UM OLHAR SOBRE A OBRA “TUDO COMEÇOU EM SOLÂNEA…”

29 jul 2015

Marinalva Freire da Silva
ALA NE-PB/UBE-PB/ AFLAP/ALAP-RJ

“Tudo começou em Solânea” é a produção mais recente da escritora e poetisa Maria dos Anjos de Oliveira. Trata-se de uma obra de cunho memorialístico, no estilo de autorretrato.

Sabe-se que “recordar é viver”, adágio antigo. Eu sempre repito que recordar significa sofrer duas vezes porque, quando boas as recordações, sofremos pela certeza de não podermos voltar na linha do tempo para reviver os bons momentos que a vida nos proporciona; se más as recordações, sofremos quando nos vêm à memória tais dissabores. Mas Maria dos Anjos revive o passado que, para ela, não deveria ter passado, ou melhor, que deveria ter sido mais duradouro. Esta escritora é uma amante da vida, das pessoas, do seu inesquecível Luiz Alves, como ela se refere. Luiz foi arrebatado desta vida de maneira cruel pela violência, que atualmente domina nosso país; ele descansa na eternidade, aguardando sua viagem para o reencontro feliz e “eterno”. Não deixa de ser um privilégio dos deuses.

“Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, como bem diz Fernando Pessoa. Maria dos Anjos alimenta sua alma. Sua solidão dos momentos felizes e irrepetíveis que teve ao lado de seu amado, primeiro e único amor de sua vida. Ela revive sem sair da realidade, sonha acordada, pois “ sonhar é preciso. Navegar, também.”

Tudo começou em Solânea, ainda em tenra idade, pois era enamorada por Luiz ainda criança; militar da Marinha, este desfilava enfrente a sua casa, garbosamente fardado, para vê-la sem que ela soubesse de intenções, pois era ainda um adolescente. Depois, o fato foi revelado por ele.

Sua trajetória ultrapassa as fronteiras do Estado, da região Nordeste, do Brasil. Ambos, muito católicos, desenvolviam missões religiosas, filantrópicas, ao lado das obrigações necessárias à sobrevivência.

Luiz Alves, um Marinheiro; Maria dos Anjos, uma Professora. A travessia além fronteiras tanto era real como virtual. A imaginação fértil da autora levou-a a erigir um memorial permeado do mágico e do maravilhoso. Maravilhoso porque ela relembra as histórias infantis que lhe contavam suas avós, histórias mescladas com o mágico, porque o tema era papafigo, alma, assombrações, estórias de trancoso etc. Quem de nós não se recorda das histórias que ouviu na infância, contadas pelas pessoas não velhas, mas experientes.

A obra está ilustrada com fotos da família em três ou quatro gerações: Maria dos Anjos com seus pais e irmãos; Maria dos Anjos com Luiz Alves de Oliveira na construção de uma família; os filhos, os netos, os bisnetos. Que maravilha! É uma obra que a autora pode lançar mão para organizar sua árvore genealógica, ou seja, organizar a genealogia da família ALVES DE OLIVEIRA.

A obra em análise está composta por vários capítulos, não se consegue lê-la em uma só assentada. Tem 400 páginas, com 483 capítulos cursos e ilustrados. Preferi não comentá-los para que o leitor tenha interesse em adquiri-la e desfrutar deste autorretrato de Maria dos Anjos.

Amante que sou da morte como o sou da vida, li atentamente A MORTE (p. 342), oportunidade em que a autora tece comentários pela partida do amado, sem volta.

Na página 13, Maria dois Anjos direciona o princípio com Retalhos da vida de Luiz Alves de Oliveira, capítulo escrito por ele mesmo, oportunidade em que ele aborda: Observações de uma criança, Família Materna, Segundo Decênio, Viagem à Holanda e sua vida Religiosa. Na página 15, deparei-me com Frei Damião. Lembro-me um momento que estive com ele na casa de uma família quando ministrava aulas particulares, assisti a uma missa que ele celebrou, depois tiramos uma foto- minha aluna, ele e eu. Que lembrança agradável, pois em adolescente, acompanhei-o com minha avó materna em algumas peregrinações matutinas que fez pelo bairro da torre nos anos 70.

A partir daí, Maria dos Anjos assume o comando da escrita para traçar sua trajetória na página 45, ela diz Quando as Memórias têm mais um Olhar , e na página 47, Por que contar nossa História.

A partir da página 105, o artigo “NOSSO NAMORO: Luiz e Maria”, que belo exemplo de verdadeiro e puro amor a autora nos transmite. Na página 114, encontra-se uma bela descrição:

Nosso encontro, cada vez, era algo que nos revigorava! Nós nos amávamos muito. Cada um, a seu jeito, se enfeitava para estar com o outro!
O amor verdadeiro, é uma energia vital que nos revigora e nos faz crescer. Nossos encontros eram salutares.

Que expressão sinestésica!

Na página 123, em VIDA A DOIS, encontramos que “Viver a dois é um exercício diário. Amar o outro é um gesto consciente de entrega e doação permanentes”.

É bela a descrição em NOSSA LUA DE MEL (p.121-122).

Sobre a sexualidade (p.127), Maria dos Anjos assim se expressa: “O

companheirismo, a amizade, e o afeto foram bem cultivados até o fim. A sexualidade foi cuidada, vigiada, compreendida e assumida pelos dois como o mel que adoça a vida e o óleo que lubrifica os momentos de cansaço”.

As lições de vida que a obra nos oferece, vale a pena ser lida e, se possível seguida, embora nem tudo seja possível. Mas, termino minha singelo comentário, pedindo licença a autora para dizer-lhe que muitas mulheres gostariam de haver encontrado um Luiz em suas vidas ( e eu sou uma delas), assim como alguns homens anseiam por conhecer uma mulher do estilo Maria dos Anjos de Oliveira.

Aconselho, portanto, a leitura.

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