Você tem fome de que?

23 mar 2013

VOCÊ TEM FOME DE QUE?

Uma madrugada dessas, tava de pijama deitado no meu quarto “Dentro da Noite Veloz” lendo Ferreira Gullar, vendo minha televisão (consigo fazer as duas atividades perfeitamente ao mesmo tempo) e de repente ela chegou, não era a menina veneno que vinha me amar, era outra moça, era a fome.

Eu tenho fome de muitas coisas (e você tem fome de que?), mas resolvi comer miojo, o fruto mais louvado da industrialização do sabor, a jóia mais preciosa da tecnologia da gostosura., com um preparo fácil e rápido, isso faz do macarrão instantâneo o alimento mais pratico ao homem pós-moderno (sempre quis me inserir nessa categoria de homem e o jeito que consegui foi comendo miojo) quem sabe fazer miojo tem o poder de se salvar da fome a qualquer hora do dia ou da noite , tornando-se um marco na vida dos jovens, pois é assim que reza a lenda, se o cara sabe fazer miojo ele está pronto pra sair de casa e assumir sua maioridade, o miojo é a revolução…

Deixando a revolução de lado (até porque sou um revolucionário preguiçoso), era hora do trabalho, peguei o miojo pus na panela, coloquei a água para ferver,  liguei o radio que tocava uma dessas músicas bem decadentes sobre amor,  fiquei num estado de solilóquio (se você não sabe o que significa essa palavra procure no dicionário) durante os três minutos necessários para a mágica transformação do alimento,  refleti sobre tanta coisa, sobre o excesso de nostalgia que envolve o mundo contemporâneo, e me dei conta, poxa vida, tanta coisa acontecendo e eu aqui em casa fazendo miojo, naquele exato momento alguém poderia está labutando em algum laboratório a cura para AIDS, outros certamente  estariam bebendo de bem com a vida, um outro estaria planejando uma campanha para acabar com a bendita “fome” na África (acredite tem pessoas nesse mundo que se preocupam com a fome do outros), e como nem só de coisas boas vive a humanidade, gente de terno, gravata e discurso bonito também se encontrariam em edifícios  luxuosos traçando seus  planos que culminariam na fome de muitos (não vou dizer quem é esse tipo de gente), felizmente passou um paredão de som na rua com o volume nas alturas e me livrou desses pensamentos.

O tempo passou, eu nem me dei conta, para variar ainda esqueci de colocar o tempero, acho que ando comendo tanto miojo que talvez venha a ter uma anemia por falta de substancias e vitaminas que não estejam presentes no macarrão instantâneo, fiquei procurando o tempero, bom finalmente acabaram os três minutos, achei o tempero e comi, não matei a fome, contudo aprendi uma lição, nem só de miojo viverá o homem.

O Sertão em Prosa

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