O Inimaginável

15 abr 2013

Tudo dentro da rotina de uma casa com seus vinte e poucos anos de construída. Algumas rachaduras nas paredes, alguns caibros e ripas desgastados com o último ataque de um cupinzeiro, algumas telhas reviradas ou quebradas graças aos “amassos” noturnos dos felinos, alguns vazamentos na pia da cozinha, entupimento em alguns canos do esgoto, algumas taiocas aqui e ali querendo o açúcar da casa e as velhas manchas no piso devido às inúmeras lavadas sofridas pelo mesmo. Até aí, tudo dentro da normalidade. Nada que pudesse tirar o sossego de uma humilde residência. Até que, em um certo dia, o inimaginável aconteceu. Do nada, como se tivessem caído de paraquedas, igualmente soldados em campana durante a II Guerra Mundial, eis que surgem elas, as temerosas, arteiras, incansáveis e macabras saúvas, ou como conhecemos aqui em nossa região, as famosas “formigas de roça”.

No seu paladar normal, as “formigas de roça” normalmente são vistas em suas intocáveis cavernas subterrâneas, onde um cume gigantesco de grãos de areia ou barro são amontoados como um verdadeiro forte, no formato da boca de um majestoso vulcão, que rapidamente se multiplicam, mais parecendo que a cadeia de montanhas do Himalaia se transformou em centenas de núcleos vulcânicos. Essas pragas portadoras de uma cabeça em forma de coração com um alicate serrilhado na frente da boca, capaz de cortar até mesmo o mais duro material que se possa encontrar são teimosas ao extremo e se danam a multiplicar sem prévio aviso. Coitada da roseira de estimação de minha mãe. Em um único ataque noturno as saúvas devoraram todas as folhas e os botões de rosa da planta.

Elas são ligeiras e dividem o trabalho taticamente: enquanto umas sobem no caule, se espalham pelos galhos e usam suas “tesouras trinchantes” para cortar as folhas em pedaços, já tem um verdadeiro exército de carregadeiras lá embaixo, esperando a chuva de folha picada começar para transportarem até o labirinto-formigueiro.

Mãe entrou em desespero, temendo o fim de sua planta predileta. Danou-se a jogar “baygon” no caminho das formigas, que acuadas, resolveram fazer uma retirada estratégica… momentaneamente.

Engana-se quem pensa que as “formigas de roça” desistem fácil. Mãe estava toda orgulhosa, achando que tinha acabado com o exército vermelho das saúvas por ter descoberto o foco a tempo. Três belos dias depois, o inimaginável aconteceu de novo. Como que por vingança, as desordeiras montaram acampamento adivinha onde? Isso mesmo, nas paredes e pisos da casa. Não havia uma rachadura ou buraco que não tivesse na sua frente o seu montinho de grãos de areia, numa demonstração descarada de que elas estavam ali, eram muitas e que não iam arredar o pé facilmente. Que foi que mãe fez? Recorreu novamente ao “baygon”. Desta vez comprou seis frascos aerossol de diferentes marcas e começou a atacar as tropas formigais.

Após o ataque, vários “soldados sauvenses” jaziam abatidos ou se contorcendo com o odor do veneno que se apoderava da sua armadura espinhenta. O passo a seguir foi varrer os grãos de areia e recolher juntamente os corpos das formigas falecidas, que pela raiva ocasionada, não iam ganhar uma sepultura digna, sendo disponibilizadas no lixo doméstico mesmo.

Certo que desta vez as formigas demoraram cerca de duas semanas para darem as caras, o que nos fez pensar que elas tivessem levantado acampamento e tivessem ido infernizar algum outro vizinho. Que nada, depois de quatorze dias o inimaginável voltou a se repetir. Elas voltaram firmes, fortes e vigorosas e, além dos tais buracos e rachaduras mencionadas, resolveram aparecer em um lugar inimaginável: o ralo do banheiro. Isso mesmo, o tal ralo, que todo santo dia passa água por ele e que tem um emaranhado de cabelos enganchados como na casa de qualquer mortal.

Agachei-me para observar se aquelas danadas usavam algum tipo de roupa de mergulho ou estavam equipadas com um cilindro de oxigênio, pois diante da minha ignorância não era possível imaginar um formigueiro brotando naquela “cachoeira artificial”.

Pois bem, lançado o terceiro desafio, deste vez sem a presença de mãe, que se encontrava em viagem para São Paulo, coube a mim dar fim ao “reduto formigal”, e para tal feito, resolvi mudar a tática apelando para um veneno em forma de chocolate granulado. Os “especialistas” dizem que é o mais eficaz, pois as saúvas levam o veneno até sua rainha, e que está ao ingeri-lo, acaba morrendo e, com a morte da “general”, põe-se fim aos meros soldados.

Foi apelar para ver se surtiria efeito. Se nada daquilo funcionasse já tinha programado um plano B, que seria contratar um dedetizador.  E se até o dedetizador fosse inútil, talvez eu apelasse para algumas bananas de dinamite, implodindo o quarteirão inteiro.

Ou eu ganho essa parada, ou ninguém fica com nada.

Como que por encanto, da mesma forma que surgiram, praticamente do nada, as saúvas desapareceram junto com o veneno granulado, e até este momento não me escreveram ou ameaçaram retorno.

Álisson Oliveira
ahalisson@gmail.com

Comentários