Quebrando Paradigmas

18 mar 2013

QUEBRANDO PARADIGMAS

Marinalva Freire da Silva
Professora da UFPB/UEPB. Membro da UBE-PB.
APEESP-SP. AFLAP. IPGH

Inicio minha singela crônica com o parágrafo conclusivo de um artigo sobre a renúncia de Bento XVI, de Mario Vargas Llosa (escritor peruano detentor do Prêmio Nobel da Literatura em 2010), traduzido por Anna  Capovilla, publicado no ESTADÃO, São Paulo, 25 de fev. de 2013):

A decadência e a vulgarização intelectual da Igreja evidenciadas pela solidão de Bento XVI e a sensação de impotência que aparentemente o rodearam nesses últimos anos são sem dúvida fatores primordiais de sua renúncia e um vislumbre inquietante de quão incompatível nossa época seja com tudo o que representa vida espiritual, preocupação pelos valores éticos e vocação pela cultura e pelas ideias.

Contra-argumentando o posicionamento de Vargas Llosa, José Chitumba Samalambo, padre angolano radicado no Brasil, em conversa comigo, assim se expressou:

Professora, esse é um dos grandes problemas que o novo Papa vai encontrar na Igreja, mas não é verdade que seja o motivo primordial pelo que Bento XVI, se demitiu, porque significaria que ele fugiu das dificuldades, e isso  não é próprio de Bento XVI, pois,  que eu conheço bem; antes ele como Papa e antes de ser Papa é um homem muito corajoso. Portanto, todos esses problemas que não deixam de ser verdade, da e na Igreja se evidenciaram mais no tempo de Bento XVI,e é um homem que os enfrentou com muito cabedal, e também, evidentemente com susto: diz ele em algum momento cheguei a perguntar-me se Deus não estivesse dormindo”. Mas o Papa sempre confia na força, embora invisível ( daí o motivo da ” solidão”, na força daquele que disse as forças do inferno não prevalecerão sobre a minha Igreja.

Concordo com Pe Chitumba, homem de visão, que viveu 12 longos anos na Itália .

É notório que a renúncia de Bento XVI é um fato que nos leva a uma reflexão profunda sobre os descaminhos da Igreja, que apesar de tantos erros graves no passado ainda não aprendeu e segue praticando “absurdos aos olhos dos mortais. É fácil atirarmos pedras. Mas quem de sã consciência no planeta Terra não errou? E por que voltarmos os olhos só para os desmandos eclesiásticos? Não nos esqueçamos de que todos somos mortais  imperfeitos, sempre conduzindo nas costas nossa mochila de imperfeições enquanto pomos na nossa frente a mochila de imperfeições do  próximo, mais cômodo, não?…

Muitos brasileiros atiram pedras no Papa emérito, mas se esquecem de refletir sobre os desmandos do Brasil, as corrupções, a hipocrisia, a venda de indulgência, que aqui corresponde à compra de votos através de favores, entre outros…

A sociedade atual ou pós-moderna traz como estigma a queda de todos os paradigmas, inclusive a inversão total dos valores, o esquecimento de que sem o OUTRO nada somos, o que gera a falta de solidariedade humana, pois estamos em uma selva de pedra cuja vitória pertence ao mais poderoso, ao que detém o poder, a fama. Esta mesma sociedade exige que a Igreja mude o olhar. Concordo que na atual conjuntura em que a cibernética domina o mundo, a internet comanda o ser humano em quase todos os aspectos, em especial no consumo exagerado do material. O homem consome tudo. E a guerra do sexo, das drogas, do alcoolismo… e a luta para vencer o maior câncer que é a depressão porque ninguém tem mais tempo para perder com o outro, e este se torne descartável, valendo pelo que tem, não pelo que é. A solidão passa a ser a companheira inseparável do homem.

Essa mesma solidão tomou conta de Bento XVI, já com a saúde fragilizada, junto à cobrança da sociedade (que pouco faz em prol da paz) pelos incessantes casos de indecoro de alguns cléricos, além do que acontecia à revelia no cenário Vaticano, o problema do patrimônio financeiro  entre outros problemas de dífícil solução , tudo isso levou o Pontífice a ancorar seu barco e suspender a caminhada, posto que ele, após horas e horas de reflexão, chegou à conclusão que não teria condições de pôr em ordem tantos desmandos .. deu adeus. Mas, antes, atendeu ao “Cardeal Keith O’Brien, homem mais importante na hierarquia da Igreja Católica na Grã-Bretanha, que apresentou pedido de renúncia , no dia 18 de fevereiro, após ter seu nome envolvido em um escândalo ocorrido há três décadas”. A meu ver, este fato acelerou ainda mais a renúncia de Bento XVI uma vez que lhe fragilizou ainda mais.

Sabemos que os problemas que o novo Papa sem dúvidas vai encontrar, e por isso devemos rezar desde agora fortemente para que o conclave fique completamente incendiado pela luz e força do Espírito Santo, para que dele surja um Papa com muita luz como Bento XVI, mas com mais energias e mais saúde, para que a barca de CRISTO seja conduzida daqui para frente sem interrupção.

Peçamos a Deus que ilumine os cardeais que pretendem substituir Bento XVI que sejam mais jovens e tenham coragem para pôr em marcha a Igreja, a fim de que ela possa acompanhar a evolução dos tempos sem a degenerescência,  e que muitos obstáculos denominados dogmas, sejam revelados ao mundo, que os padres possam casar-se, melhor do que seguirem com a hipocrisia de pseudo-votos de castidade, escandalizando a sociedade,. Os tempos inquisitoriais já passaram e não têm volta. Pelo andar da carruagem, vai ser difícil o próximo papa comandar a Igreja  ignorando todos os problemas deixados sem solução pelos anteriores.

É aconselhável não nos esquecermos de que as profecias estão sendo cumpridas. Estamos na quaresma, tempo de mudança, de ressurreição, com esperança de dias melhores. Será que os teremos?

Por isso, é preciso que a Igreja reflita sobre as mudanças que urgem serem feitas, pois nem tudo está perdido. E a renúncia do Papa, bem como a crise pela qual a Igreja atravessa não é motivo de abandoná-la. Pelo contrário, devemos alimentar nossa fé.

“Sejamos o elo e seremos a vitória”.

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