ENTREVISTA: Agnelo Queiroz, Governador do DF

25 mar 2013

“Tirei o crime organizado de dentro do GDF”

Governador do DF diz que sofreu ameaça de morte, recuperou o prestígio de Brasília dentro e fora do País e afirma que sua gestão está começando agora

Por Mário Simas Filho e Sérgio Pardellas

 


ENFRENTAMENTO
Governador do DF diz que foi alvo de mafiosos que não tiveram espaço em seu governo

Horas antes de conceder a seguinte entrevista à ISTOÉ, o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, havia desembarcado de um voo procedente dos Estados Unidos. Apesar de estar saindo de um momento conturbado, em que viveu sob artilharia pesada da oposição, o governador era o retrato de um político animado. Na sexta-feira 15, ele assinou um tratado tornando Brasília a primeira cidade da América do Sul oficialmente “irmã” de Washington. Com isso, assegura Agnelo, serão realizados intercâmbios entre técnicos de várias áreas das duas capitais, bem como haverá a promoção de inúmeras missões empresarias. Ainda na semana passada, Agnelo manteve diversas reuniões com bancos e investidores internacionais. Na entrevista, o governador afirma que seu governo está apenas começando e revela inclusive ter sofrido ameaças de morte no início do mandato. Agnelo não descarta a possibilidade de disputar a reeleição e admite que a população do Distrito Federal ainda está traumatizada depois de duas gestões que se notabilizaram pela corrupção, o que levou à incrível situação de abrigar quatro governadores em apenas um ano.

O governador define como maior virtude de seu mandato o “combate incansável aos feudos que se encastelavam no governo” e, quando colocado diante das acusações que lhe são feitas pelo Tribunal de Contas, se diz alvo de brigas políticas. Agnelo, no entanto, prefere não olhar para o retrovisor e vislumbra no horizonte a inauguração do novo Estádio Nacional, “o mais sustentável do País”, segundo ele, que terá energia solar e reaproveitamento de água.


“Não dá para comparar o preço de uma arena
como essa com o de um estádio comum. É
como comparar um fusca com uma Ferrari”


“O presidente Lula tinha me alertado sobre as ameaças
que receberia, quando eu venci a eleição. Só pude
compreender a dimensão disso muito depois”

Fotos: Adriano Machado / AG. ISTOÉ; LALO DE ALMEIDA; Ronaldo Brandão/Brazil Photo Press/Folhapress

Istoé – Começa a segunda metade de seu mandato e o governo do Distrito Federal, que nas últimas gestões esteve submerso em escândalos de corrupção, ainda é visto com alguma desconfiança.

Agnelo Queiroz – Pegamos uma terra arrasada. Nos dois últimos anos, fizemos um enorme esforço para recuperar a credibilidade interna e externa. Havia um cenário de inadimplência em todas as áreas do DF e só agora, no fim de 2012, conseguimos sanear tudo e deixar Brasília em condições de receber recursos. Tive que passar vergonha em organismos internacionais, como o Banco Mundial, para reconstruir nossas relações internacionais. A situação era dramática. Herdei uma tragédia. Mas em 2013 e 2014 os resultados começarão a aparecer.

Istoé – Mas o sr. continua alvo de diversas acusações de superfaturamento, por exemplo.

Agnelo Queiroz – O passivo é muito negativo. Fui atacado até por segmentos vinculados ao crime organizado. Quando eles perceberam que não teriam entrada no meu governo, me atacaram da forma mais vil possível. Partiram para ataques a minha pessoa e a meus familiares. Foi violento.

Istoé – O sr. sofreu ameaças de morte?

Agnelo Queiroz – Até isso. E mais. Houve uma ofensiva para derrubar um governo democraticamente eleito.

Istoé – O sr. mudou hábitos de segurança?

Agnelo Queiroz – Foi intensificada a segurança. E muitas investigações ainda estão em curso. Enfrentei grupos mafiosos. Feudos há anos responsáveis pelo atraso da cidade.

Istoé – Que feudos são esses?

Agnelo Queiroz – Por exemplo, a máfia dos transportes. Depois de 50 anos vamos fazer uma licitação pública. Foram 135 ações judiciais para impedir a licitação que hoje está em curso. Trata-se da maior licitação do País. Tivemos, inclusive, que assumir o controle administrativo de uma das maiores empresas do setor. Ela simplesmente retirava os ônibus de circulação. De 350, só estavam rodando 186 ônibus. Em cinco décadas, nenhum governante ousou desafiar esse feudo.

Istoé – Há outras máfias?

Agnelo Queiroz – Enfrentamos setores que dominavam a coleta de lixo. Essa licitação também está em curso, porque precisamos fazer uma mudança na política de resíduos sólidos. Combatemos ainda grupos da área da saúde, que só vendiam para meia dúzia e faziam a tática de desabastecimento para forçar a compra emergencial. E quando você enfrenta isso você está mexendo numa casa de marimbondo. Outro feudo que existia era no setor da ressocialização de jovens. Esse sim envolvendo o crime organizado. Mas vamos desativar o Caje e construir sete unidades com capacidade para 90 internos com o objetivo de recuperar jovens. Mas enfrentar tudo isso não tem sido fácil.

Istoé – Há resistências dentro do governo? Existem rumores de que a relação com o vice-governador não é das melhores.

Agnelo Queiroz – O governo tem unidade.

Istoé – O sr. credita os ataques sofridos a grupos que foram contrariados pelo governo, mas o Tribunal de Contas tem feito vários questionamentos como os que envolvem superfaturamento na construção do Estádio Nacional de Brasília.

Agnelo Queiroz – Isso também faz parte da guerra política.

Istoé – O tribunal diz que houve superfaturamento e duplicação de serviços. O orçamento inicial era de R$ 696 milhões e pulou para R$ 1,3 bilhão.

Agnelo Queiroz – Tudo já havia passado pelo tribunal. A licitação inicial não incluía a obra da cobertura do estádio, das cadeiras, do gramado, áreas de tecnologia e modificações que foram pedidas pela própria Fifa. Foram feitas outras licitações, por isso houve o aumento do valor. Estamos fazendo tudo com muito rigor. Trata-se de uma arena multiuso de primeiro mundo. Um monumento que harmoniza com a cidade e que está pensando na sua viabilidade econômica. O estádio vai trazer recursos para a cidade. Inclusive será o primeiro estádio sustentável do mundo.
Istoé – O Distrito Federal não é uma cidade que abriga clubes tradicionais de futebol. Dessa forma, seria necessária uma obra dessa envergadura?

Agnelo Queiroz – Por isso estamos fazendo uma arena multiuso. Será um centro cultural, desportivo e comercial. Teremos restaurantes, teatros, lojas que agregarão valor à nossa economia. Teremos programações especiais nos fins de semana, quando normalmente a cidade fica mais vazia. O estádio também vai colocar a cidade no roteiro de shows internacionais, o que não acontece hoje. Não dá para comparar o preço de uma arena como essa com o de um estádio comum. É como comparar um fusca com uma Ferrari.

Istoé – Existe ainda a denúncia sobre o superfaturamento da merenda escolar.

Agnelo Queiroz – A compra foi emergencial, por isso o preço foi ligeiramente mais alto. Fizeram um recorte. Disseram que compramos lata de óleo a R$ 4,99, enquanto no mercado custaria R$ 3. Isso ocorreu porque vários fornecedores romperam o contrato e tivemos que fazer uma nova licitação. Tentamos aderir a uma ata de preços do Ministério da Defesa, mas o fornecedor não tinha capacidade de entregar ao Exército e ao GDF ao mesmo tempo. Então tivemos que fazer compra emergencial para evitar o desabastecimento.  Cabe inclusive uma ação administrativa contra esses fornecedores que romperam o contrato. E isso está ocorrendo. Jamais pode ser considerado superfaturamento.

Istoé – No PT, o ex-presidente Lula fala claramente em sua reeleição. O sr. está de olho em 2014?

Agnelo Queiroz – Nossa situação é excepcional. Em 2010, tivemos quatro governadores. Passei dois anos arrumando a casa. Foi um sacrifício muito grande. Meu objetivo é terminar um bom mandato à frente da cidade. Recuperar a autoestima e a credibilidade. E a população já começa a perceber a mudança. Tenho números que comprovam o crescimento da minha popularidade. O governo está muito bem avaliado, segundo pesquisas internas minhas.

Istoé – E 2014?

Agnelo Queiroz – Agora vamos investir R$ 3,5 bilhões em um único ano, o equivalente a quatro anos de investimento da gestão anterior. Então, recuperamos a credibilidade da cidade, sua capacidade de receber recursos e partiremos para ampliar os investimentos públicos.

Istoé – O sr. pretende reproduzir a aliança do governo federal em 2014?

Agnelo Queiroz – Temos 17 partidos na nossa base. Fui eleito com o apoio de 11 legendas. Acredito que vamos para uma disputa pelo menos mantendo essa coalizão, na qual se inclui o PMDB.

Istoé – Nos últimos dias, o vice-governador Tadeu Filippelli, do PMDB, foi visto ao lado do ex-governador Joaquim Roriz, e especulou-se sobre a reedição da parceria entre os dois. Como o sr. recebeu essa notícia?

Agnelo Queiroz – Os dois apenas se cumprimentaram numa missa. Não vejo que isso possa evoluir. Superestimaram um aperto de mãos.  Se eu estivesse lá faria a mesma coisa.  Nossa aliança com o PMDB está mais fortalecida do que no início.

Istoé – Qual é, na sua opinião, a principal marca do seu governo?

Agnelo Queiroz – Cumprimos um papel histórico. Na verdade, é agora que todas as políticas públicas desenvolvidas por nós darão resultado. Reflexo da nossa gestão propriamente dita. Temos, agora, uma cidade com suas contas em dia e sem inscrição em cadastros de inadimplência. Recuperamos a credibilidade nacional e internacional. Tenho muito a fazer ainda, mas tirei o crime organizado de dentro do GDF. Vieram para cima de mim com muita violência, porque perceberam que não tinham como participar do meu governo.

Istoé – O povo tem essa percepção?

Agnelo Queiroz – Meu secretário de Transparência, responsável por fazer 14 mil auditorias no governo, até foi convidado para ser vice-ministro da CGU. Graças ao excelente trabalho desenvolvido e com absoluta transparência. Somos exemplo de política de transparência no País. E isso foi fruto de uma ação de governo. Se não fizesse isso, seria engolido pelos vícios estabelecidos.

Istoé – As ameaças que o sr. sofria cessaram?

Agnelo Queiroz – Sim. Partiram para me desconstituir. Fui transformado num obstáculo para esses grupos poderosos. Mas já sabia que iria fazer esse enfrentamento. O presidente Lula tinha me alertado sobre as ameaças que eu receberia, quando venci a eleição. Só pude compreender a dimensão do que ele disse muito depois. De qualquer forma, levantamos a cabeça e levamos o governo para outro patamar.

Fonte: IstoÉ Entrevista

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