COMO COMEÇA A MENTIRA

15 fev 2016

Por Severino Coelho Viana

A mentira é irmã gêmea da maldade.

A realidade nua e crua nos ensina quando não buscamos ouvir todos os lados de um suposto acontecimento, há um grande risco de cair na arapuca da injustiça. Afinal, quem não conhece alguma história trágica provocada por difamação? Calúnia? Injúria? Parece que não, mas o comportamento social pode interferir no presente e arrasar o futuro de uma pessoa inocente. Vemos alguém abrir a boca e mandar o verbo, saem torpedos com denúncias sem fundamentos ou fofocas tendenciosas por pura inveja que podem definir rumos importantes na história dos implicados. Por isso, todo cuidado é pouco quando o assunto se refere à moral ou idoneidade de alguém.

A dedução pessoal de um fato acontecido quando o narrador não é testemunha visual, geralmente, começa assim: “eu não sei, mas eu acho que…” nessa expressão “EU ACHO” é justamente o início da mentira. Você não acha nada! Você não sabe de nada! Caramba! Você está emitindo um juízo de valor de um fato que você não conhece. Então, por que você acha isso e aquilo? Fique calado! Outra mentira perigosa, esta sim, a pessoa presenciou a cena do fato, mas sai contando completamente diferente. Diz que viu, no entanto, narra o que não viu.

Veja esta estória maliciosa:

Caminhavam duas amigas no calçadão da praia, isto já era uma prática diária. Certo dia, bem perto de terminar o percurso da caminhada, no olho de uma amiga caiu um cisco. Uma pequenina pena de uma ave que sobrevoava no local perto de um coqueiro. A amiga diz para outra:

__ Estou com o olho esquerdo ardendo!

A amiga preocupada diz:

__ Deixe-me olhar?

Vira-se de lado, arregala o olho da amiga e fala:

__ Não é nada! É um cisco.

__ Tira esse cisco com um sopro que meu olho está coçando!

Ela se aproxima do rosto da amiga e sopra no olho!

Terceira pessoa, amiga das duas, no outro lado devagarzinho passeava num carro conversível, presenciou esta cena, logo causando admiração:

__ Eu não acredito nisto que estou vendo! Não pode ser verdade!

Sem o mínimo ato de investigação, imediatamente, pegou o telefone e ligou para o marido da amiga:

__ Fulano, você não sabe o que aconteceu, se eu não tivesse visto com esses olhos que a terra haverá de comer, eu também não acreditava. Foi uma coisa ridícula.

__ O que é de tão ridículo, pergunta o esposo da amiga.

__ Neste momento, eu estou passeando de carro pela orla, de repente, vejo sua esposa beijando outra mulher próxima a um coqueiro.

__ Minha esposa! Você está de brincadeira? Minha mulher nunca foi e nem é lésbica!

__ Por que você não sabia! É assim mesmo! O corno é o último a saber!

O marido desligou o telefone e saiu a caminho da orla marítima, chegando lá encontrou a esposa simplesmente conversando com a amiga. Como ele era de primeira informação, precipitadamente, pegou o braço da esposa e levou para casa onde houve uma tremenda briga do casal, que resultou no divórcio.

A delatora soube do divórcio do casal, já era apaixonada, logo começou a dar em cima do ex-esposo da amiga.

O tempo passou, ele já de caso com a delatora, mas, na verdade, os ex-casados eram apaixonados um pelo o outro. Um amigo confidente convida-o para tomar uns drinks no final de semana. Depois das amenidades, a conversa girou em torno do divórcio do casal.

Resumindo: o amigo tinha uma filmagem da cena do sopro tirando a pena da ave e da conversa sobre o cisco no olho.

Comprovada a verdade, a história tirada a limpo, o casal reatou o relacionamento e a amiga fofoqueira terminou com dois processos: um, na área criminal; outro, na área cível, por danos morais.

Esta lição deveria servir de exemplo para as pessoas maldosas que trazem no olhar a espada de uma maldade inata e uma mente apodrecida pela inveja. A maldade está na língua do fofoqueiro e na orelha de quem não questiona. Ela está dentro de cada um que julga sem analisar os fatos com o devido cuidado. Está no coração dos venenosos e na credibilidade de quem toma o cálice e se delicia com o líquido cheio de calúnia mordaz

Quanta maldade existe na mente de cada ser que habita neste planeta de vida passageira? Quanta crueldade um ser humano é capaz de cometer por falta de um pouco de investigação?

São os espíritos atordoados ou adormecidos na imensidão do vazio existencial.

O segredo está na observação. Pergunte-se, como alguém que vê de longe uma determinada cena, o que pode levar a tal vileza. Observe e analise com atenção. E se tal maldade não cabe em seu coração, descarte-a. Não se envenene sem culpa, não se entregue sem crime. Procure um lugar dentro de você onde possa filtrar e neutralizar o que sofre pela maldade. É somente isso que nos resta. Consciência tranquila, paz de espírito e um gigantesco escudo contra as flechadas maldosas.

Atualmente, mais do que nunca, notícias e comentários são espalhados com uma rapidez incrível e é cada vez mais difícil controlar a divulgação do que é verdade, invenção, imaginação ou má interpretação de um episódio.

Por conta de mentiras maldosas quantas amizades destruídas? Quantos namoros acabados? Quantos casamentos arruinados? Quantas vidas que vivem sufocadas?

A solução está dentro de você mesmo. Se olhe no espelho e faça uma autoanálise antes de sentar no sofá do psicólogo ou do psiquiatra!

João Pessoa PB, 15 de fevereiro de 2016.

SEVERINO COELHO VIANA
scoelho@globo.com

Comentários