Marcionilo: convertido por Frei Damião

4 abr 2013

MARCIONILO: CONVERTIDO POR FREI DAMIÃO

Pela segunda vez estou a falar sobre Marcionilo. Vou contar outros fatos reais que foram omitidos no texto anterior. Marcionilo, no exercício da atividade policial passou por momentos decisivos. Às vezes, frente a frente com o inimigo não tinha alternativas, pois tinha que fazer a dura escolha: matar ou morrer.

A cavalo, percorria todo sertão na busca de perigosos bandidos que infestavam a região no começo do século passado.  A calçada da casa do tio Cândido era o local onde ele costumava contar suas proezas. Uma ressalva: não mentia. Assim sendo, costumava dizer que tudo que contava era verdade pura.

Tinha o hábito de contar suas estórias por etapas. Falava que, na época das volantes, a ordem dada pelo tenente era de que em confronto como o inimigo só havia duas saídas: um ou outro sobreviverá. Esta era uma situação possível, pois na sua caminhada pela caatinga adentro, tinha que enfrentar perigosos bandidos que viviam atormentar a população sertaneja.

Dizia: quando se tratava de ladrões de galinha, bode, jumentos, carneiros, entre outros furtos de pequena monta, o castigo era mandar o cabra ficar nu, depois aplicar uma pisa com galhos de urtiga braba e mandar correr sem olhar pra trás. Agora, quando o enfrentamento era com bandidos perigosos praticantes assassinatos bárbaros, de estupros, ofensa e agressão a crianças, idosos, viúvas, a recomendação era mandar o homem pra a cidade de pés juntos. Era a lei de Talião, seja dente por dente, olho por olho

Essa lei prevaleceu no sertão da Paraíba nas primeiras décadas do século passado. Era a lei do Coronel, a lei do mais forte. A polícia atuava como se fosse uma milícia particular do Coronel. As ordens partiam da Casa Grande, com total anuência das autoridades do Estado.

Pois é naquele tampo era assim mesmo. Por muito tempo circulou uma história de que, certa vez um  influente Coronel da Jurisdição de um município vizinho, obrigou um soldado de polícia lhe entregar a farda, somente porque prendeu um cidadão do seu círculo de amizade.

Marcionilo era rebelde, pois não recebia ordens paralelas de ninguém. Ordens, somente quando partiam do seu comandante. Foi por isso que, depois daquele episódio o Piancó, definitivamente deixou a polícia para não mais retornar. Restou apenas a lembrança dos principais fatos ocorridos durante tempo em que correu atrás de bandidos.

Certa vez, Joãzinho filho de Senhor de Pai Benigno, exatamente na calçada da casa do tio Cândido, perguntou: ¨ Ô Marcionilo durante todo aquele tempo que você estava a correr atrás de bandidos qual foi o seu pior momento”? Ah, meu Joãozinho, não lhe conto, veja só o que aconteceu comigo: ¨certo dia eu estava com vontade de vir a Pombal. A volante estava estacionada nas proximidades de Jericó. Falei com o tenente expliquei minhas razões, assim ele me concedeu seis dias de folga. Estava com saudades da minha mulher Maria Catarina meu grande e único amor desde quando menino”.

Selei o cavalo, marquei o rumo de Pombal e tomei a estrada, fui-me embora. Depois de mais ou menos uma hora de cavalgada vi ao longe um sujeito num cavalo preto que vinha na minha direção. Eu disse: êta diabo, a coisa vai ficar ruim. O sujeito ao se aproximar falou-me: ¨bom dia senhor¨! Respondi: bom dia!. Olhou pra mim, com um olhar estranho e perguntou: ¨por acaso pra onde o senhor pensa que vai? Respondi: penso não, vou pra Pombal. Comecei a olhar pra o sujeito e vi coisas estranhas que não era comum em nós humanos.

Como era o sujeito? Perguntou Joãzinho. ¨Ora, ele não tinha pernas. Apesar de estar sentado no cavalo, só conseguir enxergá-lo dos joelhos pra cima. Além do mais, os olhos dele pareciam duas brasas e o cavalo não tinha orelhas muito menos rabo¨.

Quem era então esse homem? Perguntou Joãozinho. Marcionilo pensou um pouco e respondeu: ¨acho que só podia ser o cão¨. Essa história perdurou por muito tempo. O tio Cândido costumava dizer que Marcionilo foi o único homem que, depois de Jesus, conseguiu conversar com o diabo.

O tempo passa e Marcionilo continua a frequentar a calçada da casa de Cândido. Numa dessas noites, estava presente todo grupo de amigos e suas respectivas esposas. Era a época em que Frei Damião estava a celebrar a Santa Missões Evangelizadoras. Então alguém falou que Marcionilo devia ir a Igreja para se confessar com Frei Damião.

O que! Respondeu Marcionilo. ¨Eu, contar os meus segredos a um comedor de feijão como eu¨? ¨Jamais¨ ! “Maria Catarina sua esposa, entrou na conversa e falou: ¨ ora, todo dia eu rezo pra ele ir a Igreja e se confessar, porque acho que nas suas andanças por aí cometeu uma danação de pecados, mas, não tem jeito.”

A pressão em cima de Marcionilo por parte das pessoas que estavam ao seu redor foi muito forte. Assim sendo resolveu comparecer a Igreja a fim de contar seus pecados a Frei Damião. À noite todo mundo foi a Igreja para testemunhar esse grande momento. Entrou na fila e pacientemente esperou por sua vez. Enfim chegou a tão esperada hora. Marcionilo frente a frente com Frei Damião.

Inicialmente começou a falar alto, mas foi repreendido pelo Frade. Assim, quase sussurrando, começou a contar seus pecados. Quem estava mais próximo, percebe que cada pecado que Marcionilo contava o Frei se benzia e dizia: ¨meu Senhor Jesus nunca vi coisa igual, tende piedade desse vosso filho¨.

Foi uma confissão demorada. Já no final, Frei Damião ouviu uma revelação feita por Marcionilo que o deixou apavorado. Marcionilo falou que tinha conversado com o cão. O nervosismo tomou conta do ambiente porquanto o Frade ficou sem ação, pois não acreditava no que estava a ouvir.

Numa reação instantânea o Frei pulou fora do confessionário, foi até o altar-mor, fez algumas orações e retornou. ¨Como é mesmo filho você conversou com o maligno? Perguntou o Frei. Conversei sim. Respondeu Márcionilo. Você não teve medo dele roubar a sua alma¨? Respondeu Marcionilo: ¨Frei se ele tivesse se aproximado de mim teria sido espetado no meu punhal, como já espetei muitas cabras safados por esse mundo afora¨.

Basta Filho! Basta filho¨! ¨Você está perdoado dos pecados. Agora, não volte mais a pecar¨. ¨Vou lhe passar uma penitência leve. Você vai ter que rezar todo dia 50 Pai Nosso e 30 Ave Maria. Isso durante o ano inteiro. Assim determinou o Frei¨.

Marcionilo ficou tão leve que nem sequer foi pra casa jantar, pois permaneceu na Igreja para assistir à celebração da novena. Contrito, pôs-se a escutar a palavra do Senhor Jesus, na hora da homilia.

A sua empolgação diminuiu quando o Frade, justo na homilia fez referencia  a grande incidência de pecadores em Pombal, falou: ¨ nesta terra tem até gente que conversou com o cão. Marcionilo fala baixinho ao ouvido da sua esposa Maria Catarina: ¨o Frei já começou conversar besteira.  “Continuou: ¨se falar o meu nome tenho certeza que não vai dar certo”.

Com medo de ser exposto à curiosidade da multidão reagiu: ¨vamos embora minha Maria¨. A esposa resistiu ao seu convite, seja preferiu ficar. Assim sendo esperou um pouco mais e viu que o Frade não citou o seu nome. No outro dia na calçada da casa do tio Cândido era só o que se falava:  Marcionilo descobriu os caminhos da conversão. Veja só, até um crucifixo pendurado no pescoço a exemplo dos frades Franciscanos.

Realmente houve uma mudança considerável no seu modo de viver. Passou a frequentar a Igreja, em companhia da esposa, porém, sem jamais abdicar os seus princípios de honradez e dignidade. Assim viveu, assim morreu.

João Pessoa,03 de Abril de 2013

Ignácio Tavares

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