Ulisses Liberato de Alencar: Ovelha desgarrada da “elite branca” do algodão

15 abr 2013

Ulisses Liberato de Alencar: Ovelha desgarrada da “elite branca” do algodão
José Romero Araújo Cardoso*

Apesar de ter se destacado entre os mais cultivados e astutos chefes de cangaço do início da segunda década do século XX, Ulisses Liberato de Alencar foi um proeminente membro da orgulhosa aristocracia rural que se formou no sertão nordestino com o apogeu da cotonicultura no século XIX e parte do século passado.

Ulisses nasceu em “berço de algodão” na fazenda “Estrelo” no ano de 1894, natural do município de Pombal, cuja localização geográfica está no alto sertão da Paraíba, situado a quase quatrocentos quilômetros da capital, na confluência dos rios Piranhas e Piancó.

Seu pai era o fazendeiro e almocreve Francisco Liberato de Alencar, descendente do mesmo ramo familiar do qual faz parte o romancista cearense José de Alencar. Do lado materno descendiam de judeus. A mãe de Francisco Liberato de Alencar, de nome Ana Maria da Conceição, dos Cardoso D’Arão, era filha de um descendente de criptojudeu de nome João Ignácio Cardoso D’Arão, cujo pai fugiu do litoral paraibano para escapar das perseguições da inquisição que acusava a comunidade de prática judaizante, estando a mesma localizada, mais precisamente, na área adjacente a Gramame, em uma localidade conhecida por Engenho Velho.

Após a fuga se homiziaram no cariri cearense e depois em uma comunidade conhecida por Mari dos Seixas, localizada em São João do Rio do Peixe, pertencente na época à localidade de Sousa, Estado da Paraíba, rumando depois para Pombal, onde se instalaram definitivamente.

Até 1914 o futuro líder bandoleiro era apenas mais um entre tantos sertanejos que labutavam nas adustas plagas tórridas da região do Piranhas-Piancó. O seu espírito belicoso e aguerrido só despontou com ênfase quando da seca de 15. Esta estiagem destruiu as economias amealhadas a custo pela outrora imponente família Liberato de Alencar, embora passado o rigor climático tenha havido o equilíbrio das finanças dos alencares.

Associado a essa desgraça cíclica veio a morte de Francisco Liberato de Alencar, fazendo com que Ulisses se aproximasse de famílias abastadas que personificavam a classe dominante da hinterlândia paraibana. Situavam-se degraus acima dos alencares na estamentação da sociedade sertaneja agro-pastoril.

No complexo inter-relacionamento entre oligarquias havia laços de suserania e vassalagem conforme os favores e benesses concedidos. Os alencares já não dispunham de posses que rivalizassem com famílias historicamente detentoras do mandonismo local, como Queiroga e Fernandes. A submissão de Ulisses o levou aos caminhos da vida marginal.

Favores “exigidos” por “protetores” dos momentos de infortúnios comprometeram a família e o próprio Ulisses. Já não era o considerado filho do respeitado e rico fazendeiro do “Estrelo”. Transformou-se rapidamente em um bandido que roubava e matava a serviço da falta de escrúpulos e da ausência de valores. Selava assim o seu destino às leis do bacamarte e da lazarina.

O prestígio dos alencares, decaído em razão da inserção de um membro da orgulhosa aristocracia do algodão nas hostes do cangaço, amalgamado com os efeitos da seca inclemente, precisava ser reerguido.

Ulisses foi enviado pela família a São Paulo a fim de se regenerar. Logo a solução se mostrou inviável, pois o bandido não demorou o bastante na região Sudeste. Retornou ao sertão e recomeçou toda uma série de estrepolias e escaramuças.

Antigos “protetores” começaram a se mostrar preocupados com aquele “arquivo vivo” solto na caatinga. Não era em vão o temor que os caudilhos sertanejos demonstravam.

Dotado de um temperamento violento e impulsivo, Ulisses invadiu a fazenda “Bom Jesus”, em Pombal, surrando impiedosamente a sua proprietária de nome Antônia Maria da Conceição em razão que esta o estaria difamando, comentando seus crimes nas redondezas. Contemporâneos do bandido, no entanto, afirmavam que o mandante de tal atrocidade tinha sido famoso “Coronel” que marcou época no sertão, implicado diretamente nas desditas da ovelha desgarrada da “elite branca” do algodão.

As conseqüências desse ato se revelaram negativas a Ulisses e aos mandatários de baraço e cutelo, vindo à tona diversos crimes praticados pelo futuro cangaceiro. A partir disso ele se tornou mais perigoso, representando uma ameaça mais latente aos seus antigos “protetores”. O caminho a seguir era o cangaço, ombreando com salteadores famosos do nordeste semi-árido a sua triste sina.

Ulisses se tornou mais um cavaleiro nômade vestindo a couraça dos guerreiros sertanejos. Empunhou o rifle, amolou a faca que um dia seu pai abriu caminho na caatinga conduzindo tropas de burros, e formou seu bando com a matéria-prima inesgotável na região. Onde há miséria e perseguição não faltará quem viva à margem da sociedade alardeando a revolta aos quatro cantos.

Suas ações, rápidas e precisas, valeram-lhe fama e respeito de outros grupos bandoleiros. Em considerável parcela da região semi-árida de quatro Estados nordestinos seu nome granjeou notoriedade fabulosa. Boa parte da Paraíba, do Rio Grande do Norte, do Ceará e de Pernambuco registrou as ações espetaculares de Ulisses Liberato de Alencar.

A definição de um dos valhacoutos da fera sertaneja na localidade do Barro, Estado do Ceará, feudo inconteste do todo poderoso “Major” José Ignácio de Sousa, determinou a aproximação do cangaceiro com outro proeminente membro da oligarquia sertanejo, não menos afortunado que Ulisses. Atendia pelo nome de Sebastião Pereira e Silva, o célebre “Sinhô Pereira”. Junto com o primo Luiz Padre moviam luta sem quartel na secular guerra interfamiliar envolvendo sua família e a dos Carvalhos.

O “Major” José Ignácio era um dedicado coiteiro, considerado o maior de todos. Amigo dos alencares, principalmente de Argemiro, agente econômico na comercialização das famosas rapaduras dos engenhos do velho caudilho cearense no sertão da Paraíba.

Já cangaceiro profissional, Ulisses resolveu se casar com uma sertaneja de nome Santina. Corria o ano de 1918. As perseguições ininterruptas passaram a atingir além do “Estrelo”, nas localidades onde residam os parentes de sua esposa. Torturas e sevícias eram os métodos mais utilizados pelas forças volantes a fim de obter informações sobre o paradeiro do bandido.

O cangaceiro só podia amar com satisfação o cheiro da caatinga molhada depois das chuvas que põem fim às secas, o xiquexique trespassado de espinhos e as colinas sertanejas, seus esconderijos mais usuais. Além disso, apenas a confiança em suas armas e à frieza dos seus punhais. O casamento era uma instituição social que não podia ser desfrutado plenamente pelos bandoleiros das caatingas.

No Barro Ulisses firmou sólida amizade com o vingador do sertão do Pajeú, passando de chefe de grupo independente a de subgrupo do bando de Sinhô Pereira. Neste ensejo estendeu sua luta a Pernambuco. No mesmo ano que se casou houve uma verdadeira devassa no território controlado pelo velho “Major” José Ignácio. Acossado por volantes cearenses, o famoso coiteiro deixou o nordeste em companhia de Luiz Padre, homiziando-se no Estado do Goiás, onde foi assassinado na localidade de São José do Duro (hoje Estado do Tocantins).

Em 1919, unindo forças com o grupo de Sinhô Pereira, destroçaram volantes aquarteladas na vila de São Francisco de Villa Bella (hoje Serra talhada, Estado de Pernambuco).

Nas batalhas travadas Ulisses teve por companheiros todos os maiorais do banditismo rural que infestava o nordeste, destacando-se entre estes, além do comandante já citado, àquele que se tornou o “rei de todos os cangaceiros”: Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião.

O ataque à vila de São Francisco repercutiu negativamente, pois a perseguição recrudesceu de forma impressionante. Antigos aliados do “Major” José Ignácio que ainda lhe dava proteção no Estado do Ceará garantiam-lhe ainda relativa segurança.

Em Cantinho do Feijão (hoje Santa Helena, Estado da Paraíba), uma pequena localidade situada no alto oeste paraibano, fronteira com o Estado do Ceará, Ulisses firmou base estratégica.

Para tanto, contou com a proteção forçada de um parente relativamente abastado para a época, residente nesta localidade. Chamava-se Alfredo Cardoso D’Arão, homem muito respeitado no lugarejo fundado por Raimundo Luiz, pai do cordelista Raimundo Santa Helena. Mais tarde, no ano de 1927, o fundador, que na ocasião ocupava o cargo de subdelegado da localidade, foi morto num ataque fulminante do bando de Lampião, quando do deslocamento em direção ao Estado do Rio Grande do Norte, objetivando atacar Mossoró.

Usando a propriedade do parente como base avançada, Ulisses desferia ataques violentos às fazendas vizinhas, bem como às localizadas no Estado do Ceará, exigindo tributos dos desditados fazendeiros. Aqueles que o desafiasse enfrentaria sua vingança terrível. Ulisses não era de brincadeira, assim como seu bando sinistro.

O casamento de Argemiro Liberato de Alencar com Dona Maria Mafalda de Alencar (Maria Francisca Sinésio Benevides) aproximou Ulisses do Estado do Rio Grande do Norte. Nesse ensejo, estabeleceu seu ponto estratégico na fazenda Jordão, localizada entre Caraúbas e Patú.

No dia 11 de setembro de 1922, o fim do apogeu da era Ulisses no sertão de quatro Estados foi selado definitivamente. Encontrava-se em missão de observação na localidade Alagoinha de Lavras da Mangabeira (Estado do Ceará) quando foi preso. Encontrava-se sem o bando. Para não chamar atenção havia preferido agir sozinho na missão que fora a última.

Recambiado à cadeia da cidade do Crato (Estado do Ceará), foi minuciosamente inquirido. A transferência do bandoleiro, para a cidade de Pombal, foi requisitada a fim de que ele respondesse inúmeros inquéritos.

No entanto, o real sentido da transferência era dar prosseguimento à “queima de arquivo” que havia sido planejada pelos poderosos caudilhos que o haviam envolvido na vida de crimes.

No mês de setembro do ano de 1923 foi sumariamente fuzilado. Junto com Ulisses morreram dois companheiros de escaramuças que também se encontravam presos. Com Chá Preto e Polvrinha fez a última viagem, sem retorno, pois quem comandava a escolta policial era um dileto soldado-jagunço a serviço de quem o queria morto. Era o fim da valente ovelha desgarrada que a opulência e a miséria do algodão geraram no sertão do Estado da Paraíba.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:
BARRETO, Alício. Solos de Avena. João Pessoa/PB: A Imprensa, s. d.

MELLO, Frederico Pernambucano de. Guerreiros do Sol: O banditismo no Nordeste do Brasil. Recife/PE: Ed. Massangana, 1985.
Entrevistas Pessoais:

CARDOSO, Vicência (Dona Lunguinha). Pombal/PB – 15 a 16 de junho de 1992.

SOUSA, Benigna Lourdes de. João Pessoa/PB – 18 a 31 de maio de 1993.
(*) José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor-adjunto IV do Departamento de Geografia da UERN. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Contatos: Rua Raimundo Guilherme, 117 – Quadra 34 – Lote 32 – Conjunto Vingt Rosado – Mossoró – RN – CEP: 59.626-630 – Fone: 084-3312-0239 – E-mail: romero.cardoso@gmail.com.

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