ASSOMBRAÇÃO

30 jan 2017

Por Severino Coelho Viana

Recordamo-nos de um tempo que na zona rural e na cidade, também, principalmente nas residências de família grande, após o jantar, logo cedo da noite, todos se sentavam na calçada alta, em forma de meia lua, para ouvir estórias de assombração, anedotas e leitura de verso de cordel que contavam as histórias e estórias de cangaceiros no sertão nordestino.

No Brasil, país que o catolicismo predomina, mas tem o maior contingente do mundo de adeptos declarados da ciência Espírita, os fantasmas da tradição popular são caracterizados pelas cores da História que permeiam a formação da cultura nacional. As assombrações são personagens que viveram episódios dramáticos e/ou traumáticos da colonização, dos tempos do Império e da República Velha, misturando elementos indígenas, lusos, africanos e do cangaço. Assim, há muitos fantasmas de escravos e sua contrapartida, de senhores [as] de engenho ou de cafezais que foram extremamente cruéis. São todos atormentados e tormentosos. Na história mais recente, fantasmas do século XX já assombram grandes metrópoles, como São Paulo que, assim como Londres e outras localidades do Reino Unido, tem até roteiro turístico de lugares assombrados bem como Recife, esta, uma cidade que conta com tradições fantasmagóricas mais antigas e bem documentadas.

A Procissão dos Mortos

Essa procissão assombrada é o tema de uma lenda contada em vários estados, especialmente no Nordeste e Centro-Oeste. O caso se passa nas cidades pequenas e vilas do interior onde é costume ir dormir cedo. Existem, porém, os insones, que altas horas da noite, se põem à janela observando o “nada acontecer” da rua. Nestas ocasiões sucede o episódio macabro: eis que lá vem uma procissão com toda a aparência de uma caminhada de penitentes usando túnicas escuras com capuz, segurando velas acesas, entoando ladainhas tristes. Em dado momento, um ou uma destas aparentemente piedosas criaturas, aproxima-se do [a] curioso [a] que está na janela e lhe oferece uma vela. O incauto aceita a oferta e lá fica vendo passar o estranho cortejo. O sono chega, apaga a vela e vai dormir sem suspeitar de qualquer estranheza. No dia seguinte, ao despertar, vai constatar, com grande pavor, que a vela se transmutou em osso de gente e a procissão era um cortejo de mortos vagando no vilarejo, cumprindo a sina das almas penadas que, sem descanso, nada mais têm a fazer senão assombrar os viventes.

A Missa dos Mortos de Ouro Preto – MG

O caso aconteceu entre o fim do século XVIII e começo do século XIX, na igreja de Nossa Senhora das Mercês que fica ao lado de um cemitério. Quem viu foi João Leite, zelador e sacristão que se preparava para dormir em sua casa, próxima ao templo, quando percebeu luzes na igreja e foi verificar o que acontecia. Deu com uma missa em andamento, repleta de fiéis vestidos em longas túnicas escuras e um estranho padre cuja nuca era pelada e branca. Eis que o padre voltou-se para a assembleia e pronunciou “Dominus Vobiscum”. Foi aí que o sacristão viu-lhe a face cadavérica e bem reparando constatou que todos os presentes eram igualmente esqueletos. Tratou de escafeder-se sem chamar a atenção, mas ainda a tempo de observar que a porta de acesso ao cemitério estava aberta. O episódio entrou para os anais das histórias de assombração da cidade de Ouro Preto.

O Fantasma de Teresa Bicuda & Outros Filhos que Maltratam os Pais [Jaraguá ─ Goiás]

Teresa Bicuda era uma moça de lábios grossos que lhe valeram o apelido. Morava em Jaraguá, no Larguinho de Santana. Pessoa de maus bofes tratava a mãe de forma absolutamente cruel: botava a velha para mendigar nas ruas, batia nela, humilhava. Um dia, chegou ao extremo da maldade e, diz o povo, colocou um freio de cavalo na boca da genitora, montou, e nela andou montada à frente de todo o povo. Aquilo foi demais: a pobre mulher morreu, porém, antes de morrer, excomungou a filha desnaturada. Teresa Bicuda, que já era psicopata, finalmente, ficou maluca de vez, viciou-se na bebida e vagava pelas ruas gritando todo tipo de sandices até que morreu e foi enterrada no cemitério. Perturbada em vida, virou fantasma atormentado e tormentoso na morte. Alma penada, seu espírito vagava pelas ruas, gritando do mesmo jeito, como no dia em que cavalgara a própria mãe; os lamentos da vítima também eram ouvidos. Desenterraram seu corpo e sepultaram atrás da Igreja do Rosário. De nada adiantou a providência: o fantasma continuava com seus escândalos. Mais uma vez, trocaram-na de cova, desta vez, foi para a cabeceira de um córrego onde puseram uma cruz e desde então o lugar ficou mal assombrado, o córrego da Teresa Bicuda.

Almas Sedutoras

Este tipo de assombração já virou lenda urbana e faz suas aparições em muitas metrópoles brasileiras: são damas de branco e as louras do táxi que têm rendido histórias desde o começo do século XX e se renovam, em versões contemporâneas que já viraram tema de reportagem em programa de televisão, como um bem recente que apareceu no SBT e assombra taxistas em São Paulo. Neste caso, era uma jovem que tinha morrido no dia do seu aniversário e todos os anos, neste mesmo dia, acena para um táxi, pede para dar voltas na cidade e, ao cair da noite, parando em frente a uma casa, alega não ter dinheiro para pagar a corrida e combina com o taxista saldar a dívida no dia seguinte. O motorista volta ao endereço e lá descobre que a bela passageira morreu há algum tempo. Minas Gerais também tem sua alma penada sedutora: é a Loira do Bonfim de Belo Horizonte, datada entre 1940 e 1950:

“…uma mulher que aparecia por volta das duas horas da madrugada, sempre vestindo roupas brancas, insinuando-se junto aos boêmios que aguardavam condução no ponto de bonde existente diante de uma drogaria, no centro da cidade. Dizia que morava no Bonfim, que estava a fim de um programa, e quando alguém se interessava, ela o levava para o cemitério do bairro, desaparecendo assim que chegavam àquele local. Como às vezes a criatura preferia chamar um táxi, os motoristas desses veículos de aluguel, além dos motorneiros e condutores dos bondes, passaram a não aceitar a escala de trabalho no horário noturno. Não era por medo, diziam eles, mas sim por precaução”.

O Fantasma de Ana Jansen [Maranhão]

Ana Joaquina Jansen Pereira [1787-1889], Donana Jansen, nasceu e morreu em São Luis do Maranhão. Duas vezes casada, duas vezes viúva, teve 12 filhos, nem todos foram fruto dos casamentos, mas das relações com amantes que escandalizavam a sociedade da época. Comerciante poderosa foi uma pessoa influente, posição rara para as mulheres daquele tempo. Senhora de muitos escravos, tornou-se conhecida pela crueldade com que tratava os negros, submetendo-os às mais bárbaras torturas que, não raro, provocavam a morte de suas vítimas. Muitas das ossadas destes infelizes foram encontradas em um poço localizado nas terras da tirana. Quando morreu, aos 82 anos, em seu casarão da Praia Grande, sua alma não encontrou descanso. Nas noites de sexta-feira, ela assombra as ruas da capital maranhense, a bordo de uma carruagem que passava em desabalada carreira puxada por uma parelha de cavalos brancos sem cabeça [algumas versões dizem: “com chamas no lugar das cabeças”], guiada pelo esqueleto espectral de um escravo também decapitado. É o coche “maldito”, que sai do cemitério do Gavião em seu passeio macabro seguido pelo som dos lamentos dos escravos supliciados. O fantasma quer orações pela sua salvação e quem se recusa a atender ao pedido, é visitado pelo espectro de Donana: aparece ao leito do devedor antes que caia no sono e entrega-lhe uma vela que, no dia seguinte, terá se transformado em osso humano [olha a vela – osso de novo!].

Depois da noitada de anedotas tinham pessoas que ficavam de clarão com medo de fechar os olhos.

No próximo artigo tentaremos expor novas estórias de assombração, mas, se você é um apaixonado por este tipo de leitura, leia o livro “Assombrações do Recife Velho”, do sociólogo Gilberto Freyre, O livro conta com 14 histórias inéditas que recriam personagens de lendas fantasmagóricas coletados em livros, jornais antigos e, sobretudo, junto ao povo. Narra estória do lobisomem, o papa-figo, a Emparedada da Rua Nova, a Perna Cabeluda e a Coma¬dre Fulozinha.

João Pessoa, 30 de janeiro de 2017.

SEVERINO COELHO VIANA
scoelho@globo.com

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