Saudade

18 jun 2013

Saudade
Onaldo Queiroga*

O vento do passado esclarece que a palavra saudade emergiu na época dos denominados descobrimentos portugueses, mas precisamente no Brasil Colônia. Diz a lenda que o vocábulo saudade veio como forma de se definir a solidão que arrebatava os portugueses, que distantes da terra natal mergulhavam em profunda melancolia decorrente das impiedosas lembranças dos entes queridos e da própria pátria, Portugal.A saudade é filha da solidão, advém do latim “solitáte”, encontra-se umbilicalmente também atrelada à tradição marítima lusitana, pois quem partia para os mares nunca bravios e de águas desconhecidas, terminava por nutrir intensa nostalgia, ante a incerteza de seu retorno à solo português, e, de outro lado, quem ficava à espera do retorno de quem partiu, então, se enchia de solidão, saudade. Assim surgiu essa fêmea devoradora dos nossos sonhos, dos instantes e instantes de vida. A saudade passou a ser uma parceira constante da poesia, dos versos que cultivam o amor, haja vista que acima de tudo quando se fala de saudade, logo percorremos os caminhos dos sentimentos ligados ao amor, à perda, a ausência de um ser querido, à distância que nos separa de outra pessoa ou de um determinado lugar tão presente em nosso pensamento.

A saudade é um dos alimentos prediletos dos poetas. Ela nunca será sinônima de algo devastador ou mesmo triste. Ter saudade é recordar de coisas que nos fizeram felizes e alegres, daí porque recordar algo que nos deixa cabisbaixo, na verdade é falar de pesadelo, jamais saudade. Para Bob Marley a “saudade é um sentimento que quando não cabe no coração, escorre pelos olhos”. Realmente, em alguns momentos esse sentimento é tão grande que muitas vezes o coração para não explodir materializa a saudade por meio das lágrimas, choramos assim, por rememorarmos lembranças de um tempo inesquecivelmente positivo em nossa caminhada de vida.

A saudade está sempre presente em nossas vidas. Quem não já sentiu saudade ao olhar um retrato? Ora, sentimos saudade até mesmo pelo cheiro que pelo nariz adentra e toma conta de nossa alma, seja de um perfume, do mato molhado lembrando chuva, quanto mais ao olharmos uma fotografia. Sentimos saudade de amigos, da infância, dos tempos de colégio, da faculdade, da liberdade e irreverência dos ventos juvenis. Não é a toa que Clarice Lispector ensina que; “Ela é a prova inequívoca de que somos sensíveis! De que amamos muito que tivemos e lamentamos as coisas boas que perdemos ao longo da nossa existência”.

Segundo Mario Quintana: “Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo…”. Pura verdade, por isso, a quero sempre como companheira, pois é com ela que alimento meus sonhos.

*Escritor pombalense autor de várias obras e Juiz de Direito da 5° Vara Cível de João Pessoa.

onaldoqueiroga@oi.com.br

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