Romântico Carnaval

14 fev 2013

 

Chegou o Carnaval, finalmente… Ninguém é de ferro para suportar amarguras do ano inteiro, sem dançar descontraído. E não chegou para descanso ou para meditações, senão que para exorcizar inseguranças, fantasmas que, desde fevereiro passado, rondaram as nossas portas.

Lazer não é novidade. A humanidade sempre teve grandes festas para vagar sem as costumeiras responsabilidades. O próprio Noé, está na Bíblia, tomou um porre de vinho, embriagado, desnudou-se; recoberto com um lençol, alegou que estava fora de si. Porém, não havia trânsito nem bafômetro…  Baco (Dionísio), “deus do vinho” e filho de Júpiter, conquistou a Índia acompanhado de homens e mulheres, tendo como armas de guerra apenas alguns tambores, promovendo festas com ninfas, sátiros, pastores, pastoras, sem contar, claro, com as Bacantes – suas sacerdotisas. Daí o termo “bacanais”, para festas orgíacas. É dito que Baco ou Dionísio com sua flauta “fundou a primeira escola de música”, também chamado de Liber (Livre), porque o vinho das suas orgias liberava os instintos dos freios e tabus… Do seu nome “Livre” surgem as “festas liberais” como o Carnaval. Em algum lugar, alguém ainda poderá dizer: “Vou beijar-te agora \ Não me leve a mal \ Hoje é carnaval !…”

Os tamborins estão esquentando, as mulatas descendo o morro, lindas, torneadas, corpos reluzentes à luz do sol ou à luz da lua, despertando visão até nos míopes; enveredarão pela “avenida” acompanhadas do samba-enredo,  atraindo a multidão, contorcionando-se nos mistérios dos sons e dos seus músculos, como sacerdotisas de um culto sagrado, sensual e misterioso, revelando o segredo de um misticismo rítmico. Contudo, o grande e o autêntico carnaval é o seu, espontâneo, sem ensaio e formalidades. Estágio que se faz necessário às fantasias da existência.

Depois, em algum bloco ou salão, algum Pierrô ainda poderá estar andando e chorando pelo amor de alguma Colombina, pausa necessária para as máscaras, os eflúvios, as lágrimas, os sorrisos, as mentiras e as juras de amor. Enfim, virão a quarta-feira de cinzas, o silêncio das ruas, as olheiras, o cansado despertar para o trabalho. Algumas deslembranças, muitas saudades, talvez alguns arrependimentos. Mas valeu a pena de haver passado o ano inteiro vigiando esperanças, aparando amarguras, contornando desencantos e sabendo-se que a vida nem começará nem acabará com o Carnaval, mesmo se ele foi de prazerosas circunstâncias em que – quem sabe? – nasceu ou renasceu uma linda história de amor.

Damião Ramos Cavalcanti

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