A velocidade da linguagem troglodita

16 ago 2017

rupestre

A velocidade da linguagem troglodita

Chegar a Marte, longe planeta análogo à Terra, demanda sobretudo velocidade que ora traz seus bens, ora, seus males. Prefiro o movimento, a ação, a animação, a energia, a vida à inércia, praticando uma vida ativa e dinâmica. O contrário seria a inércia, propícia à preguiça, à não ação, à paralisia, ao torpor, ao acúmulo de energia ou progressivamente ao seu fim: A morte. Contudo, é preciso escapar desse açodado frisson do “time is money“, procurando compreensão e equilíbrio ao relativismo dos contrários e sabendo na vida dosar movimentação e inércia. Trabalhar nos dá sobrevivência construtiva, mas escravizar-se sem descanso, em vez de ganharmos tempo, correremos o risco de perdê-lo para o resto da vida… Considere-se também que o bom e o mais perfeito são frutos de tudo no seu devido tempo.

Fabrica-se moto ou carro para correr além da velocidade suficiente para chegarmos aonde vamos; industrializam-se excessos que provocam desastres e mortes. Se a lei, em placas, exige que o automóvel não ultrapasse 120 km por hora, por que se venderem carros que correm acima de 240 km? Venda e compra de irracionalidades… Irracional também seria, na minha idade, enfrentar a velocidade para ir a Marte e suportar impactos, catabis e buracos espaciais; só a duração dessa viagem me amedronta. Mesmo assim , estão vendendo excursão, sem retorno, a essas distâncias…

Uma pressa coletiva ronda o mundo, para isso os humanos andam se substituindo pela máquina; substituem pés, pernas, braços, boca, estômago, virilha e até a própria cabeça para lucrar comodismo: Usufruir, ao mesmo tempo, inércia e velocidade. Também se substitui o coração: Amor, afeto, carinho, quando a amizade requer tempo e dedicação à sua linguagem. As comunicações despretensiosas, com esmeros da arte, mínguam na velocidade da internet ou na linguagem da velocidade, falada através de palavras truncadas, abreviadas ou de minúsculos desenhos chamados de “emoji”. Estamos voltando aos símbolos da escrita rupestre, aos desenhos primitivos das cavernas, à linguagem troglodita ou à morte da literatura.

Damião Ramos Cavalcanti
http://www.drc.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=6085285

Comentários