Umbuzeiro da Saudade

19 mar 2013

*Onaldo Queiroga

Quando ouço uma música, sempre emerge a curiosidade de saber em que o compositor se inspirou para lapidar a letra da canção. Foi diante desse contexto que, um dia ao, ouvir a música “Umbuzeiro da Saudade”, fui levado mais uma fez ao mundo imaginário de Luiz Gonzaga.

Nas minhas andanças pelas terras gonzaguianas, procurei saber a origem da inspiração. Demorou, mas, até que enfim, consegui descobrir. Ano passado, numa palestra proferida em conjunto com a professora cearense Elba Braga Ramalho e o amigo Waldones, este, de sanfona no peito, falando sobre a citada canção, disse:

“- Gonzaga foi um dia contratado para fazer um show lá pras bandas do sertão pernambucano. Na hora marcada, o sanfoneiro subiu no palco e deu início ao seu canto. Olhando para a multidão, observou a presença de uma cabocla formosa que não lhe tirava o olhar, e assim foi durante toda apresentação. Ele tocou por mais de hora. Já era madrugada quando o Lua encerrou o show. Ao descer do palco, para sua surpresa, lá estava a cabocla, que logo se aproximou pedindo-lhe um autografo.”

Foi nesse momento, segundo Waldones, que Gonzaga sentiu que havia algo além do autografo. Então, conversa vai, conversa vem, Gonzaga conseguiu levar a moça para o seu carro, uma Rural. Ali chegando, dispensou seu motorista e saiu com a cabocla por uma estrada vicinal. Adiante, o Lua avistou um frondoso Umbuzeiro. Estacionou o automóvel, sob um céu estrelado e uma Lua exuberante. Os carinhos e afagos começaram, até que, como diz a música “Karolina com K”, “o sanfoneiro lavou a égua”. Foi tão bom, que os dois adormeceram ali, debaixo do umbuzeiro. O dia já amanhecia, e o sol, com sua luz e calor forte, acordou o “Lua”. Ao abrir os olhos, viu que ainda estava sob a sombra do umbuzeiro, com o carro e o chão cobertos da folhagem daquela encantadora árvore. Levantou o olhar e, do cenário, vislumbrou ainda o voo dos pássaros, que emitiam, na revoada, cantos que mais pareciam uma sinfonia divina.

Diante desse contexto, Gonzaga, com uma inspiração singular, construiu a canção “Umbuzeiro da Saudade”, que diz: “Umbuzeiro velho / Velho amigo quem diria / Que tuas folhas caídas / Tuas galhas ressequidas / Iam me servir um dia / Foi naquela manhãzinha / Quando o sol nós acordou / Que a nossa felicidade / Machucou tanta saudade / Que me endoideceu de amor / Indiscreto passarinho / Solitário cantador / Descobriu nosso segredo / Acabou com nosso enredo / Bateu asas e voou / E hoje vivo pelo mundo / Tal qual um vem vem / Assobiando o dia inteiro / Quando vejo um umbuzeiro / Me lembro de ti meu bem”.

E assim surgiu a canção!

*Escritor pombalense e  Juiz de Direito da 5° Vara Cível de João Pessoa PB.
onaldoqueiroga@oi.com.br

Comentários