Romero Cardoso e seu livro “Notas para a História do Nordeste”

15 maio 2018

Um excelente livro com notas sobre a história do Nordeste está disponível aos leitores. A obra é “Notas para a História do Nordeste”, de autoria do professor Romero Cardoso. Publicada pela Editora Ideia a obra contém 119 páginas e é tem rico conteúdo. Veja o que diz Clemildo Brunet sobre o professor Romero Cardoso:

ROMERO CARDOSO: uma inteligência rara!

Clemildo Brunet

Bom seria que nós, seres humanos, estivéssemos sempre prontos a falar coisas boas de nossos semelhantes e assim estaríamos cumprindo a recomendação do apóstolo Tiago quando diz: “Irmãos, não faleis mal uns dos outros. Aquele que fala mal do irmão ou julga a seu irmão fala mal da lei e julga a lei; ora, se julgas a lei, não és observador da
lei, mas juiz”(Tiago, 4:11). Apesar de haver nascido em Pombal, a minha aproximação com o dileto amigo Romero Cardoso, dista de uns dez anos aproximadamente. Foi através de entrevistas concedidas por ele em nossas emissoras de rádio, que conseguimos firmar nossa amizade. É que a comunicação entre as pessoas tem esta magia.

Conversa vai, conversa vem, vamos através do diálogo, estabelecendo um elo de conhecimento. Romero Cardoso nasceu em 28 de setembro de 1969, na cidade Pombal Estado da Paraíba, filho de Maria de Lourdes Araújo Cardoso e Severino Cruz Cardoso. Menino de origem humilde, segundo ouvi falar, muito travesso, comum à idade semelhante aos demais de seu tempo. Por intermédio do esforço de suas tias ou primas, começou a frequentar o banco escolar numa preparação para a
vida.

Graduou-se em licenciatura em geografia pelo Departamento de Geociências do Centro de Ciências Exatas e da natureza da Universidade Federal da Paraíba, campus I, João Pessoa PB. Cursou Especializações em Geografia e Gestão Territorial e em organização de arquivos. Submeteu-se no ano de 1998 a concurso público para docente do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, Campus Central, Mossoró RN, obtendo o primeiro lugar.

É professor Assistente-IV. Concluiu, em julho de 2002, mestrado em
desenvolvimento e meio ambiente-PRODEMA-UERN, com dissertação versando sobre a importância da caprinovinocultura em assentamentos rurais de Mossoró-RN.

Romero Cardoso é assessor da Fundação Vingt-un Rosado “Coleção Mossorense”, onde fez o lançamento dos seguintes livros: Nas Veredas da Terra do Sol (1996), Terra Verde, Chapéu de Couros, e outros ensaios (1996), Aos Pés de São Sebastião – Novela Sertaneja (1998), Fragmentos de Reflexões-Ensaios.

Selecionados (1999), A descendência de Jerônimo Ribeiro Rosado e Francisca Freire de Andrade – A família de Menandro José da Cruz (2001). Essa inteligência rara, Romero Cardoso, é autor de inúmeras plaquetas, a exemplo de Mossoró e a Resistência a Lampião (2002) e de Maria do Ingá a Maringá (2003). É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, membro do Conselho Consultivo da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço e Sócio da Associação Paraibana de Imprensa, além de sócio fundador do Grupo Benigno Ignácio Cardoso D’Arão. Estudioso do semi-árido nordestino e dos movimentos sociais desta região, sempre na defesa, em busca de tecnologias que permitam melhor convivência do homem com os problemas regionais. Podemos dizer, com certeza, que Romero Cardoso é justamente aquele pensamento do apóstolo Paulo, quando afirma: “Quando era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino: quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino”(I Coríntios, 13:11).

José Romero Araújo Cardoso em atividades docentes na sala de reuniões do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, Campus Central, Mossoró – RN. Na última entrevista que me deu em 2004, no meu Programa: “Saudade Não Tem Idade” na Rádio Opção 104 FM de Pombal, pude observar bem, nos gestos e palavras de Romero Cardoso, a sua inquietação e desenvoltura própria dos homens destros, tendo na ponta da língua a resposta de todas as perguntas a ele dirigidas, aproveitando os intervalos acendia o cigarro e ia fumar lá fora.

Romero Cardoso é uma pessoa simples e muito popular, reside em Mossoró, Rio Grande do Norte, quando vem a Pombal, procura saber das coisas da terra com o maior interesse, sempre almejando o melhor para a sua urbe, principalmente no que diz respeito à preservação do patrimônio histórico de sua cidade natal e o seu desenvolvimento, para que ela venha se tornar cada vez mais, uma cidade próspera no setor comercial e Industrial, além do seu significado em termos de cultura.

Foi de Romero que ouvi pela primeira vez, que eu, era descendente direto do grande naturalista francês Louis Jacques Brunet, cientista renomado que foi o responsável pela descoberta e fomento na condução da carreira do maior artista plástico paraibano, o areiense Pedro Américo. Romero Cardoso, esta homenagem que lhe presto, não é simplesmente por ser seu amigo, poderia haver até razão de ser. Mas
não é por esse lado. A verdade é que desde o dia em que travamos o nosso primeiro diálogo, descobri a suficiência de sua capacidade e a maneira simples como você a expressa: Sem vaidade e sem orgulho. Daí a razão do título deste artigo. Romero Cardoso: Uma Inteligência Rara!

Leia este excelente texto de Romero Cardoso, no início do livro:

A CIVILIZAÇÃO DO COURO

A civilização do couro, conforme definição do historiador Capistrano de Abreu, objetivava abastecer com os produtos da pecuária o mercado interno, pois as áreas valorizadas pelo capital mercantil não tiveram condições concretas de cumprir qualquer ênfase à própria sobrevivência, seja de oprimidos ou de opressores.

As classes abastadas que povoaram os sertões nordestinos tinham na quantidade de gado bovino sinônimo de status socioeconômico, enquanto aos menos privilegiados restou o consolo de criar pequenos animais domesticados, como cabras e bodes, motivo pelo qual se formaram as denominadas raças nativas, como Moxotó, Morada Nova e Canindé, resistentes às secas e adaptadas extraordinariamente ao meio ambiente inóspito, cujo suporte forrageiro, em geral, encontra-se nas plantas das caatingas.

No sertão nordestino, o couro passou a fazer parte do dia-a-dia, pois quase tudo era feito dessa matéria-prima de origem animal. As cadeiras, os alforjes, as mesas, os gibões, os chapéus, enfim, a cultura sertaneja passou a utilizar o couro em quase tudo que era confeccionado, usado cotidianamente pelos sertanejos em afazeres, alimentação, conforto
etc.

Quando das grandes secas era comum usar o couro como recurso alimentício a fim de tentar sobreviver aos rigores das intempéries. A estiagem histórica de 1877-1879 marcou significativamente o uso do couro para a alimentação do sertanejo, o qual antes era utilizado para deitar-se, sentar-se ou enfrentar os espinhos da vegetação caatingueira.
O manuseio com o gado, do qual o couro é retirado, fez surgir verdadeiros artesãos nas quebradas dos sertões distantes. Artistas populares anônimos proliferaram, assim como as feiras de gado, executando trabalhos hábeis que ainda hoje marcam de forma
extraordinária a cultura sertaneja.

Mãos calejadas passaram a fabricar selas, chapéus, relhos, sandálias etc., os quais se tornaram indispensáveis para enfrentar a vida dura no sertão, simbolizando em muitos casos a própria tradição da região. Vaqueiros e cangaceiros adotaram indumentária própria,
confeccionada com o couro. Incontestáveis obras de arte foram feitas a partir do tecido animal, exemplificado através dos chapéus-de-couro dos mais proeminentes chefes de cangaço que palmilharam o sertão nordestino. O campeador de gado do sertão nordestino, por sua vez, difere de seus congêneres espalhados pelo país, pois a roupa com a
qual enfrenta as dificuldades da labuta diária, condicionada pelos desafios impostos pela vegetação extremamente agressiva, dotada de espinhos afiados e cortantes, exige dureza e rusticidades, as quais são conseguidas comas vantagens que o couro oferece.

Diferenciada das demais formas civilizatórias que fomentaram a ocupação do território nacional, a formada no sertão nordestino assumiu compleição própria em função das condições adversas de clima e vegetação que propiciada pela razão econômica da expansão em direção aos sertões distantes, repletos de perigos e incertezas, moldou o caráter do homem sertanejo ao longo dos séculos que embasaram a formação da civilização do couro.

FONTE: http://www.escritoresparaibanos.com.br/romero-cardoso-lanca-notas-para-a-historia-do-nordeste/

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