Homenagens aos finados

3 nov 2017

Homenagens aos finados

As homenagens aos vivos são mais corriqueiras; muito frequentes, sobretudo quando partem de quem é bajulador: são de instante em instante; bajulações elogiosas e menos sinceras. Porque, do morto, pouco se espera agradecimento ou recompensa, apenas a satisfação de se sentir grato, desde que quem elogia valorize a gratidão a um ente querido. A sabedoria popular distingue que elogiar quem já morreu é muito fácil; explica-se: o morto é falecido, já não se encontra mais no frêmito das concorrências, na disputa de trabalho, de cargos ou de funções; ou mesmo, apraz ao invejoso constatar que está com vida, talvez situação melhor do que a de quem já morreu; coisas do mundo da inveja: Eu sou e ele não é; eu tenho e ele não tem… Se tiver tido, antes de partir, nada levou consigo, aqui tudo deixou… E ainda, a partir de então, o invejoso supera facilmente o invejado falecido; pois depois que se morre, não se pode melhorar em qualquer sentido; em termos de ação, tudo está terminado…

Reflito no meio da multidão entrando e saindo do cemitério no Dia de Finados. Se deveria ser um dia de tristeza, de recordação dos que definitivamente se foram, parece mais uma festa, uma quermesse, com pessoas comendo pipoca, cachorro quente ou chupando rolete; nesse dia, a administração da cidade dos mortos pinta de cal o meio fio que contorna as estreitas vielas e quelhas esburacadas. Aqui e acolá essas estreitas ruas são interrompidas, bem no meio, por um enorme túmulo. Quem estaciona carro no meio da rua pública leva consigo esse individualismo também para o cemitério.

Fora do cemitério, há vendedores de flores gritando o menor preço; tais quais os vendedores de coentro, quiabos e alhos na feira do Mercado Central, de Oitizeiro ou de Jaguaribe. Com uma diferença: Logo depois vão buscar as flores vendidas, retirando-as do túmulo para revendê-las. Diferentemente dos vivos, os mortos nada têm, nem as flores que ganham, por alguns instantes. E a cada ano, comemora-se o Dia de Finados que, talvez, seja mais dos vivos do que dos mortos…

Damião Ramos Cavalcanti
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