Daniel e o Mendigo

1 abr 2013

DANIEL E O MENDIGO
(uma crônica para a Semana Santa e a Páscoa)

Éramos a única família no restaurante com uma criança. Eu coloquei Daniel numa cadeira para crianças e notei que todos estavam tranqüilos, comendo e conversando.

De repente, Daniel gritou animado, dizendo: “Olá, amigo!”, batendo na mesa com suas mãozinhas gordas. Seus olhos estavam bem abertos pela admiração e sua boca mostrava a falta de dentes.

Com muita satisfação, ele ria, se retorcendo. Eu olhei em volta e vi a razão de seu contentamento. Era um homem andrajoso, com um casaco jogado nos ombros: sujo, engordurado e rasgado. Suas calças eram trapos com as costuras abertas até a metade, e seus dedos apareciam através do que foram, um dia, os sapatos. Sua camisa estava suja e seu cabelo não havia sido penteado por muito tempo. Seu nariz tinha tantas veias que parecia um mapa.

Estávamos um pouco longe dele para sentir seu cheiro, mas garanto a vocês que cheirava mal. Suas mãos começaram a se mexer para saudar. “Olá, neném. Como está você?”, disse o homem a Daniel. Minha esposa e eu nos olhamos: “Que faremos?”. Daniel continuou rindo e respondeu, “Olá, olá, amigo”.

Todos no restaurante nos olharam e logo se viraram para o mendigo. O velho sujo estava incomodando nosso lindo filho. Trouxeram a comida e o homem começou a falar com o nosso filho como um bebê. Ninguém acreditava que o que o homem estava fazendo era simpático. Obviamente, ele estava bêbado.

Minha esposa e eu estávamos envergonhados. Comemos em silêncio; menos Daniel que estava super-inquieto e mostrando todo o seu repertório ao desconhecido, a quem conquistava com suas criancices.

Finalmente, terminamos de comer e nos dirigimos à porta. Minha esposa foi pagar a conta e eu lhe disse que nos encontraríamos no estacionamento.

O velho se encontrava muito perto da porta de saída. “Meu Deus, ajuda-me a sair daqui antes que este louco fale com Daniel”, disse rezando, enquanto caminhava perto do homem. Estufei um pouco o peito, tratando de sair sem respirar nem um pouco do ar que ele pudesse estar exalando. Enquanto eu fazia isto, Daniel se voltou rapidamente na direção onde estava o velho e estendeu seus braços na posição de “carrega-me”.

Antes que eu pudesse impedir, Daniel se jogou dos meus braços para os braços do homem. Rapidamente, o velho fedorento e o menino consumaram sua relação de amor. Daniel, num ato de total confiança, amor e submissão, recostou sua cabeça no ombro do desconhecido. O homem fechou os olhos e pude ver lágrimas correndo por sua face. Suas velhas e maltratadas mãos cheias de cicatrizes, dor e trabalho duro, suave, muito suavemente, acariciavam as costas de Daniel.

Nunca dois seres haviam se amado tão profundamente em tão pouco tempo. Eu me detive, terrificado.

O velho homem com Daniel em seus braços, por um momento, abriu seus olhos e olhando diretamente nos meus, me disse com voz forte e segura: “Cuide deste menino”. De alguma maneira, com um imenso nó na garganta, eu respondi: “Com certeza!”.

Ele afastou Daniel de seu peito, lentamente, como se sentisse uma dor. Peguei meu filho e o velho homem me disse: “Deus o abençoe, senhor. Você me deu um presente maravilhoso!”. Não pude dizer mais que um entrecortado “obrigado”.

Com Daniel nos meus braços, caminhei rapidamente até o carro. Minha esposa perguntava por que eu estava chorando e segurando Daniel tão fortemente, e por que estava dizendo: “Meu Deus, meu Deus, me perdoe”.

Eu acabava de presenciar o amor de Cristo através da inocência de um menino que não viu pecado, que não fez nenhum juízo; um menino que viu uma alma e uns adultos que viram um montão de roupa suja. Eu fui um cristão cego carregando um menino que não era.

Eu senti que Deus estava me perguntando: “ESTÁS DISPOSTO A DIVIDIR TEU FILHO POR UM MOMENTO?”, quando Ele compartilhou Seu Filho por toda a eternidade.

E tenho certeza de que o velho andrajoso, inconscientemente, me recordou: “Em verdade vos digo que, qualquer um que não receber o reino de Deus como menino, não entrará nele”. (Lucas 18,17).

Deus amou tanto o mundo,que entregou seu Filho único! (Jô. 3,16)

Cristo ressurgiu da morte!

Vida nova para todos nós!

Que o Cristo, que revive a sua Paixão e Morte em tantos irmãos e irmãs, ressuscite no nosso amor fraterno que os acolhe!
Santa Páscoa!

Padre Walter.

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