Pulmão do Planeta Água

26 mar 2013

(*) Rinaldo Barros

“Um dia a Terra vai adoecer. Os pássaros cairão do céu, os mares vão escurecer e os peixes aparecerão mortos na correnteza dos rios e nos oceanos”. (Profecia de “Olhos de Fogo”, velha índia da nação Cree, há 200 anos)

A conversa de hoje está cheia de inevitáveis termos técnicos. Não pude evitar.

É preciso ter muito claro o papel da Amazônia no equilíbrio da biosfera. A maior floresta tropical do Planeta, a Amazônia, corresponde a 2/5  da América do Sul e a metade do Brasil. Então, a floresta amazônica é o “pulmão do planeta”. Certo?

Errado! Há muito se sabe que a floresta amazônica se encontra muito próxima de seu ponto de compensação. Ou seja, sua taxa de fotossíntese é quase equivalente à sua taxa de respiração.

É verdade que a floresta produz uma imensa quantidade de oxigênio mediante a fotossíntese durante o dia. Porém, as plantas superiores e outros organismos associados vivendo nessa mesma floresta respiram 24 horas por dia, ou seja, o oxigênio que a floresta produz acaba sendo utilizado na respiração dela mesma.

Ou seja, a nossa majestosa floresta não é, portanto, o “pulmão do mundo”.

Felizmente, o planeta dispõe de outro mecanismo para absorver o CO2 em excesso.

Felizmente, existem os fitoplânctons – nos mares e oceanos (dois terços do nosso Planeta é ocupado por rios, lagos, mares e oceanos) e funcionam como um reservatório, sugador de CO2 da atmosfera e produtor de oxigênio.

Fitoplânctons são minúsculas plantas marinhas que florescem sob água fria e rica em nutrientes. A sua notável coloração esverdeada é causada pela reflexão da clorofila produzida pelos fitoplânctons, que, assim como as plantas terrestres, usam o processo de fotossíntese para criar carboidratos a partir de dióxido de carbono e água, ou seja, fixar em sua estrutura o carbono e devolver o oxigênio ao meio ambiente.

A quantidade de oxigênio produzida pelos fitoplânctons para atmosfera é superior a do oxigênio gerado pelas florestas, porque a massa verde dos fitoplânctons é maior que a biomassa florestal. Os fitoplânctons estão disseminados em todo volume das águas dos mares e oceanos enquanto as florestas ocupam apenas alguns espaços sobre a crosta terrestre. Espaços cada vez menores, pela ganância de alguns.

Caro leitor, acontece mais ou menos o seguinte:

Os mares e oceanos, devido ao aquecimento global, estão tendo as camadas superficiais aquecidas e este aumento de temperatura superficial aumenta o volume das moléculas d’água com a conseqüente diminuição da densidade das mesmas. Por isso, apesar do movimento natural das ondas e das marés, não há uma boa renovação, uma mistura das águas, a superfície não se renova de forma suficiente para arrastar as partículas salinas nutritivas do fundo dos mares e oceanos para a superfície até os fitoplânctons e estes, devido a esse fenômeno, começam a se extinguir por falta de nutrientes.

Outra condição importante é a necessidade de luminosidade para que haja a fotossíntese na biomassa formadora dos fitoplânctons, até porque estes só sobrevivem aonde chega a luz solar.

A poluição reduz a transparência das águas, as águas ficam translúcidas, impedem a passagem parcial ou total dos raios solares. Sem os raios solares, não há fotossíntese. Sem fotossíntese, não há produção de oxigênio e fixação do carbono.

Se os fitoplânctons morrem, liberam por ação anaeróbia, o metano; o qual é vinte vezes mais poluente que o gás carbônico. O metano é um gás leve, procura as camadas mais altas da atmosfera chegando até as camadas de ozônio com o qual reage – quanto maior a quantidade de metano, menor e mais rarefeita será a camada de ozônio, nosso escudo protetor ante os raios ultravioleta. Uma tragédia anunciada!

Onde está a saída?

A saída está em poluir menos – não jogar lixo nas águas – e fertilizar, em grande escala, os mares, oceanos e as águas internas, para aumentar a reprodução primária dessas microalgas, os fitoplânctons.

Para que a profecia de Olhos de Fogo não se concretize, é indispensável proteger o ambiente marinho e cuidadosamente gerir seus recursos. Mares e oceanos seguros, saudáveis e produtivos são parte integrante da segurança econômica e do desenvolvimento sustentável.

Resumo da ópera: por ignorância, as atividades humanas estão tendo um efeito terrível e suicida sobre os oceanos e os mares do mundo.

(*) Rinaldo Barros é doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento, pela UFPR – rb@opiniaopolitica.com

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