Seculorum Gonzagão

5 abr 2013

A contemporaneidade que tive com Luiz Gonzaga não se faz lembrada visto minha parca idade quando o homem se despedia dos palcos da vida. Fosse o ápice de sua carreira nos dias de hoje, provavelmente continuaria lá não muito fã de suas convicções políticas. Foi um homem rodado que, assim como uma infinidade de nordestinos e nordestinas, teve que buscar possibilidades de reproduzir sua vida noutros lugares deste Brasil, infelizmente, tão desigual.

Seu legado, porém, pouco ou quase nada tem a ver com a política da superestrutura. A grande mensagem que o velho Lua nos deixa é poetizar nossa região, socializá-la com lugares e pessoas que, nos dias de hoje, são tão viciadas pelo espelho televisor da grande mídia. Dramatizou, sublimemente, agruras vividas e sofridas pelo povo nordestino, sobretudo os da região semiárida, tão massacrada, não pela seca, mas, nas palavras do Gilberto Álvares, “pelo domínio espúrio de párias”. Pode-se dizer que o nosso mito popular tenha ido na onda do discurso por fora penoso, por dentro bandido, dos donos do poder dos sertões, e achar que o Nordeste é “lascado” pela seca. Seria normal, infelizmente. Até compreendo sua situação. Não diferencia dos 95% da população tupiniquim e quase que a totalidade dos que pelos tabuleiros interioranos vivem. Talvez representar um mito faz o sujeito transparecer aquilo que, em essência, não seja. Ainda mais quando o tradicional conflito de gerações em seio familiar estabelece um revolucionário Gonzaguinha do lado oposto.

Mas ainda não é daí que enfoco a figura de Luiz Gonzaga. Pelo contrário, é pela maneira poética, artística, simples, honesta, NORDESTINA, que o poeta declamou nossa cultura, nossas tradições, lendas, mitos, “causos”. Impossível não se emocionar (ainda mais nesses tempos de pouca chuva) com “já faz três noites que pro norte relampeia”… Ou, ainda, “tudo em volta é só beleza, sol de abril e a mata em flor”… O que falar, então, de “Asa Branca” ou a beleza do “Luar do Sertão”??? Como nem tudo são “frô”, Gonzagão cantou o martírio de um povo sofrido, que partiu para o sul em busca de sua existência. Cantou para os quatro cantos do país a via crucis de grande parcela de nossa população. Cantou as maravilhas e o oposto que a vida no sul violentamente pode apresentar.

Além disso, apresentou-nos formatos musicais que nossa rica cultura fornece. Coisa linda de ouvir suas toadas armoriais. Perspicaz ao cotidiano como era, percebeu o florescimento de uma cultura emergente das contradições e distorções sociais do povo do mundo. Era outra parcela popular que se fazia cada vez mais presente, no Nordeste inclusive. “Cabra do cabelo grande / cinturinha de pilão / (…) cabeludo tem vez não”. Era a transformação da juventude, contestadora por excelência, embalada pelas diversas nuances da contracultura, mandando tudo às favas no Rock’n’Roll.

É por essas e outras que o velho Lua é, sem dúvida, uns dos grandes poetas de nosso povo. Daqueles pouquíssimos artistas que podemos tratar como unanimidade. Mais que isso, uma majestade, o REI DO BAIÃO. Representante indelével da verdadeira música POPULAR brasileira.

Diego Nogueira

diego_nod@yahoo.com.br

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