Apresentada a Leandro Gomes de Barros pela sertaneja Rita

12 mar 2013

APRESENTADA A LEANDRO GOMES DE BARROS PELA SERTANEJA RITA

Como é prazeroso lembrar de que fui apresentada ao Rei do Cordel, Leandro Gomes de Barros, por minha sogra, dona Rita Almeida da Nóbrega, há quase trinta anos passados, uma mulher da roça, nascida e criada no sítio Jatobá dos Quaresmas, município de São Bentinho, na Paraíba, bem próximo à cidade de Pombal, lugar de origem desse poeta popular, nascido a 09 de novembro de 1865, no sítio Melancia.

Eu, muito jovem na época, namorada do seu filho Severino, nos feriados prolongados ia para o sítio. Lá, nas noites de lua e céu estrelado, era costume, na calçada da velha casa, todos se sentarem para escutar dona Rita declamar, de memória, seus cordéis preferidos, que de tão bons mesmos, prendiam a atenção de todos: A Donzela Teodora, A Filha do Pescador, A Força do Amor, Alonso e Marina, A Morte de Alonso e a Vingança de Marina e A Princesa da Pedra Fina. E foi assim que conheci esse poeta popular, por quem me apaixonei e procurei conhecer melhor.

A segunda apresentação me foi feita por ele mesmo:

Fui um menino enjeitado
Fui triste logo ao nascer
Nem uma ave noturna
Tão triste não pode ser
Eu sou igual ao deserto
Onde ninguém quer viver

Esse homem que me cria
Me maltrata em tal altura
Que nem preso no cárcere
Sofrerá tanta amargura
Não foi Deus, é impossível
Que me deu tanta amargura
[…]
(A vida de Cancão de Fogo, p. 3)

Assim, fiquei sabendo que ele era sobrinho materno do padre Vicente Xavier de Farias, que ajudou a criá-lo após a morte de seu pai, mas que por causa dos maus tratos que este lhe infligia, fugiu de casa aos 11 anos, tendo passado muitas privações. Desse modo, a mais completa e verdadeira apresentação me foi feita por Cancão de Fogo, um amarelinho da mesma estirpe de Pedro Malazartes e de João Grilo, descrito por Leandro Gomes de Barros como “O quengo mais fino dessa nossa geração” que era ele mesmo, o poeta popular, descrito em genial criação:

Leitor, se não se enfadar
Desta minha narração,
Leia a vida deste ente
E preste toda atenção,
Que foi o quengo mais fino
Dessa nossa geração.

Pois ele desde criança
Sabia a tudo iludir,
Estradeiro muito velho
Não o pode competir.
O Cancão nunca armou laço
Que alguém pudesse sair.
[…]
Canção era apelido
Que os irmãos lhe puseram
Pelas travessuras dele
Esse apelido lhe deram,
Por ele nunca querer
O que os parentes quiseram.
(A vida de Cancão de Fogo, p. 6)

O genial poeta lembra-nos assim, as peraltices de um menino “endiabrado”, sempre disposto a aprontar grandes travessuras, ainda hoje retiradas na oralidade de seus parentes. Não eram brincadeiras de mau gosto, mas atitudes que mostram toda a sua irreverência:

Por isso canção um dia
Estava numa discussão
Disse a um irmão da mãe dele:
– Homem algum tem distinção!
A vantagem do fiel
E a mesma do ladrão.
(A vida de Cancão de Fogo, p.6)

A literatura canônica ou a popular tem essa incrível magia de nos revelar verdades individuais, coletivas, sociais, políticas, históricas, culturais. Tem a magia de nos mostrar também que o poeta é um representante legal de seu povo, de sua região. Que o poeta erudito ou popular é um repórter dos acontecimentos da vida do seu povo. Dessa forma, trata-se o cordel de uma literatura viva, intimamente ligada à cosmovisão popular, do que decorre sua condição de chave para o entendimento da própria identidade nacional. É como afirmam vários estudiosos do assunto: mais do que narrar histórias, os cordelistas deixaram e deixam pistas para o mapeamento da “alma” de nosso povo. “A cultura popular é um magnífico tesouro que enobrece a alma do país, encantando e dando lenitivo aos nossos corações”, disse Rubenio Marcelo (2004).

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