Meio ambiente e a herança da agricultura itinerante no semi-árido nordestino

12 mar 2013

Meio ambiente e a herança da agricultura itinerante no semi-árido nordestino

(*) José Romero Araújo Cardoso

Dispondo de poucos recursos técnicos, encontrando-se ainda num estágio pouco evoluído, nossos indígenas praticaram a agricultura itinerante durante milhares de anos antes da chegada das naus comandadas por Pedro Álvares Cabral.

Ainda hoje diversas tribos indígenas da região amazônica realizam este tipo de sistema agrícola, plantando milho, mandioca, etc. (Grisi, 1997, p. 11), adotado não apenas pelos silvícolas brasileiros, mas por diversas populações primitivas das florestas tropicais.

A agricultura itinerante consiste basicamente na derrubada de um certo trecho da floresta, queimando-o como preparo da terra para o cultivo de subsistência, obtendo durante poucos anos (4 a 6) alimento (id, ibid.).

Posteriormente a área modificada primitivamente pela ação do homem é abandonada por que se tornou improdutiva, ocupando-se outra e assim gerando um ciclo, embora, geralmente, a área utilizada inicialmente para a prática agrícola de subsistência pudesse ser reutilizada.

Este era o sistema utilizado pelos antigos habitantes da colônia portuguesa que lhe rendeu posição privilegiada no mercantilismo, embora os danos ambientais da cultura canavieira tenham sido maiores que os provocados pela agricultura itinerante dos indígenas brasileiros.

A colonização sertaneja atesta bem a absorção das práticas agrícolas dos primeiros habitantes, pois a agricultura de subsistência praticada pelos povoadores europeus, principalmente pela população que se originou da mestiçagem e agregava-se às fazendas de gado e posteriormente de algodão, não raras vezes existindo binômios entre a produção econômica da hinterlândia, permitindo ainda consórcios da cotonicultura com a agricultura de subsistência, incorporou práticas indígenas que comprometem o frágil ecossistema do bioma semi-árido.

As condições de solo e clima no sertão nordestino intensificam os impactos ambientais que surgem após a queimada da vegetação nativa a fim de se dispor de espaço para o plantio das culturas de subsistência, em um processo conhecido regionalmente por coivara.

Essa herança da agricultura itinerante indígena é uma das responsáveis pela destruição da microfauna, da microflora, bem como das espécies de grande porte, enfim, da progressiva eliminação da biodiversidade, da biota catingueira, presentes no grande ecossistema. Frisa-se que a simbiose entre fauna, flora e clima é uma característica indissociável da ecologia do semi-árido brasileiro.

A fragilidade revelada pelo bioma intensifica ainda mais os danos ambientais quando a caatinga é agredida pela dinâmica das exigências econômicas, inúmeras destas representando efetivamente preocupação em escala ampliadíssima quanto às perspectivas de recuperação ambiental. A exploração petrolífera, por exemplo, tem trazido sérios questionamentos referentes à intercalação necessária e imprescindível entre desenvolvimento e meio ambiente.

No caso das coivaras, a proporção da agressão ao meio-ambiente é, infinitamente, bem menor que a provocada pelas atividades envolvendo o setor de hidrocarbonetos, ou mesmo no caso da fruticultura irrigada, tomando como referência uma das bases econômicas da região oeste potiguar. A derrubada da mata nativa a fim de ceder lugar à exploração agrícola para exportação tem exibido conseqüências drásticas para a natureza e para as populações de baixa renda. Os problemas enfrentados pelas pessoas que dependem do que oferece a lagoa do Piató, no município de Assú (RN), como recursos de subsistência, a exemplo do pescado antes abundante, mostram como a ausência de uma mata ciliar circundando reservatórios d’água ou escoamentos superficiais, pode afetar a qualidade de vida de uma comunidade humana.

Em se tratando da queimada da mata para o plantio, a questão está justamente no uso indiscriminado e disseminado desta prática, ameaçando todos os componentes vivos do sistema ecológico regional e acentuando problemas crônicos que fazem parte da climatologia local, a exemplo do recrudescimento das estiagens por que a vegetação nativa está desaparecendo gradativamente, contribuindo dessa forma para que se rompam os elos das complexas cadeias bióticas e abióticas no sertão nordestino.

(*) José Romero Araújo Cardoso é professor do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte.

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