ENTREVISTA: Rodrigo Lombardi

15 mar 2013

“Esse cara não sou eu”

O protagonista da novela “Salve Jorge” foi jogador de vôlei, agente de viagens e garçom, fala do sucesso atual e diz por que não manda flores para sua mulher

por Nathalia Ziemkiewicz


REALIDADE
“Muito ator diz que está estudando projetos,
mas está desempregado mesmo”, afirma ele

Sete anos, sete novelas. Desde que foi contratado pela Rede Globo, o ator Rodrigo Lombardi não experimentou férias ou desemprego. De turbante, interpretou papéis marcantes como o elegante Raj de “Caminho das Índias” e o mágico Herculano Quintanilha de “O Astro”, e foi par romântico de musas como Juliana Paes e Carolina Ferraz. Agora grava até 15 horas por dia como protagonista da novela das nove, “Salve Jorge”, na qual vive o capitão Theo. A trama sucede o estrondoso sucesso de “Avenida Brasil” e patina no Ibope – em fevereiro, registrou sete pontos a menos que a antecessora. O enredo de Gloria Perez é considerado insosso e moroso pela crítica.

Filho de uma dona de casa e um vendedor de roupas, Rodrigo viveu com a família altos e baixos financeiros. Ainda adolescente, mudou-se do bairro nobre de Higienópolis, em São Paulo, para um sítio em Juquitiba, no inteiror. Dessa época, aprendeu que nem a dedicação ao trabalho o torna insubstituível. “Quando passo pela portaria da Rede Globo, sou só mais um trabalhando”, afirma o ator de 36 anos, casado e pai de um menino. “Se eu sair amanhã, eles colocam outro no meu lugar.”


“Demora um tempo até você se acostumar com seus ídolos
e se sentir à vontade para cumprimentar o Tony Ramos”


“‘Avenida Brasil’ foi um sucesso porque era rápida, trouxe
enorme dinamismo. ‘Salve Jorge’é um folhetim clássico”

Seu personagem em “Salve Jorge” ganhou música-tema de Roberto Carlos, “o herói esperado por toda mulher”. Você é esse cara também?

Rodrigo Lombardi –  Não, esse cara não existe. Como o próprio Roberto Carlos diz, é o que toda mulher gostaria de ter em casa. Mas não dá, né? Eu não sou dado a clichês românticos como dar flores em datas previsíveis. De alguma forma, isso me soa falso. Procuro falar que amo no dia a dia e me preocupo mais em resgatar os valores reais, não só em Dia dos Namorados.

Istoé – Deve ser fácil se deslumbrar por ser protagonista da novela das nove. Como põe os pés no chão?

Rodrigo Lombardi – Eu não boto os pés no chão porque nunca tiro. Sei quanto eu batalho, o que essa profissão demanda. Tenho minha mulher e meu filho, quero melhorar o que conquistei – nada além. Quando você chega ao patamar ao qual cheguei, percebe que ele não existe: ao passar pela portaria da Rede Globo, sou só mais um trabalhando. É muito claro para mim que não sou imprescindível. Se eu sair amanhã, eles colocam outro no meu lugar. Preciso estudar e me dedicar de verdade para continuar lá. Quem se deslumbra tem os dias contados.

Istoé – Desse pacote que vem com a fama, o que considera cansativo?

Rodrigo Lombardi – A invasão da privacidade. Essa coisa de paparazzi na porta da casa trocando turno e esperando que algo aconteça. Às vezes, estou na rua e a cueca embolou na calça, mas não posso tirar porque tem um camarada me fotografando. E o engraçado é que alguns se acham James Bond. Ele está com uma lente gigante, calça camuflada e boné, se esgueirando numa parede a dois metros de mim, e acha que não percebo (risos)! Isso ultrapassa o limite do meu mau humor e dou risada, né? Entendo que os leitores das revistas sobre famosos buscam uma identificação com a vida deles. Mas precisa haver uma coluna mostrando a gente levando filho ao colégio ou indo ao supermercado? O Rodrigo aqui também faz cocô, não precisa de foto para provar, tá (risos)?

Istoé – Como mantém sua privacidade?

Rodrigo Lombardi – Em sete anos de Rede Globo, fiz sete novelas. Os paparazzi quase não têm chance de me encontrar. Meu filho mal me encontra! Ou estou em casa ou no Projac. Há uma prateleira em casa com pilhas de filmes que quero ver. Dá até desespero. Depois de “Salve Jorge”, preciso descansar. Quero estudar, ver peças boas, ler livros, acompanhar as notícias de política, descobrir o que está acontecendo no mundo… e transformar isso na minha arte.

Istoé – Tem medo de ficar afastado da tevê e perder trabalhos?

Rodrigo Lombardi – Não perco tempo com esse medo. Hoje posso ter férias, se quiser. Mas 90% dos meus colegas não podem. Acaba uma peça ou novela e ficam sem emprego. Muito ator diz que está “estudando projetos”, mas está desempregado mesmo. Fiz sete novelas em sete anos pelos personagens que me oferecem e também por sentir culpa de descansar.

Istoé – Por que culpa de descansar?

Rodrigo Lombardi – Nos meus primeiros oito anos de carreira, devo ter feito ao todo uma peça e uns três comerciais. O resto do tempo era desemprego. Se acordo uma quarta-feira às dez da manhã, penso: “Como é que não estou produzindo?” Antes, faltava dinheiro para tirar férias. Agora falta tempo. Vai ser inédito ter as duas coisas juntas (risos)! Preciso aprender a desfrutar do que conquistei e me libertar dessa culpa católica de “eu não devo ou não mereço”.

Istoé – Sua família passou por crises financeiras antes do seu sucesso. Como isso afetou você?

Rodrigo Lombardi – Meu pai, representante de moda masculina, era o provedor de uma família com minha mãe e cinco filhos. Tivemos muitos altos e baixos: morávamos de aluguel em São Paulo, compramos um apartamento, depois precisamos vender e mudar para um sítio em Juquitiba (a 74 quilômetros da capital paulista). À medida que ele foi envelhecendo e adoecendo de enfisema pulmonar, a situação ficou mais grave e tivemos que nos virar. Eu me ressinto porque, no fim da vida dele, em vez de trabalhar e botar dinheiro em casa, eu vivia com um livro debaixo do braço para ver se daria certo como ator. Meu pai morreu em 2003, sem ver o meu sucesso. Isso me entristece demais.

Istoé – Começou a trabalhar cedo?

Rodrigo Lombardi – Desde os 12 anos acompanhava meu pai nas vendas. Carregava as malas com camisaria, apresentava o mostruário e dobrava as peças. Aprendi a conhecer cortes e tecidos. Hoje sei escolher uma cueca bem costurada ou um terno bem cortado. Quando acabei o ensino médio, queria ser jogador de vôlei. Fui morar nos Estados Unidos para estudar inglês e competi nas equipes juvenis. Mas o meu 1,82m não era suficiente e tomei um belo tapa na cara da vida. Na volta, arrumei um emprego de agente na empresa de viagens, onde inveti no curso de inglês, e ficava de favor na casa de um amigo. Aos 19 anos, trabalhava em dois turnos como garçom da lanchonete Fridays.

Istoé – De onde tirou a ideia de estudar teatro?

Rodrigo Lombardi – Aos 12 anos, eu pegava uns livros de capa bonita da minha mãe. Adorei um chamado “Ganhando Meu Pão” e só fui saber muitos anos depois que era obra de Maxim Górki (escritor russo). Sempre gostei de ler e queria que a minha profissão tivesse a ver com isso. No Fridays, convivi com atores que trabalhavam como garçom por causa dos horários flexíveis e da graninha extra. Eles me indicaram algumas agências e disparei currículos. Em uma delas, a mulher pediu que eu mandasse uma foto minha. Eu não sabia que deveria ser algo profissional, feito em estúdio. Mandei uma foto com meu pai e meu cachorro. Pensei: “Pô, eu adoro essa foto, acho que ela também vai gostar (risos)!” Não é que ela me chamou para o teste e fiz meu primeiro comercial?

Istoé – O início foi difícil?

Rodrigo Lombardi – Eu fazia quatro testes por dia, então não dava muito tempo para ficar magoado com um “não”. Até porque eles vinham em grande quantidade (risos). Vira o seu modus operandi. Um dia parei para analisar e percebi que, nos três anos anteriores de testes, minha carreira se resumia a quatro minutos de comerciais. Nessa hora pensei: “O que eu estou fazendo da minha vida?” Cheguei a desistir: preenchi fichas para ser vendedor em lojas de shopping, vendi meu carro e comprei um computador para estudar edição de vídeo… Quando isso acontecia, a profissão me chamava de volta e aparecia algum trabalho.

Istoé – Como foi a sua primeira novela, “Meu Pé de Laranja Lima” (1998), na Band?

Rodrigo Lombardi – É. Nessa novela eu conheci o ator Genésio de Barros, que fazia parte do elenco. Lembro de ter comentado com ele que gostava de literatura russa. Ele fez uma cara de “como é que você pode gostar dessas coisas e ser tão ruim (risos)?” O Genésio me levou para o Grupo (de teatro) Tapa, onde aprendi tudo o que sei. Lá entendi que não passava nos testes porque era ruim mesmo. Se eu estava num celeiro de bons atores, então devia ter conserto.

Istoé – Você começou na Globo em “Bang Bang” (2005). Qual foi o impacto de entrar no Projac?

Rodrigo Lombardi – Parecia a Disney com aqueles estúdios e movimentação. Eu estava andando e, de repente, passava um abacaxi cenográfico e um índio. No restaurante, almoçava a Cuca do “Sítio do Pica-Pau Amarelo” junto com a protagonista da novela das nove. A primeira figura mítica da televisão que eu vi foi o Russo (contrarregra dos programas de Chacrinha e Xuxa, entre outros). Demora um tempo até você se acostumar com seus ídolos, considerá-los seus amigos e se sentir à vontade para cumprimentar o Tony Ramos com um “E aí, Tonico (risos)?”

Istoé – “Salve Jorge” não alcançou os picos de audiência de sua antecessora, “Avenida Brasil”. Esse tipo de termômetro influencia seu trabalho?

Rodrigo Lombardi – Não trabalho por causa de Ibope nem carrego sozinho essa responsabilidade. O êxito ou o fracasso são divididos, como acontece entre os integrantes de um time de futebol. “Avenida Brasil” foi um sucesso porque era rápida, trouxe enorme dinamismo. “Salve Jorge” é um folhetim clássico. Talvez as pessoas não tenham paciência para o desenrolar de uma história porque cada vez mais vivem numa rotina de “tudo ao mesmo tempo agora”. Ultimamente, as pessoas me falam na rua: “Agora a novela está pegando, hein?” É, gente, calma!

Istoé – Como sua mulher se sente depois de cenas quentes com Carolina Ferraz ou Juliana Paes, com o assédio e os boatos?

Rodrigo Lombardi – Sou casado há sete anos com a Betty (Baumgarten, maquiadora). Nosso namoro começou nos bastidores de “Bang Bang”. Ela trabalha nesse meio também, então sabe como é. Não é a notícia que vai fazer com que ela acredite nisso ou naquilo, mas o meu comportamento. Lógico que chateia quando ouvimos comentários desagradáveis e invenções. Mas o que mais me machuca é a possibilidade de o meu filho (Rafael, 5 anos) navegar na internet daqui a um tempo e encontrar coisas sobre mim que não são verdade. Isso me machuca.

Istoé – Que tipo de pai é você?

Rodrigo Lombardi – Meu filho nasceu quando eu estava no ensaio geral de uma peça que ia estrear, era uma loucura. Não parei de trabalhar nesses cinco anos, mas faço tudo o que posso por ele. Quando tenho uns dias de folga, ficamos grudados. Ele adora ver dez vezes o mesmo filme, ri da mesma piada que faço… E eu me divirto. Quero ter outro filho, mas dessa vez ser um pai mais participante.

 

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