ANA MARIA

14 jan 2016

Diz o ditado popular que o tempo transforma tudo: as pessoas, os costumes, as crenças, os sentimentos, os valores e até mesmo a dor, por maior que essa nos pareça. Mas olhando o largo sorriso de Ana Maria, acredito haver exceções, haja vista que nos seus cinquenta e um anos de vida, Ana Maria ainda é uma mulher que se encanta com pequenas coisas, gestos e pessoas. É também uma sonhadora convicta. Tem sempre algum plano para o futuro, e mais, está sempre atualizada, envolvida e dominando as novas tecnologias que ampliam e facilitam a comunicação entre pessoas próximas e distantes.

Conhecendo Ana Maria na sua intimidade, por sermos amigas de longas datas, sei que ele é uma pessoa iluminada, possui uma áurea de alegria que a todos contagia. Além do mais, ela é sempre alto astral, está de bem com a vida. Sempre pronta para uma boa farra com os amigos. Gosta de juntar gente, de conversar, de rir, de partilhar. Porém nos últimos tempos percebo uma sombra em seu olhar. Um quê de dor, de tristeza no seu semblante, quando está sozinha, reservada, acreditando que ninguém a observa.

Olhando para ela nesse momento é difícil perceber que algo a machuca e entristece. Seu sorriso largo brilha como o sol de verão, porque ela sorrir também com os olhos, com a alma. Ana Maria é muito transparente, pensava eu, ao vê-la sempre falante, aberta, entre amigos queridos, mas aos poucos, fui percebendo que ela não revela nunca seus sentimentos mais profundos, suas dores. Ela mascara-os com o riso e a conversa solta. É como dizem os mais velhos: as aparências enganam, e como!

Hoje, em meio aos balões, fogueira, risos e rojões, eu pude perceber em um momento curto, no qual permaneceu sozinha ao lado da fogueira, uma lágrima furtiva escorrendo-lhe pelo rosto. Aproximei-me e imediatamente ela mudou de postura, foi logo dizendo que uma fagulha entrara no seu olho, levada pelo vento, e apontando a farta mesa de comidas típicas, arrastou-me pela mão. Tentei detê-la, dizendo:

– Ana… Ana… Espera um pouco…

– Ela me olhou com aqueles enormes olhos de criança perdida e chorou. Um choro doído, solitário.

– O que tens Ana?

– Saudades…

Fingindo não ter ouvido direito sua resposta, insisti:

– O que?

– Tenho muita… muita… Tanta saudade. Uma saudade doída… sangrenta..

E arrastou-me pelo braço, em direção à farta mesa de deliciosas iguarias juninas: canjica, pamonha, pé de moleque, bolo de milho, pipoca, mungunzá, cocadas, arroz doce, e outras mais. Ela nem parecia a mesma de alguns instantes atrás. Era agora a Ana Maria de sempre, feliz, risonha, célere.

Saímos da festa já amanhecendo o dia. Despedimo-nos com beijos e abraços. Passados três dias, ligo várias vezes para ela. O telefone só dá desligado ou fora de área. Passada uma semana sem notícia de Ana Maria, todos os amigos e parentes estão preocupados. Ela nunca ficara tanto tempo sem contato, sem notícias. Resolvo, então, ir até a sua casa. Vejo o carro na garagem. Preocupada ligo para a polícia, que ao chegar arromba a porta lateral. Entro com eles. A casa encontra-se na mais perfeita ordem e silêncio, até que ao retornarmos ao quintal, percebemos restos de parede escavada no chão e um reboco muito mal feito, recente, quase fresco ainda, na parede.

Os policiais procuram algo para derrubar o estranho reboco. Finalmente encontram um picarete. Logo que o espaço fica livre, desmaio ao ver o corpo de Ana curvado, com a cabeça inclinada entre as pernas.

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