Um Gigante Contra Outro

27 jun 2013

Pergunto se em alguma etapa de nossa existência pós 1500, mesmo pós-colonial, ou neocolonial, tivemos ou temos algo semelhante ao conceito clássico de cidadania. Ter direitos e deveres a cumprir em favor da comunidade e do conjunto delas é muito mais do que acessar grana suficiente para comprar um telefone celular de sete chips em doze vezes no cartão.

Na sociedade do capital, a vala-comum é comemorar a ascensão de milhões à condição de potenciais consumidores. Nada contra. Quem não quer antenar-se com as evoluções tecnológicas visando um bem-estar material?! Ouço e vejo muita gente hipócrita que critica o desejo das pessoas em acessar bugigangas, mas não abrem mão dos seus ipods, ipads, GPS, etc, etc, etc. O cinismo é ainda maior com o pessoal do campo: quando o camarada troca o jumento pela moto logo aparecem aqueles que exalam por seus poros velhos preconceitos sociais.

Devemos considerar, no entanto, que cidadania vai além do poder de compra. Na sociedade atual, tudo se reduz a capacidade de comprar bens e serviços, o que nos remete ao entendimento de que aqui não existe cidadania plena, longe disso. Que, ao contrário da propaganda oficial, não somos um país de todos, mas daqueles com condições monetárias de comprar bens e serviços. Não são cidadãos, são CLIENTES. Não somos um país-nação, mas uma COMPANHIA. Quer-se saúde, que a compre na esquina ou pague caro por um hospital particular. Quer seu filho se dando bem na vida, pague! Matricule-o no Colégio “fulano de tal”, particular. A noção de educação, mesmo a pública, sucateada, é bancária, que visa resultados, como se estivéssemos calculando quantos robôs acríticos se produz numa determinada escala de produção. Quer-se uma praça tranquila para passear, caminhar, que vá morar num condomínio privado, com você pagando por tudo onde pisa. Não preciso falar de nossos patrimônios sendo paulatinamente privatizados e entregues a iniciativa privada (rios e suas hidrelétricas, estradas, exploração do petróleo, minérios, etc.). Nossos impostos (dos maiores deste planeta) cada vez mais servem para manter o superávit primário e financiamentos escuros para empresas lucrarem com serviços vendidos à população.

Governantes de todas as esferas são fantoches nesse processo. A estrutura política nacional favorece isso. Ou alguém em sã consciência acharia que um oligopólio de empresas de ônibus interurbanos, que com milhões apoiam candidaturas Brasil adentro, irá compactuar com Passe-Livre sem que o Estado banque tudo o que for necessário ao mantimento de sua margem de lucro? Qual estabelecimento irá querer um trabalhador consciente que é explorado? Que carteira assinada, férias e décimo terceiro são obrigações da empresa e não favor ou camaradagem? Qual emissora de TV ou rádio de grande porte irá contrariar essas empresas, que são seus principais patrocinadores?

Isso tem nome: Neoliberalismo. Grande parte da galera insatisfeita com esse estado de coisas, que agora está na rua, viu isso na escola, nos livros de História e Geografia. Não é nenhuma novidade. De um lado, é preciso perceber que de uns anos pra cá, por ação governamental, seus efeitos catastróficos foram diminuídos para a população mais carente. Não nego isso. Temos avanços, ou melhor, temos maior contenção das desigualdades provenientes do Neoliberalismo através de uma rede de políticas sociais. Um pequeno avanço se percebe em saúde, sobretudo nos atendimentos de urgência. Na educação, focando na Educação Profissional e no Ensino Superior, aumentou-se a oferta, interiorizou-se, ajudando pequenas e médias cidades do interior a seguir sua vida. Porém todo esse processo é bastante contraditório. E a educação da criançada continua de mal a pior, apesar da luta dos heróis e das heroínas que no dia a dia estão lutando contra um sistema concebido para não dar certo. Nada melhor que ser um professor e ouvir colegas para confrontar com aquela propaganda da “escadinha do IDEB (índice de Desenvolvimento da Educação Básica)”.

Em suma, temos motivos de sobra para estar nas ruas. Porém, é preciso entender a lógica disso tudo e as forças que estão por trás de nossas mazelas. Isso não surgiu agora, não é culpa exclusiva desse ou de qualquer outro governo isoladamente, e não será depondo presidente, governador ou algum deputado fundamentalista que isso mudará a ponto de nos trazer resultados concretos. É preciso interferir diretamente naquele quadro acima. Aí poderemos falar em cidadania. O gigante que acordou deve confrontar o outro gigante. Aquele que acena com suas mãos invisíveis sobre todos nós e que a única coisa que não faz é dormir.
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Diego Nogueira
diego_nod@yahoo.com.br
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