O Saxofone

8 mar 2013

O SAXOFONE

Meu ponto era esse. Sempre fora: A calçada de granito branco, do luxuoso restaurante, na orla marítima. Desde pequenino, quando ainda tinha minha mãe. Agora, nem ela tenho mais. Há tempos passados, longínquos, muito distantes mesmo, tempos mais leves, mais suaves, mais alegres, com mamãe. Lembro-me, apesar de tanto tempo passado, perfeitamente, quando eu, puxado pelas mãos firmes de minha mãe, descia o morro, a passos lentos, porque as pernas eram tão pequenas que não caminhavam rapidamente. Descíamos o morro todos os dias, eu e minha mãe, e aqui ficávamos, quase todo o dia, esperando pela generosidade dos outros.

Minha mãe sentada, comigo no colo, próxima àquele entra e sai incessante dos clientes. Escuto, agora mesmo, o barulho das moedas que faziam barulho ao cair na pequena vazia de metal que minha mãe segurava, tão vivas são as lembranças, mas esta não é a marca maior desse tempo. O momento marcante do dia, não só para mim, tenho certeza, era quando começava a música ao vivo. Instrumental apenas, tocada pelo mágico saxofonista.

Sim, a magia do saxofonista e de sua música era inesquecível. Impossível não ser tocado. A música dialogava com minha alma, partilhava meus segredos, minhas, dores, meus sonhos e desejos. E era o saxofonista que produzia sonhos em todos os clientes, penso eu. Assim eu o chamava, o produtor de sonhos. A música tirada do saxofone tinha a força vinda da alma. De uma alma nobre, plena de amor, por isso ela me acalmava. Eu ficava bem quietinho no colo de minha mãe, e podia ver que do rosto de minha mãe, gotejavam lágrimas. Lágrimas, pesadas, sentidas, doídas, sofridas, amargas. Eu menino ainda, não compreendia muito bem.

Neste mar de recordações sinto o perfume de antes. O inconfundível perfume. Volto rapidamente para a realidade. Para a minha calçada de granito branco, para minha triste condição, para a minha solidão. Aquele perfume inconfundível e perturbador me acordou do passado. Um perfume forte, fascinante, desconcertante. Atraente como sua dona. O mesmo perfume, por tantos anos seguido, usado por ela. Volto a cabeça, e a vejo bem perto de mim. Lá está a figura majestosa de uma mulher fina, elegante, discreta. Observo seu andar, seu ponte, suas vestes. O tempo não conseguiu tirar sua beleza, seu fascínio, seu ar imponente, nem a sua pontualidade para o chá das três. Quase tudo mudou, menos sua pontualidade, sua fidelidade.

Ela nunca se atrasara para o precioso ritual do chá das três horas. Parecia até uma inglesa que não dispensa nunca seu sagrado chá das três. Há muito tempo atrás, pela primeira vez, ela veio com uma idosa e charmosa senhora, com idade avançada, que provavelmente seria sua avó. Ela era tão bela. Uma verdadeira deusa grega. Poucas vezes vi mulher tão bela, assim, essa figura ficou marcada em mim. Ela e o seu perfume. Seu perfume era singular, único.

A beleza dessa jovem e aquela maravilhosa música tirada de um saxofone eram surreais, mágicas. Eu sonhava todas as noites com a jovem e o saxofonista. No meu sonho eu via o leve sorriso desenhado nos lábios da jovem, direcionado ao saxofonista, que a olhava fixamente. Eu via também o brilho nos olhos deles, e percebia como sua música se tornava mais forte, vibrante, penetrante, profunda, apaixonada. No meu sonho eu ouvia a música dizer que o amor brotou entre os dois. Amor profundo, tocante, estonteante, mágico como a música saída do saxofone.

Uma buzina insistente me traz de volta ao presente. Volto à calçada, ergo a cabeça, estico o pescoço. Pelos vitrais, impecavelmente limpos, vejo o saxofonista, no seu lugar de costume. Imediatamente procure pela mulher, a velha conhecida, a mulher do chá das três. E lá está ela, na mesma mesa de quarenta anos atrás. Sentada na mesma cadeira, bem em frente ao saxofonista. Ele começa a tocar, e a música, como sempre fala na sua alma, fala na alma dela. Aquela música é a deles. Diz, grita, chora o que eles jamais puderam viver. É sempre a primeira e a última tocada por ele.

Por algum tempo esqueço os transeuntes, as pessoas que entram em saem do renomado salão. Esqueço as moedas caindo na vasilha. Estou como que hipnotizado por essas duas figuras. Percebo que o saxofonista tem agora os cabelos grisalhos, e já atreve-se a sorrir para ela. Que mantém, nos lábios, o mesmo sorriso leve, discreto de quarenta anos atrás. Os cabelos dela estão curtos agora, tão diferentes dos de antigamente. Longos, solto ao vento. Eles mudaram, mas o amor não. Está entre os dois, intocável em seus corações.

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