Sobre revoluções, vinte centavos e estádios

20 jun 2013

Não se sabe ao certo até que ponto as manifestações à nível nacional que configuram o atual cenário do país neste ano de 2013 chegarão, se atingirão seus objetivos ou se perderão na imensidão do esquecimento. O que se tem conhecimento é que várias e várias outras cidades brasileiras estão aderindo cada vez mais ao movimento, muitos acreditando que a hora de reagir contra a corrupção governamental e a má administração do dinheiro público é essa, e que setores como Saúde, Educação e Segurança Pública tenham melhores investimentos o mais rápido possível.

A onda de protestos abre várias interpretações e posicionamentos dos diversos segmentos políticos, sociais, culturais, econômicos e da imprensa. Cada vertente tenta ou tentará puxar a pauta para si, buscando brechas ou fragilidades que possam justificar e legitimar suas participações, mais uma vez, como salvadoras da pátria, ou como vítimas do sistema.

Revoluções

A história, em seu rico acervo mundial e nacional, nos mostra as diretrizes, contradições e desfechos político-sociais de grandes manifestos populares. A exemplo posso citar a Revolução Francesa de 1789, os protestos contra o Golpe Militar de 1964, os comícios das Diretas Já!, na década de 1980 e os Caras Pintadas no Impeachment do presidente Collor, em 1992. Todas essas revoluções tiveram como ponto de partida a insatisfação popular quanto ao sistema e a classe político-econômica dominadora de cada época.

R$ 0,20

Eis que agora, na segunda década do século XXI, o estopim dos atuais protestos foi o reajuste na passagem de ônibus urbanos em algumas das principais capitais do Brasil, que teve um aumento de R$ 0,20 (vinte centavos). Esse fato foi colocado pela grande maioria da imprensa e membros ligados ao governo como um fator barato que não justificaria toda essa mobilização popular. Bem, isso é o que ele dizem. Já os manifestantes colocam que, não é apenas pelos vinte centavos o motivo da revolta. Que tenha sido este reajuste o responsável pelo início dos protestos, isso não irá revogar nem mudar a empreitada nacionalista que busca agora, dentro desse detalhe, uma melhoria maciça e verdadeira para toda a nação, e que o Estado promova realmente todas aquelas promessas de que dias melhores virão que só servem na época de eleições, tornando-se vazias e esquecidas quando estão a graçar na cadeira do poder. Equivoca-se quem acha que vinte centavos não faz toda uma diferença. O valor isolado por si só pode representar uma unidade pequena, mas a obra completa, a soma de um todo faz com que esse valor se torne algo passivo a valer qualquer atributo de luta popular.

Estádios

O Brasil atualmente sedia a Copa das Confederações, uma espécie de preview que serve como carro chefe para promover e testar os locais que sediarão algo ainda maior e mais caro: uma Copa do Mundo. O fato do Brasil ser reconhecido lá fora, em sua esmagadora maioria, como o país do futebol e do carnaval, não o torna apto a sediar tal evento para gringo e os mais ricos verem, enquanto estamos atrasados em relação a outros tantos países em setores prioritários, principalmente porque faltam hospitais de qualidade e em número suficientes para atender toda a população pobre, o ensino básico público é um dos piores no ranking mundial e a falta de segurança pública e o sentimento de impunidade imperam cada vez mais neste solo. Não vou nem mencionar o fenômeno natural da estiagem à fundo, para não me alongar muito, pois todos já conhecem essa triste história em todos os aspectos. O motivo principal de indignação dos manifestantes quanto o quesito Copa é a respeito da exigência de um órgão internacional, no caso, a Federação Internacional de Futebol (FIFA), que impõe o seu padrão ao país sede do momento e o governo prontamente atende ao pedido da entidade. Ora, meus amigos, essa mesma pressa não é vista quanto ao término e conclusão da transposição das águas do Rio São Francisco, nem tampouco na construção de novos e modernos hospitais para a população carente, na construção de novas escolas públicas e na contratação de professores.

Ainda é cedo para se ter um parecer e se apropriar da legitimidade dos protestos, num todo e/ou parcialmente. Cabe a própria historiografia conceber os resultados depois que as coisas se colocarem novamente no lugar, abordando o assunto sempre com uma análise problematizante dos fatos e acontecimentos.

 

Alisson Oliveira

ahalisson@gmail.com

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