Passe ou “repasse” livre?

11 jul 2013

Muito cuidado quando tratarmos de gratuidades acerca de certos produtos ou serviços. Sabemos que o atual sistema econômico mundial, que gira especialmente sobre os bens de consumo não costuma dar nem tornar algo ou produto gratuito.

Todos os setores e órgãos que fazem a máquina trabalhar e o sistema produzir estão interligados na atual globalização. Em face disto, podemos perceber que, em determinados setores, não se é possível usufruir integralmente de produtos e serviços de forma livre e gratuita, pois tudo tem seu preço de mercado ou de manutenção. Não importa como, o setor econômico e financeiro mundial ministrado pelo capitalismo vai sempre encontrar uma maneira de repassar o custo ao consumidor final, no caso, o trabalhador comum, aquele visto como o elo mais fraco, que está sempre a carregar nas costas o peso do luxuoso padrão de vida dos membros da elite, que ficam no cume da pirâmide social.

Essa mesma elite não é boba, pois detentora dos meios de produção achará sempre um modus operandi para transferir os encargos ao trabalhador comum, e que este se vire, sue mais a camisa e se esforce arduamente para manter seu frágil poder de consumo em dia, e em contrapartida, encha ainda mais os cofres e as finanças da burguesia faminta por cifrões, bancando suas vidas pomposas.

Como podemos exemplificar um modo de repasse de valores ao pequeno consumidor? Vamos usar o exemplo da redução da tarifa de energia elétrica, que sofreu um corte de 18%, o que automaticamente faria com que a conta de luz viesse com um valor bem reduzido. Porém, para que tal redução sofra o efeito, é preciso que algum outro setor banque os prejuízos que as concessionárias de energia alegam que irão ter com o reajuste. Geralmente esse setor encarregado é um órgão público, e a verba sairá do Tesouro Nacional, ou seja, dos nossos próprios impostos, pagos religiosamente em dia. Mesmo que não seja injetado dinheiro público para conter tal prejuízo, seria necessário encontrar uma outra maneira de sanar a perda de lucro por parte do proprietário/fabricante. Se a injeção de dinheiro sair de outro setor da iniciativa privada, por exemplo, vai dar no mesmo quando se chegar no valor final do lucro e do prejuízo. Quem vai pagar a conta? O povão, lógico. Como? Tendo seu poder de consumo freado ou diminuído, ficando refém de assistencialismos, o aumento salarial ficará bem abaixo da inflação, haverá cortes no número de empregados gerando o desemprego. Por que isto? Porque o capitalista não está acostumado a abrir mão do seu capital de lucro, ele nunca vai tirar os gastos e repasses do seu lucro, isso seria um suicídio financeiro. Ele vai descontar naquele que é o encarregado de lhe dar todos aqueles bens, o trabalhador.

Tudo que a Lei do Passe Livre, se por ventura vier, vai trazer é uma sensação momentânea de causa conquistada e de usufruir algo grátis, bancado por outros. Ledo engano meu amigo. Como foi dito, no sistema econômico capitalista tudo tem seu preço, e não será o burguês que irá pagá-lo, pelo menos não a maior parte, nem sozinho, ele trará o seu funcionário para se enterrar cada vez mais no mundo do pesado trabalho e dos impostos, pois os impostos pagos pelo patrão saem do esforço trabalhista do empregado.

O problema não está na proposta, mas no sistema, que não aceita gratuidades.

Com isso, vai se abrindo um sistema em cadeia de repasse: o pãozinho sobe, que por sua vez faz o preço do açúcar subir, que faz o custo da entrega aumentar, se o salário aumenta, tudo aumenta em seguida, porque ninguém vai agir como “pai dos pobres”.

Querem outro exemplo maior? O aumento dos combustíveis e seus derivados, principais produtos de grande valor no atual sistema capitalista. Você pode até alegar que não possui carro ou motocicleta, que anda de bicicleta, mas no final, aquele feijãozinho da feijoada de domingo ou aquela blusa que você viu na loja vai ter o seu valor reajustado para que você pague por aquele aumento ou por qualquer benefício dado por aqueles que se fazem de benfeitores dos mais necessitados.

Olho vivo quando se tratar em questão de gratuidade nas causas e coisas.

Alisson Oliveira
ahalisson@gmail.com

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