E A SECA DE 1932: A CONSTRUÇÃO DO AÇUDE DE CONDADO Por José Tavares de Araújo Neto

12 mar 2018

POMBAL E A SECA DE 1932: A CONSTRUÇÃO DO AÇUDE DE CONDADO

Por José Tavares de Araújo Neto

Getúlio Vargas havia sido derrotado nas eleições presidenciais de 1930 pelo candidato situacionista Júlio Prestes. Na Paraíba, questões políticas, de ordem meramente paroquiais, iriam alterar o rumo da história da política brasileira. Disputa política envolvendo o Coronel José Pereira e o Presidente da Paraíba João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, episódio que ficou conhecida como a Guerra de Princesa, terminou de forma trágica, em 26 de julho de 1930, quando o advogado João Dantas assassinou o presidente paraibano, candidato a vice-Presidente da República na chapa derrotada encabeçada pelo gaúcho Getúlio Vargas.

A morte de João Pessoa foi a mola propulsora que levou a oposição, sob o comando de Getúlio Vargas e com auxílio de setores militares, a articular a derrubada do governo oligárquico da política café com leite, representado no momento pelo Presidente Washington Luís, que apesar de ter nascido no Rio de Janeiro, fez carreira política no Estado de São Paulo.

Depois de controlar os focos de resistência nos estados, em novembro de 1930, Getúlio Vargas e seus aliados chegam ao Rio de Janeiro, dando início a chamada Era Vargas, que se estende até 1945.

Já era 1932. O ano começava sem nenhuma perspectiva de que as chuvas voltassem a cair com regularidade no semiárido nordestino. A região vinha atravessando um longo período de chuvas fracas, iniciado em 1927, com uma rápida pausa em 1929, ano que choveu regulamente.

No entorno das cidades nordestinas já havia formação de inúmeras concentrações de flagelados da seca, que fugiam da zona rural em busca de alimentos e trabalho. No Ceará, o Governador do Estado adotou um cinturão de proteção constituído de cinco campos de concentrações, localizados nas proximidades das principais vias de acesso à capital, a fim de prevenir a “afluência tumultuária” de retirantes famintos à Fortaleza.

O Governo Federal via com preocupação os primeiros sinais do exacerbamento da insatisfação e ensaios de reações das classes oligárquicas contra a ruptura da política café com leite, acordo de alternância do poder nacional celebrado entre as oligarquias paulista e mineira.

Urgia a necessidade de que o Governo Federal tomasse medidas práticas e urgentes de assistência à população “flagelada”, a fim de evitar que a insatisfação dos paulistas não contaminasse os nordestinos. Neste sentido, o Presidente Getúlio Vargas entregou esta missão ao paraibano José Américo de Almeida, Ministro de Viação e Obras Públicas, cujo Oficial de Gabinete era o advogado pombalense Rui Carneiro.

O Ministro José Américo apresentou novas propostas de enfrentamento do problema secular, incluindo a retomada de velhos projetos, representados principalmente por obras iniciadas no governo do paraibano Epitácio Pessoa (1919-1922) e paralisadas desde a gestão de Arthur Bernardes (1922-1926).

No dia 8 de abril de 1932, o Presidente Getúlio Vargas emite o Decreto nº 21.259, abrindo crédito especial no valor de 2.500:000$0 (dois mil e quinhentos contas de réis), destinado ao auxílio indireto aos flagelados por meio de obras de açudagem e rodoviárias, que ficarão a cargo dos mencionados Estados. A Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará são os estados beneficiados com a maior cota, com a importância de 432:200$0 para cada.

No Programa de Açudagem a Paraíba é contemplado com a retomada da construção do Açude São Gonçalo, no município de Sousa, iniciada em 1921, no Governo de Epitácio Pessoa e paralisada em 1923, na gestão do Presidente Arthur Bernardes. Também são autorizados a construção dos Açudes de Pilões (São João do Rio do Peixe), Riacho dos Cavalos (Catolé do Rocha), Santa Luzia (Santa Luzia), Boqueirão de Piranhas (Cajazeiras) e Condado (Pombal), sendo que este último não constava na idealização original, inserido graças à intervenção de Rui Carneiro, oficial de gabinete do Ministro de Viação e Obras Públicas.

Em 9 março de 1932, o interventor do município de Pombal Janduhy Carneiro recebe a comitiva do interventor do Estado Antenor Navarro, que veio para inaugurar o Grupo Escolar João da Matta, primeiro educandário da esfera Estadual implantado na cidade, construído com recursos do Programa Emergencial de Combate a Seca.

Na ocasião, Janduhy Carneiro fez ciente a Antenor Navarro de sua preocupação com o iminente agravamento do quadro social ocasionado pela falta de chuvas. O prefeito levou o governador para conhecer a Cruz da Menina, local onde, na seca de 1877, uma retirante havia sepultado os restos de uma criança, depois de matá-la e se alimentar de sua carne, fato registrador no livro “Paraíba e seus Problemas”, lançado em 1923, por José Américo de Almeida, agora Ministro de Aviação e Obras Públicas.

No dia 23 de abril, o interventor Antenor Navarro retorna à cidade de Pombal, desta feita ciceroneando a comitiva do Ministro José Américo, que contava, dentre outros, com a presença do seu oficial de gabinete Rui Carneiro e de Artur Fragoso Lima Campos, Inspetor Geral da Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (IFOCS). Esta é a última vez que Antenor Navarro visita Pombal. No dia 26 de abril, retornando do Rio de Janeiro, Antenor Navarro, Lima Campos e o telegrafista Brás Santos têm suas vidas ceifadas por um acidente aéreo no litoral baiano.

O início dos trabalhos da construção do Açude de Condado atraiu muito gente à procura de emprego. Inicialmente o Ministro José Américo havia autorizada a contratação de 1.400 operários, mas devido ao grande número de “flagelados” que chegavam ao lugar, este número foi elevado para 2.000, depois passou a ter 3.000 homens empregados. Anteriormente, a convite de Rui Carneiro, José Américo havia visitado um acampamento de “flagelados” em Pombal e saiu muito sensibilizado com a situação de penúria que passava os conterrâneos do seu oficial de gabinete. Foi inspirado na seca de 1932, provocado por Rui Carneiro, que o médico e compositor Joubert de Carvalho compôs no mesmo ano a canção “Maringá”, que conta a história de uma bela jovem que por conta da seca teve que se retirar de Pombal.

Os trabalhos de construção seguiram em ritmo normal. Em 1934, face às fortes chuvas caídas na montante do açude, houve uma alerta de arrombamento, que foi solucionado a tempo. A obra foi concluída e inaugurado em 1936, quando era Interventor do Estado Argemiro de Figueiredo e Francisco de Sá Cavalcante havia assumido o cargo de Prefeito depois de derrotar o médico Janduhy Carneiro, por uma diferença de 19 votos, na primeira eleição direta da história de Pombal.

Bibliografia consultada:

1. A Paraíba e seus problemas, José Américo de Almeida;

2. Notas sobre a seca de 1932, de José Romero Cardoso de Araújo;

3. A Seca de 1932, de Jasson Oliveira;

4. O Poder Político de José Américo de Almeida – A Construção do Americismo (1928-1935), de Barbara Bezerra Siqueira da Silva (Dissertação de Mestrado);

5. A formação histórica e política do município de Condado, Estado da Paraíba, de Lucimar Formiga Soares;

6. Getúlio e a seca: políticas emergenciais na era Vargas, de Frederico de Castro Neves;

6. Os impactos da Modernidade na Cidade de Pombal Entre os Anos 1930-1945, de Helmara Giccelli Formiga Wanderley Junqueirar;

7. Pombal em Retalhos, de Francisco de Assis Vieira Nunes.

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