Avenida Brasil

10 abr 2013

AVENIDA BRASIL

A Avenida Brasil, acreditem, é praticamente um corredor da minha casa. Posso assim dizer, tal é o grau de familiaridade que tenho com ela. São muitos os anos de convivência diária. Dizendo melhor, convivência diária e noturna, pois muitas das vezes, dependendo das minhas necessidades mais urgentes, dobro de turno. Desse modo, a Avenida Brasil me é tão familiar como um determinado compartimento da minha própria casa.

Assim sendo, conheço muito bem toda a incrível agitação dessa avenida, com o seu trânsito louco e perigoso, bem como o agitado vai e vem de transeuntes apressados pelo corre-corre comum nas grandes metrópoles do Brasil. Nem preciso dizer que a Avenida Brasil é uma importante via da grande São Paulo, situada no Jardim Paulistano, que tem início na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, terminando na Avenida Rebouças, cortando assim, regiões valorizadas, como Jardim América, Pinheiros, Jardim Europa e Ibirapuera. Sei também que a Avenida Brasil tem pouco mais do que dois quilômetros de extensão. Imaginem só o que ocorre diariamente em uma avenida com uma extensão e uma movimentação dessas.

Para conhecê-la tão bem, somente trabalhando nela há aproximadamente vinte anos, como taxista, passando boa parte da vida em um mesmo ambiente. Consequentemente, passei a conhecer, em detalhes, cada quilômetro rodado, registrando na memória, os seus Consulados, Bancos, Orfanatos, Escritórios, Museus e Bibliotecas. É preciso que eu destaque que, como disse o professor José Eduardo de Assis, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo, a Avenida Brasil é uma das mais bonitas da cidade, com seu canteiro central largo, ajardinado e arborizado, sendo o recuo paulista generoso entre as enormes construções dessa grande cidade.

E como não poderia ser diferente, foi nessa famosa avenida que me aconteceu um estranhíssimo fato, por mim jamais esquecido, mesmo passado mais de dez anos, porque é impossível de ser esquecido. Às vezes, até duvido que tenha ocorrido mesmo. Em uma dessas noites de trabalho, retornando de uma corrida, não é que da calçada de um desses famosos escritórios, uma linda jovem, morena, alta, magra, de brilhantes olhos pretos, enormes, muito bem vestida, acena com a mão, pedindo parada. Pedido ao qual atendi imediatamente. A jovem entra, e com voz rouca me diz o endereço: Itaparica da Serra, Horto da Paz. Tomo um susto enorme. O que uma jovem, sozinha, vai fazer àquela hora da noite em um lugar assim.

Continuo a corrida, embora temeroso. Observo a jovem todo o tempo, pelo retrovisor, tento puxar conversa. Descobrir o motivo daquela estranha viagem. Ela parece perceber minhas preocupações, meu temor, e calmamente diz para eu não temer, não me preocupar, que ela apenas tem que voltar para casa, que nada de mal me irá acontecer. Diz ainda que foi ao escritório matar as saudades. Eram tantas. Teve que voltar lá aquele dia. Tinha que rever os colegas. Principalmente, tinha que rever seu único e eterno amor, Carlos Eduardo. Precisava revê-lo, nem que você por alguns minutos. Fiquei mais calmo, porém completamente intrigado.  Tão bela, tão bem vestida, tão jovem, tão misteriosa, vestida com um caro e elegante casaco preto, que lhe cobria inteiramente o corpo. Olhei para suas mãos, eram magras, brancas. Muito magras, de dedos muitos finos.

Durante toda a viagem continuei a olhá-la fixamente pelo retrovisor, buscando seus olhos, mas ela sempre evitava os meus. Foi então que pude ver suas unhas enormes, pintadas de preto. Tudo nela era preto. Já bem perto do Horto da Paz, pude ver seus olhos bem próximos, eram olhos opacos, sem vida. Olhos cinzentos.

Parei em frente ao enorme portão do Horto da Paz e perguntei-lhe se havia alguém esperando por ela. Ela desceu, e no carro entrou um vento frio como a morte. Ela abriu sua bolsa preta sem nada me responder, com expressão petrificada no rosto, retirou um papel escrito e me pediu que cobrasse a corrida naquele endereço, com certeza eu seria pago. Fazendo a curva com o carro, procurei vê-la pelo retrovisor, mas nada, nem sinal da moça. Fiquei intrigado. No Horto da Paz não havia sinal de viva alma.

Ao chegar em casa não consegui dormir, estava inquieto, aceso, alerta. Algo me incomodava, tirava meu sono, não me saía da cabeça: a bela e enigmática figura da mulher, cujo nome estava escrito no papel: Èvora, de Salem, para todo o sempre. Amanhecido o dia, a primeira coisa que fiz foi procurar o endereço. Ao apertar a campanhia surge à porta uma senhora muito elegante, de cabelos curtos e grisalhos, magra como Évora. Seus olhos eram também pretos e enormes. Apresentei-me. Cobrei a corrida. Pálida, a elegante mulher insistia em que deveria haver algum engano. Eu afirmava firme que não havia engano algum, fiz essa corrida ontem à noite e quero o pagamento.

Aquela senhora ficava cada vez mais pálida. Pude perceber o tremor nos seus lábios e mãos. Foi então que levantei a vista para o luxuoso hall do apartamento da Avenida América e vi um enorme e belo quadro, uma pintura magnífica de mulher, um retrato perfeito de Évora. Gritei, quase sem querer: é ela, só que estava de preto, seus olhos não eram luminosos assim. Ouvi um baque, a senhora caíra desmaiada aos meus pés. Uma empregada veio socorrê-la. Então perguntei por Évora, ao que ela me respondeu: está morta há dez anos, aproximadamente.

Francisca Vânia Rocha

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