A EVOLUÇÃO DA DANÇA DE RUA NO BRASIL (Revendo conceitos)

5 fev 2015

danca

Sob um olhar periférico aos primórdios de uma metodologia mais subalterna do que criativa, estamos vivenciando um novo momento no ensino-aprendizagem e na produção da dança de rua no Brasil. Mas a grande maioria ainda não teve a percepção de agir ou de pensar como um pivô nas produções de novas concepções. No entanto, ainda importamos mais matéria humana do que exportamos.

O ano é 2013. Muitas coisas aconteceram no universo da Dança de Rua no Brasil desde criação do primeiro curso profissional do gênero na cidade de Santos-SP, em 1991. Muitos grupos novos surgindo na dança de rua como também diversos profissionais na área. Em outrora não se via tantos assim. A quem diga que a arte da dança é um ato sublime que não se pode julga não se pode dar nota, outros falam que não deveriam existir festivais de dança competitivos e sim, festivais sem competição como uma forma de celebração entre todos os artistas.

O fato é, que se não houvesse competição muitos ficariam no anonimato. Em virtude da competição muitos grupos são o que são hoje. Por isso é compreensível a competição. Vai quem quer, se inscreve quem quer, e no final tudo pode acontecer inclusive nada.

O trânsito livre entre linguagens e idéias relacionadas aos estilos de dança não é mais novidade. E mais do que provocar uma crise de identidade, e muitos por vez, vem promovendo novos arranjos, experimentações, combinações e, consequentemente, novas formas de ação, informação e de afirmação da dança de rua brasileira num todo a procura de um diferencial, os passos se reinventam e a dança de rua ganha status contemporâneos e novas leituras. Nunca a dança absorveu tanto a estética urbana quanto nos dias de hoje.

Hoje em dia é muito comum se falar em evolução na dança de Rua no Brasil. Aí me vem à pergunta: onde está essa evolução? Será que essa suposta evolução está no You tube?

Chega a causar espanto quando vejo os principais nomes da dança de rua brasileira afirmando categoricamente que a cada ano que passa a maioria dos grupos estão perdendo sua identidade.

Durante um contato que mantivemos com o profissional Ricardo Andrade diretor e coreógrafo da Cia. Adrenalina de Dança da cidade de Santos-SP, onde o mesmo fez um comentário muito importante a cerca do fato:

“Até hoje, não vi nenhum coreógrafo montar uma obra próxima á MIB – Homens de Preto, coreografada por Marcelo Cirino em 1998. Olha que já se tem 15 anos! E até hoje, causa impacto. Sem comentários o Grupo Dança de Rua do Brasil sempre original desde 1991, até os dias de hoje” – Pontuou o coreógrafo.

Pois o fato é que a cada ano que passa a gana de agradar os jurados para conquistar o tão ambicionado primeiro lugar vem fazendo com que os grupos e coreógrafos, e, sobretudo a modalidade, perca sua identidade. A criatividade que em outros momentos era o divisor de águas nos festivais de dança deu lugar a movimentos inócuos, repetidos e sem graça, que a maioria dos grupos, com raras exceções, utilizam em suas coreografias, que só não são idênticas porque os movimentos são colocados em sequências e formações diferentes, alguns blocos coreográficos chegam a ser executados em linhas diagonais, de frente e/ou de costas.

Outro fato curioso são os figurinos e as músicas praticamente idênticos em sua total maioria. A música praticamente a mesma mudando só a ordem de execução em sua colagem musical e às vezes adicionada alguns efeitos pra da à conotação de uma possível diferenciação, ou em casos utilizam a mesma trilha só, que na versão instrumental. Presumo que algum jurado, fã assumido de Hip Hop resolveu ensinar a receita do bolo, e os grupos em sua grande totalidade estão seguindo a risca tão bem, que nem se nota a diferença entre um do outro em determinados festivais. Acredito ser um trabalho árduo, difícil e extremamente delicado para os jurados escolher o melhor no meio de um monte de grupos iguais, que em casos só se deferência pelo nível de qualidade técnica dos dançarinos.

Será que a criatividade está pouca para determinados coreógrafos, ou todos pensaram no mesmo figurino, mesma música, mesmo movimento e a mesma composição coreográfica na mesma hora sendo em cidades e estados tão diferentes e distantes? Ou Existe uma linha tênue entre coincidência e destino?

Admiro um determinado grupo do sul do país, que por mais de uma década persiste com seu orgulho profissional e sua linha coreográfica e não dão o braço a torcer para satisfazer os caprichos de alguns jurados. E principalmente, espero que os grupos parem de se influenciar por meia dúzia de jurados que pensam que dança de rua tem que ser do jeito A, B ou C e que interferem na identidade de ótimos grupos que ficaram obcecados pelo primeiro lugar a qualquer preço, mesmo que esse preço seja deixar de ser ele mesmo.

Em suma, a dança de rua está querendo mudar, mais como mudar? Mas para onde mudar? Que rumo está procurando tomar? Onde vamos chegar? São essas as perguntas que estão impregnadas nas mentes daqueles que procuram um diferencial na dança. O que eu posso afirmar de forma clara e objetiva é que existem muitos profissionais brasileiros renomados e extremamente capacitados e munidos sobre a dança mundial aqui nosso país, principalmente no seguimento da dança de rua. Buscar informações, orientações, cursos, palestras e contatos presumo que esse seja o caminho.

Cajazeiras – PB, escrito em 12 de Julho de 2013.

Joel Santana – Diretor e Coreógrafo do Grupo Dança de Rua da Paraíba.

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