Josué de Castro e a ousadia de denunciar um tema ainda proibido

25 fev 2013

“Metade da humanidade não come; e a outra metade não dorme, com medo da que não come.”
Josué de Castro

Por José Romero Araújo Cardoso

Josué de Castro teve uma infância bastante pobre em sua cidade natal, Recife, capital pernambucana. O eminente cientista brasileiro, que na verdade se transformou em cidadão do mundo, sentiu na pele o significado do que é passar fome e privações, não podendo desfrutar de melhor qualidade de vida em razão de condições financeiras limitadas, tendo em vista que era filho de um migrante paraibano da seca de 1877-1879 que saiu de Cabaceiras para o Estado de Pernambuco, a pé, intuindo saciar a fome que o deteriorava do ponto de vista físico-psicológico.

O humilde nordestino que, com grandes esforços, se formou em medicina aos 21 anos e em Filosofia aos 29 anos, acompanhou de perto o drama da fome bem perto de sua casa, quando atentamente observava o cotidiano dos catadores de caranguejos dos mangues dos rios Capiberibe e Beberibe. Conforme depoimento do próprio Josué de Castro, inúmeras vezes fora acordado, quando das cheias dos rios que cortam o Recife,  pelos pequenos animais que habitam os mangues.

Os lamentos diurnos e noturnos das crianças famélicas, filhas daquelas pessoas que dependiam da coleta do caranguejo para buscar a sobrevivência, as quais Josué de Castro notou semelhanças inequívocas com os hábitos naturais do crustáceo, eram ouvidos com extrema emoção pelo homem que se notabilizou mundialmente quando do lançamento de “Geografia da Fome” (1946) e “Geopolítica da Fome” (1951).

Josué de Castro ousou quebrar tabus, destruir mitos e dogmas acerca das bases da formação social brasileira, nas quais a negação da fome era constante a integrar análises pseudocientíficas daqueles que o antecederam, pois muitos analistas defenderam a caracterização lombrosiana como fundamento explicativo de muitas revoltas que indubitavelmente tiveram na fome um dos principais elementos catalisadores do fomento aos distúrbios sociais em determinadas épocas, a exemplo da efetivação de uma sociedade alternativa surgida às margens do rio Vaza-Barris no final do século XIX.

Josué de Castro demonstrou extrema coragem e ousadia em sua obsessão de lutar contra a fome, pois analisá-la sob o ponto de vista humanista significou descortinar as contradições em macro e micro escalas que se encontram ocultas em sociedades estruturadas sob a égide das extremas diferenças interclasses.

Influenciado pelas lutas e idéias de Josué de Castro, o geógrafo brasileiro Milton Santos elegeu a análise espacial como fundamento às denúncias acerca das distorções sociais, pois, ao lado da fome, o espaço construído pela ação humana, efetivado através das relações sociais de produção, também revela pobreza e riqueza de uma sociedade.

A fome, conforme o grau que a mesma se apresenta para determinadas populações, revela o grau de desenvolvimento de um País, de uma região, de um Estado, de um município e os contrastes no que tange ao controle da produção e dos meios de obtê-la em uma determinada época.

Avaliando como a fome se manifesta se pode entender a relação entre beneficiados e excluídos em uma sociedade, pois, através do consumo avaliar-se-á se o privilégio nutricional é democrático ou circunscrito a uma minoria, a qual, sobretudo em países periféricos, destaca-se como herdeira da própria formação sócio-econômica-espacial.

Infelizmente a ousadia, a independência e o humanismo de Josué de Castro não foram compreendidos pelos donos do poder no Brasil. As lutas do corajoso nordestino que foi consagrado na década de cinqüenta como uma das mais importantes personalidades do planeta não eram bem encaradas pelos intransigentes que ainda hoje se beneficiam do drama da fome para se auto-afirmarem na escala social.

Há mais de quarenta anos Josué de Castro profetizou o avanço da fome em razão das mudanças incríveis propiciadas pela nova ordem econômica mundial, sobretudo com relação a determinados espaços selecionados do terceiro mundo.

O autor de clássicos das Ciências Sociais, os quais continuam atualíssimos, constatou que haveria mudança radical quanto à fixação de populações de áreas rurais para urbanas, as quais, não obstante o imperialismo dos latifúndios, assumiam importantes papéis na produção de alimentos, pois a agricultura familiar, ao contrário do agrobusiness, responsabiliza-se por majoritário percentual do abastecimento do mercado interno.

A intensificação da fome nos dias de hoje, conforme raciocinou Josué de Castro, poderia ter sido evitada se a ganância não tivesse a proeminência histórica que segue a evolução humana desde a efetivação da propriedade privada e a consolidação do Estado como mediador dos conflitos interclasses, a serviço dos detentores do poder.

O mundo, isso ninguém pode duvidar, dispõe de recursos técnicos e financeiros suficientes para resolver o problema da fome. Na verdade, ainda falta muita iniciativa dos mais favorecidos para verdadeiramente solucionar um dos maiores dramas da humanidade. Infelizmente níveis nutricionais satisfatórios ainda são sinônimos de status e de domínios políticos, sociais e econômicos da parcela privilegiada sobre a maioria desprovida de recursos mínimos que possa garantir sobrevivência digna e honrada.

Impossível não lembrar, quando se completam quarenta anos que assinalam o crime político que foi a morte de Josué de Castro em seu fatídico exílio na França, que a contribuição referendada pelo mais proeminente cientista brasileiro se reveste de profundo humanismo e amor ao próximo, pois lutar contra a fome e em prol da paz fizeram desse ilustre cidadão do mundo referência no que diz respeito à responsável condução da análise científica, a qual se deve posicionar sempre em função do bem-estar da humanidade em todas as instâncias e patamares que possam permitir a melhoria das condições de vida do gênero humano.

José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor-adjunto IV da UERN.

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